A Associação Cultural Afro-Brasileira de Araçatuba realiza a partir desta sexta-feira uma séria de atividades relativas à Semana da Consciência Negra. O Dia da Consciência Negra será comemorado na próxima terça-feira (20), com feriado em Araçatuba. A programação especial inclui apresentações de dança, exposição e uma missa de encerramento.
As atividades acontecem na sede da associação, que tem entrada pela avenida João Arruda Brasil, que amanhã receberá a apresentação da peça "Escorial", pela Cia. do Blefe, a partir das 20h.
No sábado haverá um jantar comemorativo e no domingo, dia 18, será aberta a Exposição de Quadros de Artistas Negros, a partir das 13h. Na segunda-feira será realizada a 2ª exposição sobre trabalhos manuais e artesanatos. No mesmo dia, haverá apresentações de dança de zumba e flash back por grupos da própria associação.
Um dos destaques da programação é a missa de encerramento da semana, que será celebrada pelo padre Rudney Cesar Mendes, que é pároco da Paróquia de São Sebastião Araçatuba. A cerimônia acontece às 10h da próxima terça-feira, feriado da Consciência Negra.
O religioso esteve na África por vários anos e usa alguns dialetos africanos durante a celebração. Ele explica que a celebração será uma missa inculturada, influência recíproca entre o cristianismo e as culturas dos países onde a fé cristã é praticada, com elementos da cultura afro-brasileira, em memória da história e cultura do povo negro. De acordo com ele, a inculturação estará presente no uso das cores, no atabaque, no gingado, na dança, na memória dos antepassados, nas orações e na comida partilhada ao fim da missa.
"A missa já é tradicional na Associação Cultural Afro-Brasileira de Araçatuba. Todos os anos, no dia da Consciência Negra, fazemos a celebração, que é organizada e pensada pela diretoria da associação em sintonia com o padre que a preside. No ano passado, eu presidi essa missa e fui convidado este ano novamente", conta.
O padre Rudney explica que são muitas as línguas africanas e é impossível usá-las todas nesta celebração, por isso, ele usará apenas alguns dialetos. "Não podemos esquecer que África é um continente com 54 países e dentro de cada país tem várias línguas e dialetos", destaca.
Ele ficou em Moçambique, onde morou e trabalhou por oito anos. Lá se fala 32 línguas, além do idioma de unidade nacional, que é o português. "Eu trabalhei com a etnia Macua e aprendi um pouco dessa língua para eu me comunicar e evangelizar", informa.
De acordo com o religioso, essa missa sempre foi inculturada, contemplando os elementos próprios da cultura Afro em memória do Dia da Consciência Negra. A Associação Cultural Afro de Araçatuba sempre organizou essa celebração, tendo a liberdade de convidar o padre para presidir a celebração. Vários padres da Diocese de Araçatuba presidiram a missa, explica o padre.
A missa retrata o Dia da Consciência Negra em um ambiente celebrativo, preparado com símbolos da cultura afro. "Também haverá cantos e as orações nos conduzem à memória deste dia tão importante. Nesta data, celebramos o dia da morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo de Palmares, que lutou para preservar o modo de vida dos africanos escravizados que conseguiam fugir da escravidão", comenta.
Para o padre Rudney, a data significa manter viva a memória dos antepassados e a sua importância está no reconhecimento dos descendentes africanos na constituição e na construção da sociedade brasileira. "Os principais temas que podem ser abordados nessa data são o racismo, a discriminação, a igualdade social, a inclusão do negro na sociedade, a religião e cultura afro-brasileiras, dentre outros", diz.
Segundo ele, a Bíblia ensina que consciência é a compreensão que o povo tem da realidade, tendo como base o projeto de Deus. Ela dá a capacidade de enxergar a ideologia da classe dominante. "Com consciência, alcançamos o discernimento para trabalhar por uma sociedade fundada na justiça e na fraternidade, pontos fundamentais do projeto de Deus. O Deus que se uniu ao povo marginalizado e explorado para promover a liberdade e a vida, em plenitude, para todos", afirma.
Rudney Mendes foi ordenado padre em 2008 e desde então faz parte da Congregação dos Missionários Claretianos. Em 2009, ele foi enviado como missionário a Moçambique, país que fica na costa oriental da África Austral, onde trabalhou por oito anos. Ele regressou ao Brasil por motivo de doença, pois no continente africano contraiu mais de 30 malárias, o que fez com que sua imunidade biológica baixasse muito. "Graças a Deus e aos tratamentos feitos, a malária não deixou nenhuma sequela em meu organismo. O meu desejo era viver e morrer em Moçambique, mas não foi possível devido às inúmeras malárias que peguei. Mesmo assim, me sinto muito missionário onde estou, pois sempre fui enviado pelo meu legítimo superior", finaliza.
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