ARTIGO

Maria


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Então, uma das muito queridas filhas trouxe, para o papai dela, uma escultura em pedra sabão. A imagem de Maria, a Nossa Senhora de pessoas incontáveis. Mas quantos, por outro lado, consideram absurdo – quando não pecado – ter imagens em casa? Creem seja adoração, inspirados ainda no Velho, antiquíssimo Testamento. Esquecem – ou ignoram – sejam tão só símbolos, signos que apenas sugerem, que fazem lembrar, despertando, quase sempre, emoções. E basta entender que imagem, imaginação, imaginar tem a mesma raiz: mágica. Logo, através de imagens – fotos de um filho, dos pais, por exemplo – imagino que eles estejam a meu lado. E isso é mágico. Vivificante. Até mesmo terapêutico.

Com emoção de pai pela lembrança recebida, coloquei a escultura na escrivaninha, ao lado de outros objetos do cotidiano. Dizem-me ser uma bagunça. Até admito, mas a bagunça é minha e sei onde tudo está. Quando querem colocar “em ordem”, entro em pânico. Pois os “ordeiros” têm que entender ser, a tal “bagunça”, meu método de organização, ora bolas! Gente intrometida!

Pois bem. Evito pensar em certas coisas para não ficar ainda mais atrapalhado. Mas, quando o faço, admiro-me a mim mesmo por não ter ficado biruta desde a infância. E biruta – saibam-no os jovens – é a pessoa meio amalucada. Mas aquela atrapalhação toda, aquilo que me parecia contradições, conflitos era, para nós, filhos, um exercício de liberdade, de respeito à vivência alheia. Senão vejamos: meu pai era maçom, num tempo em que a Maçonaria era estigmatizada pela Igreja. Mas ele era um homem de fé, religioso e sua devoção especial era Maria, a Nossa Senhora. Em suas dificuldades e alegrias, aquele pai adorável ia à frente do Lar Escola, na rua Boa Morte, pedir, agradecer e conversar com “sua santinha”.

Desde pequenino, Maria entrou-nos na vida. Antes de dormir, minha mãe ajoelhava-se comigo à beira da pequenina cama para orarmos: “Vamos agradecer à Nossa Senhora. Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...” E, em seguida: “Bença, mãe”. E ela: “Deus o abençoe, filho”. O menino dormia em paz, sem medo do lobisomem, do lobo mau, do Saci Pererê. Sentia-me protegido pela Mãe de Jesus, Mãe dos Homens. Como era bom! Como foi bom!

A partir da adolescência, no entanto, afastei-me de todo aquele tesouro, o tal “ópio do povo” entendido por Marx. Ingressei, com plena convicção na Juventude Comunista com certeza plena: “Vamos mudar o Brasil, vamos salvar o Mundo”. Faculdades, leituras, jornalismo, dialéticas, materialismo histórico, filosofias... E o vazio interior? Pois o vazio continuou, um vazio que, paradoxalmente, parecia ser parte da alma. Até que um dia, tudo explodiu. Foi o “Eureka”, o “cair do cavalo”, o, repentinamente, crer sem nada entender. E Maria estava à espreita para o meu encontro com o seu Filho.

Aderi, engajei-me, passei a participar. Dois homens – a quem chamo de “pais espirituais” – amparavam-me em minhas idas e vindas. Eles, os bispos: Dom Aníger Melilo, Dom Eduardo Koiak. Eles tinham a sabedoria da dimensão humana. E a fé profunda no divino. Dúvidas martirizavam-me. Ainda hoje, fazem-no. Dom Eduardo falava-me: “Você questiona a Igreja, Jesus, os ritos e cultos. Mas nunca brigou com Nossa Senhora!” Como brigar, contestar, romper com a Mãe? A quem, então, recorrer, pedir sabedoria, intercessão senão a ela?

Já ouvi dizerem-me tratar-se de tolice, de ficção. E daí? Com o tempo, a vida ensinou-me a conviver com o mistério. A respeitá-lo, a agradecer. A imagem de Maria, em pedra-sabão, diante dos olhos, ajuda-me a imaginar o inimaginável. E isso conforta.

Cecílio Elias Netto é jornalista e escritor.

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