O homem do saco

Por Marisa Bueloni |
| Tempo de leitura: 3 min

Quando minha mãe queria assustar a gente, dizia que vinha vindo “o homem do saco”. Se estávamos brincando até tarde na rua e o intento dela era que entrássemos logo, a correria era total. Onde, mãe? Cadê o homem do saco? Ninguém sabia – nem ela mesma – onde ele estava, se ele vinha vindo ou se ele existia de fato.

Minha mãe dizia que era um homem molambento, com um saco às costas, que pegava as crianças. Pronto. A imagem deste homem cruel e pavoroso estava cristalizada em nossa mente. Eu nunca o vi. Acho que nem mesmo minha mãe o viu.

Hoje, “o homem do saco” já não causa tanto medo. Muito pior que esta criatura das trevas, que passava sempre à noite para pegar crianças, são os terrores atuais, bem mais perigosos e menos imaginativos.

Ah, o que é o simples “homem do saco” perto da Covid-19 e suas novas cepas, suas variantes de meter medo, a ponto de nos prender dentro de nossas casas, de verdade. Não é preciso ameaçar ninguém com a chegada do tal “homem do saco”.

A realidade do isolamento, do confinamento dentro de nossos lares é algo imperioso neste momento. Nada de visitar parentes, tampouco receber gente de fora, ou de outras cidades, nada de aglomerações, por favor. Cada um cumpra a sua parte neste plano de contenção da transmissão da doença.

Creio que todos estão bastante cansados, a esta altura da maratona doméstica que é ficar em casa e ir de um cômodo a outro. Feliz de quem mora num condomínio aprazível, numa casinha de sonho, com um espaço ensolarado contíguo à cozinha, onde lá fora há uma ducha bem posicionada, para as manhãs de sol.

Sou uma pessoa solar. Dias nublados seguidos mexem com minha estabilidade emocional. Sinto falta do céu azul e do brilho do astro-rei. É fundamental tomar sol, transpirar, passar pela ducha refrescante, enquanto faço meu almoço na cozinha luminosa.

Vestida com uma canga estampada, colorida e praiana (que saudade da praia!), vou cozinhando a vida, nestes tempos de solidão e de temperos tão estranhos. Temperar a nossa comida com sal rosa, ervas e um pouco de criatividade tem sido uma terapia benéfica, ou ficaremos gordos e redondos como pudins...

Deus abençoe cada casa, cada sala onde repousam sofás para o merecido descanso, cada quarto e cada cama. Deus abençoe a mesa onde fazeis a vossa refeição. Deus mande graças a todos os que rezam e confiam na providência divina, que voltam seus corações para o Senhor das alturas.

Na manhã de pura luz, enquanto tomo sol e clareio o cabelo, rezando o terço diário, ergo os meus olhos para os céus. Queria escrever “ergo os meus olhos para os montes”. Desejaria habitar no campo, e avistar as lonjuras, aquelas do horizonte azul. E que haja, sim, um monte para fazer jus ao Salmo 120.

 Comecei a crônica abordando o “homem do saco” e olha aonde vim parar. Minha fé me leva sempre aos salmos e aos livros bíblicos. Do Evangelho bendito extraio toda a força para viver, para enfrentar estes tempos inenarráveis.

Li que os extraterrestres estão vendo nosso sofrimento e pretendem nos ajudar. Falo nada. Não seria uma boa hora para estenderem suas mãos intergaláticas? Se acenarem com a cura do vírus, aceitaremos todos os contatos, sobretudo os de primeiro grau.

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