30 de outubro de 2026
ASSÉDIO ELEITORAL

Listas de boicote a comerciantes pró-Lula circulam no Vale

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 4 min
Ricardo Stuckert
Militantes participam de ato de campanha do PT

Listas com nomes de comerciantes, empresários, profissionais liberais e empresas estão circulando em grupos de WhatsApp e redes sociais em cidades do Vale do Paraíba e do Litoral Norte.

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O material, que relaciona estabelecimentos e profissionais a supostos posicionamentos políticos de esquerda, tem sido acompanhado de mensagens que incentivam o boicote aos negócios e a identificação de pessoas consideradas contrárias à direita.

O movimento ganhou repercussão após o resultado das eleições presidenciais de 2026, vencidas por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), no segundo turno realizado no último domingo (25).

Levantamento realizado por OVALE identificou listas em pelo menos quatro municípios: São José dos Campos, Taubaté, Ubatuba e Guaratinguetá. Juntas, elas reúnem mais de 150 nomes, entre profissionais liberais, comerciantes, empresas e estabelecimentos de diferentes segmentos.

Em São José dos Campos, a relação tem 18 nomes, incluindo profissionais liberais, empresas e comércios. Em Taubaté, são 45 nomes, entre médicos, arquitetos, professores, escolas, estabelecimentos comerciais e empresas.

Em Ubatuba, a lista reúne 43 nomes, incluindo restaurantes, comércios, médicos e empresas. Já em Guaratinguetá, o material que circula pelo WhatsApp apresenta mais de 50 nomes.

As mensagens que acompanham algumas dessas relações deixam explícita a intenção de identificar empresários e profissionais por suas posições políticas e estimular decisões de consumo a partir dessa classificação.

No caso de Ubatuba, uma das mensagens afirma que um grupo de empresários teria adotado o chamado "lado esquerdista". O texto diz que novas listas, separadas por cidades e categorias profissionais, estariam sendo preparadas.

"Cada um é responsável por suas escolhas", afirma um trecho da mensagem.

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Reação em São José

Em São José dos Campos, a circulação das listas ocorre em meio a manifestações de representantes políticos e denúncias de possíveis casos de assédio eleitoral.

A professora Jéssica Marques, porta-voz da Bancada Feminista do PSOL no Vale do Paraíba, publicou um vídeo nas redes sociais informando que protocolou um ofício na Associação Comercial e Industrial de São José dos Campos, solicitando orientações aos comerciantes para evitar práticas de assédio eleitoral.

Ela também afirmou que foram encaminhadas representações ao Ministério Público do Trabalho e ao Ministério Público Estadual.

Segundo Jéssica, o objetivo é impedir situações de pressão política no ambiente profissional e práticas que possam configurar crimes eleitorais.

A vereadora Juliana Fraga, também de São José dos Campos, denunciou em seu perfil no Instagram relatos de assédio eleitoral, além de pressões envolvendo possíveis demissões e boicotes a estabelecimentos comerciais.

Em uma publicação, a parlamentar destacou que a preferência política de um trabalhador não pode ser utilizada como instrumento de pressão pelo empregador.

"A eleição acabou, mas a proteção aos trabalhadores continua. Ameaças, perseguições e demissões motivadas pela escolha política são inaceitáveis", afirmou.

Juliana também citou um balanço do MPT (Ministério Público do Trabalho), segundo o qual a região de São José dos Campos havia registrado 24 denúncias de assédio eleitoral até 28 de outubro.

Associação Comercial se manifesta

Em Guaratinguetá, a circulação de uma lista com mais de 50 nomes também provocou repercussão. O episódio levou a Aceg (Associação Comercial e Empresarial de Guaratinguetá) a divulgar um comunicado em defesa do respeito e da pluralidade de opiniões.

A manifestação foi publicada após a circulação, em grupos de WhatsApp, de uma mensagem atribuída a uma empresária e diretora da entidade que defendia a demissão de trabalhadores petistas.

No comunicado, a associação condenou manifestações que incentivem a intolerância, a discriminação e a divisão de pessoas por suas escolhas políticas.

"A Aceg não compactua com manifestações que incentivem a intolerância, a discriminação ou a divisão entre pessoas em razão de suas escolhas políticas", afirma a nota.

A entidade também ressaltou que opiniões individuais de seus integrantes não representam necessariamente o posicionamento institucional.

Outro ponto destacado foi a necessidade de preservar as relações profissionais, independentemente das preferências políticas de empregados e empregadores.

"Essa posição vale para todos, independentemente do lado político, pois o respeito e a tolerância devem prevalecer sobre qualquer divergência ideológica", diz outro trecho do comunicado.

Movimento repercute em outras cidades

Além de São José dos Campos, Taubaté, Ubatuba e Guaratinguetá, manifestações relacionadas ao movimento de boicote e à campanha "Demita um petista" também repercutiram em Jacareí, Pindamonhangaba e Caraguatatuba.

As publicações misturam críticas políticas, identificação de estabelecimentos comerciais e mensagens que incentivam consumidores a evitar determinados negócios em razão de supostas posições ideológicas de seus proprietários.

A repercussão também reacendeu o debate sobre os limites entre liberdade de manifestação política, decisões individuais de consumo e possíveis práticas discriminatórias nas relações de trabalho.

A Constituição Federal assegura a liberdade de consciência e de convicção política. No ambiente profissional, ameaças, constrangimentos e medidas de retaliação motivadas pela escolha eleitoral de trabalhadores podem configurar assédio eleitoral, dependendo das circunstâncias e das provas de cada caso.

“O empresário é dono do seu negócio, e não do voto do seu empregado”, disse o procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, que alerta para a prática de assédio eleitoral e as tentativas de intimidar trabalhadores por suas escolhas políticas.