Uma distribuidora de combustíveis no bairro Torrão de Ouro, na região sul de São José dos Campos, é alvo da terceira fase da Operação Carbono Oculto, batizada de Crédito Oculto e deflagrada nesta quinta-feira (24), com cumprimento de mandados de busca e apreensão em São Paulo e outros seis estados. Em São José, as ações de investigação são apoiadas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Vale do Paraíba.
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A operação é realizada pelo MPSP (Ministério Público de São Paulo), por meio do Gaeco, em conjunto com a Receita Federal, Secretaria da Fazenda, Procuradoria-Geral do Estado, Polícia Militar e Polícia Civil. Também participam equipes dos Gaecos do Rio de Janeiro, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo.
Ao todo, são cumpridos mandados de busca e apreensão em 29 endereços ligados a 13 pessoas físicas e 24 empresas. Segundo o MP, a investigação busca esclarecer o uso de estruturas financeiras consideradas complexas para ocultar patrimônio e dissimular a origem de recursos empregados na aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.
Investigação
De acordo com o Ministério Público, a organização teria utilizado diferentes estruturas empresariais e financeiras em etapas sucessivas. Inicialmente, o objetivo teria sido ocultar os verdadeiros controladores de uma usina sucroalcooleira no interior de São Paulo.
Posteriormente, a estrutura teria sido utilizada para viabilizar a aquisição da distribuidora de combustíveis. Segundo as apurações, fundos de investimento, holdings, empresas patrimoniais, empresas de fachada, fintechs, banco e escritório de advocacia teriam desempenhado funções distintas no fluxo financeiro.
O MP afirma que, embora a titularidade formal da usina estivesse distribuída entre fundos e empresas aparentemente independentes, os elementos reunidos na investigação indicam que a estrutura teria sido organizada para preservar o controle econômico do empreendimento sem revelar os beneficiários finais.
Operação de R$ 370 milhões
Um dos pontos investigados envolve uma operação de aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios da usina. Conforme o MPSP, uma empresa ligada à sociedade de investimentos adquiriu os créditos por meio da transferência de cotas de um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios).
A análise financeira apontou, segundo a investigação, que parte relevante dos recursos utilizados para a aquisição das cotas teria vindo de fundos de investimento controlados pelo mesmo grupo. Para o Ministério Público, o mecanismo teria criado um fluxo financeiro circular, dando aparência de legitimidade à operação e dificultando a identificação dos beneficiários.
R$ 100 milhões para aquisição
Ainda segundo o MPSP, a usina teria recebido R$ 100 milhões enviados pela organização investigada para financiar a aquisição da distribuidora.
Os recursos teriam passado, em poucos minutos, por diversas contas de três empresas do grupo, mantidas em fintechs. De acordo com a investigação, essas contas teriam sido utilizadas como estruturas de passagem até que o dinheiro chegasse à conta da usina sucroalcooleira.
Posteriormente, o valor teria sido aportado em um novo fundo de investimento criado para a operação. O fundo adquiriu um CDB (Certificado de Depósito Bancário) e, segundo as apurações, o banco realizou uma operação vinculada à emissão de duas cédulas de crédito bancário para empresas apontadas como de fachada.
Para o Ministério Público, essas empresas teriam sido utilizadas para afastar os recursos de sua origem e dificultar a identificação dos beneficiários finais da operação de compra da distribuidora.
Blindagem patrimonial
A investigação também identificou operações envolvendo imóveis. Parte dos recursos teria sido utilizada para adquirir integralmente cotas de um fundo imobiliário.
Segundo o MP, os imóveis que davam suporte econômico às operações já haviam sido transferidos para empresas patrimoniais e, posteriormente, para fundos imobiliários. Com isso, os bens permaneceriam sob controle econômico do grupo investigado, mas deixariam de aparecer diretamente em seu patrimônio pessoal.
Para os investigadores, o modelo teria ampliado a dificuldade de identificação dos proprietários efetivos e criado uma camada adicional de proteção patrimonial.
Estrutura financeira
O Ministério Público aponta que cada empresa ou estrutura teria exercido uma função específica no esquema investigado. As fintechs seriam utilizadas para circulação e fragmentação dos recursos, enquanto a usina receberia os valores e os incorporaria à atividade econômica formal.
Os fundos de investimento, por sua vez, teriam assumido o papel de financiadores de fato, enquanto holdings e empresas-veículo seriam usadas nas aquisições e na separação entre a origem dos recursos e os beneficiários dos ativos.
Os fundos imobiliários também aparecem nas apurações como instrumentos para concentrar imóveis relacionados aos investigados, oferecendo garantias e suporte econômico às operações sem que os bens permanecessem diretamente registrados em nome das pessoas investigadas.
R$ 11,6 bilhões
Outro dado destacado na investigação é o volume financeiro movimentado por uma empresa do setor financeiro utilizada na aquisição simulada da empresa sucroalcooleira.
Segundo o MPSP, a empresa movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. Para os investigadores, o volume, analisado em conjunto com os demais elementos reunidos no caso, reforça os indícios de utilização de estruturas financeiras para ocultação patrimonial, dissimulação da origem de recursos e lavagem de capitais.
A terceira fase da Operação Carbono Oculto busca, portanto, aprofundar a identificação dos responsáveis pela estrutura financeira e esclarecer como os recursos foram movimentados até a aquisição da distribuidora de combustíveis.
Dark Horse
Entre os alvos das buscas estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, executivo do Banco Genial, e seus irmãos, André e Bruno Tupinambá. O dono da Entre Investimentos, o empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, também é alvo.
Freixo firmou o termo de colaboração com a PGR (Procuradoria-Geral da República) no início deste mês. Segundo a investigação da Polícia Federal, a empresa teria sido usada para os repasses de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para a produção de Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).