A morte de Brayan Willian dos Santos Ferreira da Silva, de 16 anos, provocou uma onda de comentários agressivos nas redes sociais. Enquanto familiares se despediam do adolescente em São José dos Campos, na terça-feira (8), internautas chegaram a “comemorar” a morte do jovem após o acidente envolvendo uma motocicleta e uma viatura da GCM (Guarda Civil Municipal).
Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp
Entre os comentários publicados em matérias de OVALE sobre o caso, houve mensagens como “que esteja bem no colo do capeta, um a menos”, acompanhada de uma manifestação de apoio aos guardas municipais. Outros internautas escreveram “procurou, achou”, “se tivesse trabalhando não tinha acontecido” e “ele não era criança e tava (sic) tirando uma com a GCM”.
As manifestações ocorreram mesmo antes da conclusão das investigações sobre as circunstâncias da colisão. O caso é apurado pela Polícia Civil, que analisa imagens e aguarda os laudos periciais para esclarecer o que aconteceu.
Família se despede
Brayan morreu na tarde de segunda-feira (7), no bairro Dom Pedro 1º, na zona sul de São José dos Campos. Ele estava na garupa de uma motocicleta furtada conduzida por outro adolescente, também de 16 anos, quando o veículo e uma viatura da GCM bateram contra um muro durante um acompanhamento.
Segundo o boletim de ocorrência, os agentes haviam avistado os dois adolescentes em uma motocicleta sem placa e sem capacete. O condutor não teria obedecido à ordem de parada e fugiu.
De acordo com a Prefeitura de São José, o acompanhamento durou cerca de 20 minutos. Em um trecho com curvas sucessivas, ocorreu a colisão. Brayan morreu no local. O outro adolescente ficou ferido, recebeu atendimento médico e foi apreendido.
A motocicleta havia sido furtada recentemente e foi recuperada. O condutor foi encaminhado ao Ministério Público por atos infracionais análogos aos crimes de receptação, adulteração de sinal identificador de veículo, desobediência e direção sem habilitação.
A família, porém, afirma que Brayan não sabia que a motocicleta era furtada e contesta a forma como o adolescente passou a ser retratado após a morte.
“Meu irmão não era bandido, era uma criança de 16 anos. Ele tinha uma vida toda pela frente”, afirmou a irmã, Jenifer dos Santos Almeida.
Segundo ela, Brayan havia estado em casa pouco antes de sair e tinha se preparado para trabalhar. A família também publicou uma mensagem de despedida, descrevendo o adolescente como um jovem querido e afirmando que ele deixará saudades.
Leia mais: VEJA: Vídeo mostra acidente com GCM que matou um em SJC
Leia mais: Falha no freio provocou acidente que matou menor em SJC, diz GCM
Investigação vai apurar colisão
O caso ainda não tem uma conclusão sobre as responsabilidades pela colisão. O guarda municipal que conduzia a viatura ficou ferido e, segundo as informações divulgadas pela Prefeitura, estava hospitalizado com previsão de alta nessa terça-feira.
O agente relatou à polícia que os freios da viatura não teriam respondido no momento do acidente. O secretário de Proteção ao Cidadão, Rafael Silva, afirmou que o veículo havia passado por vistoria antes de entrar em serviço e não apresentava registro anterior de problemas no sistema de frenagem.
A Prefeitura informou que os veículos da GCM passam por um check-list obrigatório antes do início das atividades. Uma perícia da Polícia Científica deverá verificar as condições mecânicas da viatura.
Além da investigação da Polícia Civil, o episódio será analisado pela Corregedoria da GCM.
'Naturalização da violência'
Para a cientista social Dora Soares, a reação de parte dos internautas revela um problema que vai além do caso específico e expõe uma preocupante naturalização da violência.
Segundo ela, “comemorar a morte de alguém é, em si, uma atitude constrangedora”. Dora afirma que, mesmo diante de uma ocorrência envolvendo uma motocicleta furtada e uma fuga da polícia, a resposta da sociedade não deveria ser a celebração da morte de um adolescente.
Na avaliação da cientista social, o episódio também evidencia uma inversão de valores em relação à violência e aos princípios constitucionais brasileiros.
“Qualquer um que mate é um criminoso”, afirma Dora, ao destacar que o Brasil não adota pena de morte. Para ela, a defesa pública da violência e da chamada “justiça com as próprias mãos” contribui para enfraquecer valores como empatia, direitos e dignidade.
Dora também chama atenção para o risco de transformar vítimas e suspeitos em personagens de uma disputa entre “heróis e bandidos”, sem que a sociedade espere a conclusão das investigações.
Para a cientista social, a comemoração da morte de um jovem e o apoio à violência ou a eventuais abusos policiais representam um retrocesso no projeto de uma sociedade baseada na paz, na segurança e na dignidade humana.
O corpo de Brayan foi velado e sepultado no Cemitério Municipal Colônia Paraíso.