"Meu filho foi embora, acabou."
A frase de Luciane Siqueira, 50 anos, resume a dor de uma mãe que tenta encontrar explicação para a morte do filho, Gustavo do Prado, de 32 anos, executado a tiros na porta de casa, em São José dos Campos. Ainda abalada, ela afirma que a família não consegue aceitar que a vida dele tenha sido interrompida por uma dívida de dinheiro, de R$ 50.
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“Minha ficha ainda não caiu. Não acredito que meu filho foi morto por um valor tão baixo. Nada justifica isso. Meu filho foi embora, acabou”, desabafou a auxiliar de serviços gerais, em entrevista ao OVALE.
A declaração ocorre em meio ao avanço das investigações da Polícia Civil, que ganharam um novo rumo após áudios obtidos por OVALE revelarem que Gustavo tentava conseguir dinheiro emprestado para quitar uma dívida com Daniel Wilson de Souza, de 36 anos, apontado como autor dos disparos.
Segundo Luciane, o suspeito passou o dia alterado e circulando pelo bairro Capuava em busca de dinheiro.
“Ele estava transtornado. Estava rodando o bairro querendo dinheiro. Pelos áudios dá para perceber que meu filho estava desesperado para conseguir os R$ 50 e com vergonha de pedir ajuda.”
A mãe contou que o irmão gêmeo de Gustavo conseguiu transferir R$ 31 por Pix, tudo o que tinha naquele momento. No entanto, o dinheiro foi enviado para uma conta bancária que possuía pendências financeiras, fazendo com que o valor fosse bloqueado pela instituição bancária.
“Foi uma infelicidade. Se ele tivesse pedido dinheiro para mim, eu mandava na hora.”
Homem reservado e trabalhador
Luciane descreve Gustavo como um homem discreto, trabalhador e querido por todos que conviviam com ele.
“Ele morava sozinho, mas não estava abandonado. Eu trabalhava durante a semana porque preciso do ônibus para ir ao trabalho. Nos fins de semana eu ficava com ele na chácara.”
Na noite em que foi morto, familiares chegaram a convidá-lo para ir a um rodeio, mas ele recusou. “Ele preferiu ficar em casa porque tinha trabalho na segunda-feira”, disse a mãe.
Gustavo atuava na montagem de estruturas para eventos e, segundo a mãe, era muito respeitado pelos colegas e superiores.
“Ele era muito eficiente. O patrão gostava muito dele. Era valorizado e elogiado pelo trabalho que fazia.”
Luciane afirma acreditar que o suspeito conhecia Gustavo justamente por já ter trabalhado com o mesmo empregador.
“Acho que ele tinha um pouco de inveja do meu filho por causa da confiança que o patrão depositava nele.”
Planos interrompidos
Além da dedicação ao trabalho, Gustavo vivia um momento de reconstrução pessoal.
Após um casamento que terminou no ano passado, ele havia decidido retomar a vida religiosa e voltar a frequentar uma igreja evangélica.
Segundo a mãe, o filho já havia comprado um terno e um par de sapatos para participar dos cultos e desejava se envolver novamente com a comunidade.
Meses antes da morte, ele passou cerca de 15 dias em Minas Gerais ajudando voluntariamente na construção de uma igreja durante um mutirão.
Amigos também relataram a OVALE que Gustavo compartilhava mensagens bíblicas, reflexões e demonstrava entusiasmo em reconstruir sua caminhada na fé.
Áudios mudam investigação
Os áudios obtidos com exclusividade por OVALE mudaram a principal linha investigativa do caso.
Inicialmente, a Polícia Civil trabalhava com a hipótese de que Daniel seria o devedor e que Gustavo teria sido assassinado após cobrar uma quantia.
As gravações, porém, mostram o contrário. Poucos minutos antes de morrer, Gustavo pedia ajuda financeira ao irmão para quitar um débito de R$ 50 com o investigado.
Nas mensagens, ele afirma que Daniel estava em frente ao portão aguardando o pagamento e pede ajuda urgente para evitar problemas. Em um dos áudios, diz que bastaria entregar R$ 30 como entrada e completar o restante após receber um adiantamento do salário na segunda-feira.
O dinheiro, entretanto, nunca chegou às mãos da vítima por causa do bloqueio da transferência.
Pouco depois, Gustavo foi executado em frente à própria residência.
Suspeito está preso
Apontado pela Polícia Civil como autor dos disparos, Daniel se apresentou espontaneamente na Delegacia de Homicídios de São José dos Campos após negociações entre sua defesa e os investigadores.
Durante o interrogatório, ele permaneceu em silêncio e informou que prestará esclarecimentos apenas durante o processo judicial. Em seguida, passou por audiência de custódia e foi encaminhado ao CDP (Centro de Detenção Provisória).
Uma testemunha que estava no veículo utilizado no crime confirmou à Polícia Civil que Daniel efetuou os disparos. Segundo o depoimento, ele estaria embriagado e discutia com Gustavo por causa da dívida. O mesmo homem afirmou que semanas antes o investigado já havia intimidado a vítima efetuando disparos para o alto.
O homicídio foi registrado por câmeras de segurança, que mostram Daniel atirando contra Gustavo e, depois que ele cai no chão, descendo do carro para continuar os disparos antes de fugir.
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"Quero justiça"
Enquanto a investigação avança, Luciane diz que busca apenas respostas e justiça.
“Espero que descubram exatamente o que aconteceu. Quero que o criminoso pague pelo que fez e fique preso pelo tempo necessário. Nenhuma mãe merece passar por essa dor.”
Ela também afirma que o crime abalou moradores do Capuava.
“O bairro todo está com medo. Sempre foi um lugar tranquilo. Eu quero justiça pelo meu filho.”
O corpo de Gustavo foi sepultado na última segunda-feira (3), no Cemitério Municipal Padre Rodolfo Komorek, na região central de São José dos Campos.
Como forma de homenagem, amigos e moradores do bairro estão produzindo camisetas com fotografias de Gustavo ao lado de pessoas próximas, preservando a memória de um homem que, segundo familiares, era conhecido pelo trabalho, pela discrição e pelo desejo de recomeçar a vida.