Antes de a carga deixar o galpão, com destino a uma das centenas de lojas do grupo, o funcionário confere a ficha e a entrega ao ‘boy’, o responsável pelo transporte da mercadoria.
Depois da entrega, o franqueado assina o recibo e retoma a venda no varejo. Ao final da semana, cada gerente precisa apresentar um relatório detalhado do lucro obtido em cada área. Nas teleconferências, os executivos debatem cifras milionárias.
O que parece descrever uma organização empresarial trata-se, na realidade, da estrutura e organização criada pela facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), que surgiu no Vale do Paraíba para lucrar alto com o tráfico de drogas – uma de suas principais fontes de receita.
A facção surgiu há 30 anos na Casa de Custódia de Taubaté para dominar o crime no Brasil e estender seus tentáculos a países da América do Sul. O grupo teve origem em 31 de agosto de 1993, depois de uma partida de futebol entre presos no pavilhão anexo da Casa de Custódia, o ‘Piranhão’.
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FRANQUIAS
Com o uso de uma espécie de rede de ‘franquias’, chamadas de ‘lojas’ (pontos de venda dos entorpecentes), a organização lucra milhões de reais, segundo investigações do MP (Ministério Público).
Além de atuar no varejo, com a venda direta para o usuário de droga, o PCC também é fornecedor e controla o mercado no atacado, buscando monopolizar o tráfico de crack, cocaína e maconha nas ruas.
“É crucial lembrar que todas as lojas (...) recebem o entorpecente única e exclusivamente do PCC. Assim, é importante imaginar, a título de exemplo, que as lojas do PCC não passam de franquias que só vendem o produto fornecido pelo PCC”, diz trecho de acusação apresentada pelo MP.
Com atuação internacional, o PCC mantém a mesma estrutura em todas as áreas de atuação, incluindo a ‘012’ -- referente ao Vale do Paraíba.
TRÁFICO S/A
Apurações recentes revelam que a facção é dividida em 'departamentos', chamados de sintonias -- cabe à chamada sintonia do progresso o controle do tráfico de drogas.
De acordo com o MP, a facção conta até mesmo com um sistema de auditoria para controlar as vendas nas 'lojas'.
Além disso, a demanda dita as regras dos negócios da facção, que chegou a proibir o uso de crack dentro dos presídios. O grupo criminoso tentou o mesmo nas ruas, mas o mercado falou mais alto e o comércio segue liberado, haja vista de que o PCC não pode perder o monopólio. Mas não sem regras específicas.
De acordo com investigações, os vendedores da facção que atendem os usuários de crack são geralmente os mais violentos, os que ainda não conquistaram espaço para atender a um público mais selecionado. Ou ainda endividados.
“A facção funciona como uma empresa, com comando centralizado em líderes que agem com mão de ferro, mas que também têm uma visão comercial, descentralizando a atuação no crime. As filiais estão espalhadas. Eles são cobrados por líderes da área que respondem aos líderes regionais que, por sua vez, obedecem ao comando central. Essa organização tem que ser combatida”, diz um promotor do Gaeco no Vale que investigou o PCC.