EDUCAÇÃO

Inteligência artificial provoca uma revolução nas salas de aula

Por Daniela Borges |
| Tempo de leitura: 7 min
Inteligência artificial provoca uma revolução nas salas de aula
Inteligência artificial provoca uma revolução nas salas de aula
Para os mais pessimistas, ela significa o começo do fim, uma verdadeira ameaça à raça humana. Para os otimistas, trata-se de uma ferramenta útil que vai facilitar a vida das pessoas, um avanço tecnológico equiparado ao surgimento da internet. Fato é que a IA (Inteligência Artificial) já está entre nós, é uma realidade e está cada vez mais acessível. O dilema agora é aprender a lidar com ela de forma ética e responsável.
No contexto da Educação os impactos já são percebidos, afinal, abre-se um mundo de possibilidades e, claro, de riscos. O desafio, assim como toda ferramenta tecnológica, está em encontrar a melhor forma de utilização.
 “É importante destacar que a Inteligência Artificial é uma grande área que compreende várias subáreas, dentre elas o processamento de linguagem natural, a visão computacional e os sistemas de recomendação. Todas essas subáreas podem, de alguma forma, ser aplicadas na educação”, explica Mário de Noronha Neto, professor do IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina) na área de telecomunicações com experiência na área de Internet das Coisas e Aprendizado de Máquina.
A IA tem ganhado força na educação após o conceito da Educação 4.0 ligada aos avanços tecnológicos e ao modelo de aprendizagem por meio da vivência, experimentação e realização. “Onde a porta de entrada é a cultura maker, de colocar a mão na massa”, explica a professora e mestre em educação Débora Garofalo, autora de trabalhos reconhecidos e premiados na área de tecnologia, finalista no Global Teacher Prize, considerado o Nobel da educação. “A IA já permeia o nosso dia a dia em aplicativos de celular, de banco, e isso inevitavelmente vem para dentro da sala de aula, potencializando ferramentas principalmente adaptativas para trabalharmos com os estudantes e para otimizar o papel do professor”, completa.
E o ChatGPT foi o grande responsável por descortinar as possibilidades da IA ao garantir facilidade de acesso aos usuários. Como uma espécie de robô virtual, o sistema criado pela empresa norte-americana OpenAI é capaz de responder às mais complexas perguntas do usuário com linguagem fácil e usual, além de atender aos mais variados comandos, como compor uma música ou criar uma receita a partir dos ingredientes que você tem na geladeira, por exemplo. “Trata-se de uma ferramenta que usa técnicas de processamento de linguagem natural para gerar textos com ótima qualidade e que, atualmente, está se destacando pelo seu potencial e facilidade de uso”, completa o professor.
Não por acaso, o uso do ChatGPT vem sendo pensado para auxiliar professores e alunos no contexto da educação. “Por parte dos alunos, tenho observado que muitos estão utilizando essa ferramenta para auxiliar no entendimento de conteúdos específicos que, às vezes, estão em inglês ou escritos em uma linguagem mais formal”, aponta Noronha. Sugestões de melhorias de textos, geração de perguntas para auxílio nos estudos, tradução e resumo de texto são outras aplicações que o professor tem observado com frequência por parte dos alunos. “Alguns alunos chegam a utilizar a ferramenta para fazer uma avaliação prévia dos trabalhos antes de entregar para o professor, o que acaba dando a ele uma oportunidade de aprimorar o trabalho antes de finalizá-lo”, afirma.
As opções de uso para os professores também são muitas e vão desde o preparo das aulas até a correção de provas. “Em conversa com colegas e relatos de outros professores, vejo que o uso na produção de materiais didáticos, na geração de roteiros para aulas e nas sugestões de atividades de ensino, são bastante frequentes”, cita Noronha. O professor explica que gosta de criar conversas no ChatGPT para explorar novas estratégias de ensino, novas ideias para trabalhos de conclusão de curso e para estruturar roteiros para aulas e seminários. “Vale ressaltar que esta é uma ferramenta ainda em estágio inicial e em constante evolução. Portanto, é de se esperar que novas e interessantes experiências de aplicação no campo da educação surjam com bastante frequência”, afirma o professor. 
Apesar das muitas aplicações, Débora observa que é preciso trazer para essa nova realidade o contexto da educação midiática que, resumidamente, visa desenvolver habilidades para acessar, criar e participar de forma crítica e analítica de informações e conteúdos, para usufruir dos benefícios da IA sem correr riscos. “Mostrar para o estudante o que existe por trás de um dado e não somente deixar que ele seja um usuário. E nesse sentido o ChatGPT pode ser um grande aliado”, avalia a professora.
 
 
Cuidados para extrair os benefícios da ferramenta é fundamental conhecer as suas potencialidades. De acordo com o professor do IFSC, o conhecimento desta ferramenta surgirá naturalmente através de testes e do uso prático. “Por isso, é essencial que professores e alunos analisem cuidadosamente a consistência e veracidade das respostas geradas, mantendo-se altamente críticos nesse aspecto”, alerta Noronha.
Vale ressaltar que nem sempre é simples fazer essa análise, principalmente se o usuário não tem domínio do assunto. O professor recomenda cuidado nessas situações para evitar cair na tentação da praticidade e da facilidade de obter respostas rápidas e bem escritas, deixando de buscar outras fontes de informação e conhecimento no desenvolvimento de uma determinada tarefa ou na busca por um novo conhecimento. “Ao tomarmos esses cuidados, acredito que conseguiremos minimizar os impactos negativos na formação de nossos alunos e aumentar as chances de utilizar esta ferramenta de forma benéfica e eficaz”, completa.
Proibição. Como quase tudo na vida, há um lado sombrio no uso da IA na educação e que preocupa especialistas, envolvendo questões como a redução de postos de trabalho e na qualidade de ensino, além do plágio, do uso literal de textos gerados pelo ChatGPT em trabalhos escolares, fazendo com que a ferramenta pense pelo aluno impactando negativamente no aprendizado.
Proibir seu uso, no entanto, não é uma boa opção, segundo Noronha. Ele acredita que o conhecimento e a disseminação de boas práticas são mais eficientes do que proibir seu uso nas escolas. “Entretanto, é importante que a intensidade e a forma de uso seja definida considerando o nível e a modalidade de ensino no qual o professor atua. O estabelecimento de regras claras sobre quando e como os alunos podem utilizar a ferramenta, bem como discussões sobre limitações e uso ético desta tecnologia, podem auxiliar os professores na adoção desta ferramenta para a educação”. Lembrando que já existem meios de analisar se determinado conteúdo foi produzido com a ajuda da IA.
Vale ressaltar ainda que ferramentas como o ChatGPT passam por instabilidades. Segundo Débora, não estão totalmente contextualizadas e regulamentadas ao contexto escolar. “Nas pesquisas, os resultados podem ser insatisfatórios, pode trazer inconsistências para os estudantes, por isso a importância de pautar esse trabalho na educação midiática, para que o estudante possa compreender os riscos de estar utilizando (a ferramenta) ao mesmo tempo que o professor precisa trazer esse tema para dentro da sala de aula”, define.
Em longo prazo é possível vislumbrar, segundo Débora, essas ferramentas com o potencial de personalizar o ensino, compreendendo que cada aluno aprende de forma diferenciada. “O estudante tem que vivenciar toda essa tecnologia e compreender os riscos e benefícios para que ele seja autoral, protagonista desse processo”.
Futuro. “É certo que estamos vivenciando uma revolução tecnológica e estamos, neste momento, discutindo a Educação 5.0 que visa humanizar essas tecnologias. Não dá para deixar do lado de fora da sala de aula”, afirma a professora Débora Garofalo.
Essa evolução se dá quando os alunos deixam de ser consumidores de tecnologia para se tornarem produtores dela. “No futuro, veremos uma Educação mais atrativa para os estudantes, mais significativa, pautada num processo mão na massa com todos os benefícios deste tipo de aprendizagem. Será uma educação pautada em experimentação, rica e significativa para os estudantes trazendo todos os aspectos desse olhar humanizador da educação 5.0.”, complementa Débora.
Há outras preocupações em jogo, questões históricas que precisam ser solucionadas para que a Educação enfim dê certo no Brasil. “Precisamos trazer o BNCC (Base Nacional Comum Curricular) para a prática, é um documento muito robusto, porém um pouco distante das escolas, tem que fazer a tradução desse documento para a sala de aula. Fora isso, tem desafios de formação e infraestrutura que precisam ser vencidos principalmente para o contexto público onde quase 85% dos nossos estudantes estão”.
“Precisamos abraçar a tecnologia e não deixá-la de fora porque ela faz parte do cotidiano, as crianças estão cada vez mais conectadas”, conclui Débora.

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