O Brasil está prestes a entrar na semana decisiva de mais uma eleição presidencial marcada pela polarização, pela rejeição e por uma disputa que lembra, em muitos aspectos, o ambiente de 2022. De um lado, o presidente Lula (PT), tentando conquistar um novo mandato. Do outro, Flávio Bolsonaro (PL), carregando o sobrenome e o capital político do pai. Entre eles, milhões de brasileiros que terão de escolher quem comandará o país a partir de janeiro. O problema é que, depois de meses de campanha, continuamos sabendo muito mais sobre o que um candidato pensa do adversário do que sobre aquilo que pretende fazer pelo Brasil. Propostas existem nos programas de governo, mas foram frequentemente ofuscadas por ataques, acusações e disputas de narrativa. O resultado é uma campanha que deixa a desejar justamente naquilo que deveria ser sua principal finalidade: discutir o futuro.
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Os últimos dias ofereceram dois exemplos particularmente reveladores desse ambiente. Primeiro, a campanha de Lula conseguiu transformar o fim da escala de trabalho 6x1 em uma importante vitória política, com a aprovação da proposta no Senado. A votação ocorreu em plena reta final da eleição, numa articulação que evidentemente também produziu efeitos eleitorais. Flávio Bolsonaro, que havia criticado a iniciativa, acabou votando a favor. Não seria prudente enfrentar uma medida com forte apoio popular a poucos dias da votação. O candidato que questionava a proposta encontrou, diante da urna que se aproxima, motivos suficientes para apoiá-la. O mérito da discussão sobre jornada de trabalho é real e merece ser tratado com seriedade, inclusive quanto aos efeitos sobre trabalhadores e empregadores. Mas a mudança de postura do presidenciável também merece ser observada.
A reação do campo bolsonarista veio pela segurança pública. Enquanto o governo tentava avançar com sua proposta de reorganização da atuação federal no setor, a oposição passou a pressionar pela redução da maioridade penal, uma bandeira historicamente defendida pela direita e rejeitada por setores importantes da esquerda. Era a oportunidade de colocar Lula diante de um assunto sensível para seu eleitorado e para o próprio PT. Pois não é que, na entrevista ao Jornal Nacional, o presidente passou a defender a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos? Fez a ressalva de que a discussão deveria ocorrer separadamente da PEC da Segurança Pública, mas a mudança de posicionamento foi suficientemente expressiva. Em poucos dias, Flávio cedeu numa pauta associada à esquerda e Lula se aproximou de uma proposta tradicionalmente defendida pela direita. É difícil não enxergar nesse movimento o peso das conveniências eleitorais.
Mudar de opinião não é necessariamente um defeito. Políticos podem rever posições diante de novos argumentos, estudos ou mudanças na realidade. O problema surge quando essas transformações acontecem justamente na semana em que cada voto parece valer ouro, sem que sejam acompanhadas de explicações convincentes sobre o que efetivamente mudou. O eleitor tem o direito de perguntar se está diante de uma revisão sincera de convicções ou de uma adaptação calculada às pesquisas e ao calendário eleitoral. E a pergunta vale para os dois lados. Não é preciso negar a importância do descanso semanal nem minimizar a gravidade da violência para reconhecer que temas complexos estão sendo utilizados também como instrumentos de disputa política.
Há outro componente importante nessa reta final. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na dianteira, surpreendendo uma parcela do meio político e impondo dificuldades à campanha petista. A impressão transmitida nos primeiros dias seguintes foi a de que parte de seu grupo tratou aquela vantagem como se representasse uma vitória praticamente encaminhada. A campanha pareceu perder intensidade justamente quando precisava ampliar sua presença nas ruas e conversar com eleitores além da própria base. Apoios de governadores, prefeitos e lideranças são importantes, mas não existe transferência automática de votos. O eleitor não é propriedade de quem declara apoio a um candidato. Enquanto isso, Lula conseguiu reorganizar parte de sua mobilização, encontrou fôlego nas manifestações do último domingo e passou a ocupar mais espaço na agenda política. Isso não permite antecipar o resultado, mas ajuda a explicar por que a disputa chega à reta final com tanta tensão.
Do outro lado, o presidente intensificou os anúncios de benefícios, programas, isenções e medidas de apelo popular. O fim da escala 6x1, propostas voltadas aos microempreendedores, ampliação de políticas sociais e até a possibilidade de transporte público gratuito nos fins de semana passaram a compor o repertório da campanha. Algumas iniciativas já estavam em discussão e outras ainda dependem de detalhamento e decisões futuras. A questão que deveria acompanhar cada promessa é bastante simples: quanto custa, quem paga e de onde sairá o dinheiro? O Brasil enfrenta restrições fiscais relevantes, e a ampliação de despesas ou a redução de receitas precisa ser acompanhada de fontes de financiamento consistentes. O problema não é discutir benefícios para a população, mas apresentá-los sem esclarecer suficientemente seus impactos. A mesma cobrança deve valer para Flávio, cujo programa também combina propostas de incentivos e redução de custos com metas de cortes de gastos que exigem explicações detalhadas.
Lula conhece bem o peso das expectativas que uma campanha pode criar. Em 2022, a promessa de recuperar o poder de compra dos brasileiros ganhou um símbolo popular na conhecida referência à picanha e à cervejinha. Quatro anos depois, ainda há eleitores insatisfeitos com o custo de vida e com a distância entre as expectativas e a realidade. Prometer é sempre mais fácil do que governar, especialmente quando a conta das promessas precisa caber no orçamento público. A campanha de Flávio também deveria ser submetida ao mesmo teste: quais mudanças pretende realizar, como serão financiadas e que consequências poderão produzir? A resposta não pode se limitar à afirmação de que o adversário fez tudo errado.
Existe ainda um aspecto que talvez esteja sendo subestimado pelas duas campanhas: o eleitor que não se sente representado por nenhuma delas. Lula tenta conquistar indecisos e pessoas que não compareceram ao primeiro turno. Flávio também precisa ampliar sua votação para além dos apoiadores mais identificados com o bolsonarismo. Mas nem todo eleitor distante da disputa está esperando uma promessa mais generosa ou um ataque mais contundente ao adversário. Parte desse público pode estar justamente cansada da repetição de discursos, da agressividade e da dificuldade de enxergar compromissos confiáveis. Não é possível atribuir a abstenção inteira ao desencanto político, mas ignorar essa possibilidade seria um erro de leitura. Para quem já desconfia da política, uma nova coleção de promessas sem explicações pode produzir mais ceticismo, e não entusiasmo.
As pesquisas divulgadas nesta semana mostram uma disputa apertada, sem espaço para tratar qualquer resultado como decidido. O ambiente lembra 2022 não apenas pela polarização, mas pela sensação de que o país volta a escolher seu presidente sob enorme tensão, com pouca disposição para ouvir o outro lado. É uma eleição em que os candidatos parecem dedicar energia considerável a provar por que o adversário não deveria governar, enquanto a discussão sobre como o vencedor efetivamente governará permanece insuficiente. E essa ausência de debate consistente não desaparecerá na noite de 25 de outubro.
Não sei qual será a decisão dos brasileiros no próximo domingo, 25 de outubro. Sei que o presidente eleito encontrará desafios enormes: contas públicas pressionadas, demandas crescentes por serviços, insegurança, dificuldades econômicas e uma sociedade profundamente dividida. Nenhum desses problemas será resolvido com um vídeo de campanha, uma frase de efeito ou uma mudança de posição feita às pressas. O futuro governo precisará tomar decisões difíceis, inclusive algumas que provavelmente contrariarão as expectativas criadas durante a eleição.
O Brasil chega à reta final de uma campanha em que sobram promessas, acusações e conveniências, mas falta uma conversa adulta sobre os limites e as possibilidades do país. O eleitor terá de fazer sua escolha. E, qualquer que seja ela, continuará tendo o direito de cobrar coerência, responsabilidade e resultados.
Talvez essa seja a parte mais desalentadora de tudo: seguimos nos apresentando como o país do futuro, enquanto nossa política insiste em disputar o poder olhando quase exclusivamente para o passado.
Uma homenagem merecida

Divulgação/Clube Cultura
Algumas notícias têm um significado especial para quem acompanha a vida de Campinas. Outras carregam também uma satisfação pessoal. A aprovação, pela Câmara Municipal, de uma homenagem ao Clube Cultura reúne as duas coisas. Tenho o orgulho de contribuir com a administração dessa instituição como diretor de Comunicação e não escondo o carinho por um dos cantinhos da cidade de que mais gosto.
Por iniciativa do presidente da Câmara, Luiz Rossini (Republicanos), os vereadores aprovaram a concessão do Diploma de Mérito Esportivo Sérgio José Salvucci ao Clube Semanal de Cultura Artística. Fundado em 16 de julho de 1857, o Cultura completou 169 anos de história em 2026, acompanhando as transformações de Campinas, preservando tradições e se reinventando ao longo das gerações.
Hoje, sua sede em Sousas, com 138 mil metros quadrados de área verde, é muito mais do que um espaço de lazer. Com mais de 30 modalidades esportivas e recreativas, o clube promove saúde, convivência, amizades e encontros entre diferentes gerações. É um patrimônio afetivo de muitas famílias campineiras, construído por associados, funcionários, atletas e dirigentes que ajudaram a escrever essa trajetória.
Por conhecer de perto o trabalho realizado e os desafios de manter viva uma instituição dessa dimensão, recebo a notícia com alegria. E faço questão de registrar que esse reconhecimento pertence a todos que, ao longo de sua história, dedicaram tempo e esforço ao Clube Cultura.
A homenagem é merecida. E, para mim, tem um sabor ainda mais especial: ver reconhecido um lugar pelo qual tenho tanto carinho e do qual tenho a felicidade de fazer parte.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br