FAIXA DE RENDA

Flávio Bolsonaro supera votos do pai; Lula cresce entre ricos

Por Daniel Mariani, Paula Soprana e Nicholas Pretto | da Folhapress
| Tempo de leitura: 7 min
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A maior vantagem de Lula está nos setores com renda média de 0,7 salário mínimo - R$ 1,1 mil hoje;  a de Flávio está na faixa de 2,9 salários mínimos, que correspondem a R$ 4,7 mil
A maior vantagem de Lula está nos setores com renda média de 0,7 salário mínimo - R$ 1,1 mil hoje; a de Flávio está na faixa de 2,9 salários mínimos, que correspondem a R$ 4,7 mil

Candidato à reeleição, o presidente Lula (PT) perdeu votos em quase toda a distribuição de renda na comparação com o primeiro turno de 2022, com impacto maior nos setores de renda média. Entre os 4% mais ricos, registrou crescimento.

Já Flávio Bolsonaro (PL) avançou sobre todas as faixas de renda na comparação com os votos do pai, Jair Bolsonaro, deslocando o voto para os mais pobres.

O pico da perda de Lula foi no grupo no qual o responsável pelo domicílio ganha cerca de 1,71 salário mínimo, o que equivale a R$ 2,7 mil. Na cidade de São Paulo, o petista caiu entre os setores mais pobres e subiu entre os mais ricos.

Apesar das movimentações, a renda demonstra uma fronteira clara: Lula vence entre os mais pobres (com ampla margem entre quem ganha até um salário mínimo, que vai se estreitando até 1,6 salário mínimo), cerca de 42% da população.

Flávio vence no restante, de 1,6 salário mínimo até 16, 3 salários mínimos (conjunto que representa 68% da população e vai de parte da renda média baixa até a mais alta).

A análise da reportagem cruza a votação presidencial do primeiro turno nos 468 mil setores censitários do Brasil com a média de renda desses setores, medida pelo Censo Demográfico de 2022. Setores censitários são a menor unidade territorial medida pelo IBGE e equivalem a um quarteirão, uma vizinhança ou um condomínio, a depender do município.

A reportagem dividiu essas localidades em 100 grupos de renda de igual tamanho, sendo 1 o mais pobre e 100 o mais rico. O levantamento usa o rendimento nominal médio mensal declarado pelo responsável pelo domicílio de cada setor ao Censo de 2022, divulgado pelo IBGE em 2026.

A maior vantagem de Lula está nos setores com renda média de 0,7 salário mínimo – R$ 1,1 mil hoje, com 76% dos votos. Já a de Flávio está na faixa de 2,9 salários mínimos, que correspondem a R$ 4,7 mil, na qual ele conquistou 56% dos votos. Essa faixa já posiciona a população entre os mais ricos do país.

A classe média brasileira não segue o padrão de classe média tradicional de um país rico como os Estados Unidos, que seria mais próxima à AB, que votou no Bolsonaro. Uma renda mensal do chefe do domicílio de R$ 5.000 situa o eleitor entre os 20% mais ricos.

Já no grupo mais rico calculado segundo os dados do Censo, de 16,2 salários mínimos (cerca de R$ 26,2 mil hoje), Flávio obtém 50% dos votos e Lula, 39%.

Relação voto X renda por classes

Ao olhar os dados pela divisão de faixas de consumo, que utiliza áreas territoriais maiores do que os setores censitários, Lula tem preferência na classe E, com 76% de votos, e na D, com 68%. Flávio predomina na classe C, com 52% de votos, e na ponta mais rica: B, com 53%, e A, com 50%.

Neste recorte menos granular, a classe C detém 78% da população, o que esconde desigualdades internas, menos aparentes na análise de 0 a 100, e o que conta é a renda média domiciliar total, não per capita.

Na comparação com o primeiro turno de 2022, Lula perdeu mais votos entre a classe média e média baixa. Sua queda é de 5,1 pontos percentuais na classe C; de 3,9 na D; e de 3,2 p.p. na classe E. Por outro lado, ele avança na B (alta tímida de 0,4 p.p.) e na A (1,6 p.p.).

Flávio ganhou votos em relação ao pai em todas as faixas. A reportagem já mostrou que ele expandiu a votação de Jair nos estados e que tirou votos de Lula em 714 cidades. Na relação com 2022, o PL avança sobre Lula em todas as classes. A alta substancial é na classe C, de 4,9 pontos percentuais, e sobre os mais pobres, com 4,5 p.p na classe D e 4,3 p.p na E.

A divisão por classe usa critérios da FGV Social, segundo estudo de 2023 com valores médios daquele ano deflacionados pela reportagem para o último Censo. No estudo, classe A agrega população com renda familiar igual ou maior do que R$ 14,2 mil, classe B (R$ 10,9 mil a R$ 14,2 mil), classe C (R$ 2,5 mil a R$ 10,9 mil), classe D (R$ 1,6 mil a R$ 2,5 mil) e classe E (R$ 0 a R$ 1,5 mil).

Especialistas concordam que índices de melhora do emprego e de renda não se traduziram em sensação de bem-estar para o eleitor de classe média e de média baixa. Juros altos, endividamento e inadimplência ajudam a explicar o descompasso.

O economista Flávio Ataliba, que pesquisa bem-estar e endividamento, está desenvolvendo um estudo para entender a correlação entre renda e voto nos estados no primeiro turno –se os mais pobres votam em Lula e os mais ricos em Flávio. Ele diz que o grau de associação é de quase 70%.

"Mas quando tiramos o Nordeste da amostra e fazemos a investigação olhando só para outras regiões, a associação entre entre renda e voto cai muito, fica praticamente insignificante", afirma Ataliba, pós-doutor em Harvard, professor da Universidade Federal do Ceará e coordenador do Centro de Estudos do Desenvolvimento do Nordeste do FGV IBRE.

Exemplos são Acre e Roraima, no Norte, com votações expressivas em Flávio e indicadores de renda e de pobreza semelhantes aos de estados do Nordeste.

"O efeito de votar no Lula é mais concentrado no Nordeste, mas não é só renda ou pobreza que explicam o voto nele, há questões institucionais, históricas e regionais que se sobrepõem a essas variáveis, e isso precisa ser entendido melhor."

O levantamento da reportagem indica comportamentos de renda e voto muito distintos a depender do estado. Minas Gerais segue tendência semelhante ao Brasil. Já na Bahia, Lula vence em todos os grupos de renda, com a margem menor à medida que a renda cresce. No Paraná, ocorre o inverso, Flávio vence em todos os setores, com distância pequena entre os mais pobres e ampla vantagem conforme a renda aumenta.

Marcelo Neri, pesquisador da FGV Social, afirma que os fatores econômicos que ajudam a explicar a insatisfação da classe C estão ligados a obstáculos de consumo, apesar da agenda de Lula ligada a essa fatia —isenção de Imposto de Renda até R$ 5.000, Desenrola, crédito subsidiado para a compra de motocicletas por entregadores, aumento do Bolsa Família e, por último, a proibição das bets.

"Os dados para o trabalhador são bons, são inclusive comparáveis, em termos de mudança, aos de ‘anos de ouro’, de ascensão da classe C e da nova classe média. A renda média do trabalho cresceu 26% em termos reais, incluindo formais, informais, desempregados, e a renda bruta em geral dos brasileiros teve desempenho surpreendentemente bom, dado as percepções e o voto das diferentes classes", afirma.

"O brasileiro está trabalhando, está gerando renda, o governo está transferindo renda —obviamente cobrando imposto do outro lado, que vai um pouco na direção oposta—, mas o brasileiro segue endividado", afirma, atribuindo boa parte do problema às bets. Ele especula que a medida de Lula tenha sido tardia do ponto de vista eleitoral.

O economista aponta que novos comportamentos subjetivos ainda precisam ser compreendidos e que eles extrapolam a renda, apesar de uma relação com ela. Cita o conservadorismo e novas aspirações de consumo ligadas a influenciadores e redes sociais. "As redes sociais estão começando a governar os mercados eleitorais, com vários influenciadores com recorde de votos em contraposição a políticos tradicionais", diz. "É um mundo mais gasoso, não é mais carro, crédito, celular, são outros desejos."

Metodologia

A reportagem geolocalizou os locais de votação a partir de coordenadas fornecidas pelo TSE, validadas com a malha do IBGE. Para locais sem coordenadas válidas, cruzou CEPs e endereços com o Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos, do IBGE, e, nos casos restantes, utilizou o OpenStreetMap.

Em seguida, os locais de votação foram relacionados aos setores censitários do IBGE, considerando a proximidade entre eles. A votação atribuída a cada setor é uma estimativa baseada nas urnas próximas, não o resultado exato de seus moradores. Os resultados do TSE foram conferidos com os boletins de urna, com coincidência de 100%.

Para medir a renda, a análise utilizou o rendimento médio mensal dos responsáveis pelos domicílios com renda, segundo o Censo 2022, em salários mínimos daquele ano. Os setores foram ordenados por renda e divididos em cem grupos de igual tamanho (percentis). A votação de cada grupo corresponde à média dos percentuais de votos válidos de seus setores.

Como essa medida considera o responsável pelo domicílio, a reportagem testou outras quatro medidas de renda, incluindo dados do Censo 2010. Os resultados foram praticamente idênticos, com a maior perda de Lula concentrada nos setores de renda média-baixa.

Setores sem domicílios, com renda sob sigilo estatístico (menos de 2% do total) ou sem locais de votação próximos foram excluídos.

A análise foi feita pelo jornalista de dados Daniel Mariani, que também publicou o resultado do cruzamento de dados neste mapa.

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