FESTA DA PADROEIRA

Arcebispo de Aparecida defende diálogo entre religião e política

Por Xandu Alves | Aparecida
| Tempo de leitura: 4 min
Thiago Leon/Santuário Nacional
Arcebispo de Aparecida, dom Mário Antônio da Silva
Arcebispo de Aparecida, dom Mário Antônio da Silva

A relação entre religião e política, o respeito às diferenças e o combate à intolerância marcaram a entrevista do arcebispo de Aparecida, dom Mário Antônio da Silva, após a missa solene da festa de Nossa Senhora Aparecida, celebrada na manhã desta segunda-feira (12), no Santuário Nacional, em Aparecida.

Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp

Em meio à polarização política no país e às controvérsias envolvendo a imagem da Padroeira do Brasil, o arcebispo defendeu o diálogo entre diferentes correntes de pensamento e ressaltou que a fé não deve ser utilizada para alimentar hostilidades.

Para ele, religião e política são realidades importantes na sociedade e podem caminhar juntas quando colocam o bem comum e a dignidade humana em primeiro lugar.

“Na questão religião e política, são duas realidades muito necessárias na nossa vida”, afirmou dom Mário, ao comentar a transformação da devoção a Nossa Senhora Aparecida em elemento de disputa política.

Aparecida e a disputa política

Questionado sobre a associação da imagem da Padroeira do Brasil à disputa entre candidatos e sobre possíveis questionamentos futuros ao título religioso, o arcebispo afirmou não temer que Maria perca sua importância para os brasileiros.

O título de Padroeira do Brasil foi concedido pelo papa em 1930 e proclamado oficialmente no país em maio de 1931, no Rio de Janeiro, então capital federal. Segundo dom Mário, a devoção a Nossa Senhora Aparecida atravessa gerações e não deve ser motivo de preocupação diante das movimentações políticas.

“Não tenho nenhum temor de que Maria deixará de ter a importância que tem na vida do povo brasileiro”, declarou em resposta a OVALE.

O arcebispo também negou que o Santuário Nacional tenha proibido ou restringido a presença de candidatos nas celebrações do dia 12 de outubro. Segundo ele, a casa de Nossa Senhora Aparecida deve permanecer aberta a todos, independentemente de posicionamentos políticos ou religiosos.

Dom Mário, no entanto, ressaltou que o espaço sagrado precisa ser preservado como ambiente de respeito, acolhimento e crescimento na fé.

Redes sociais ampliam polêmica religiosa

Ao avaliar a repercussão envolvendo Nossa Senhora Aparecida e a política, dom Mário atribuiu parte da intensificação da controvérsia à velocidade de circulação das informações nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens.

Na avaliação do arcebispo, conteúdos divulgados sem a devida apuração podem provocar comoção, alimentar conflitos e atingir a religiosidade das pessoas.

Ele defendeu mais prudência, paciência, bom senso e respeito no debate público, além da preservação dos símbolos religiosos, sejam eles católicos ou de outras tradições.

“Não temos o direito de ferir ninguém com a sua fé ou com os elementos da sua religião”, afirmou.

Para dom Mário, a polêmica também representa uma oportunidade para fortalecer o respeito entre crenças e religiões. Ele alertou que manifestações ofensivas podem ampliar divisões que já existem na sociedade brasileira.

Evangelho não justifica o ódio

A polarização política também foi abordada pelo religioso, que criticou o uso da religião para estimular a hostilidade entre adversários.

Segundo dom Mário, a mensagem central do Evangelho é o amor ao próximo, inclusive àqueles que pensam de maneira diferente ou manifestam opiniões contrárias.

“O nosso cenário político está muito carregado, com uma energia de muita disputa, de muita acusação, de muita indignação”, avaliou.

Para ele, esse ambiente prejudica o diálogo e afasta a sociedade das discussões que realmente importam para o país. O arcebispo defendeu que os brasileiros busquem sair das chamadas bolhas ideológicas, nas quais convivem principalmente com pessoas que compartilham das mesmas opiniões.

Dom Mário afirmou que divergências políticas não devem transformar adversários em inimigos. Embora reconheça a existência de conflitos, ele destacou que diferenças de pensamento não justificam agressões, confrontos ou tentativas de desumanizar quem pensa de outra forma.

O religioso também ressaltou que não basta falar sobre Jesus: é necessário colocar os ensinamentos cristãos em prática, promovendo atitudes de paz, respeito e solidariedade.

Igreja deve denunciar injustiças

Ao comentar o papel da Igreja diante dos desafios do país, dom Mário afirmou que a instituição não pode abrir mão de sua missão profética, que envolve anunciar o Evangelho e denunciar injustiças.

Segundo ele, essa atuação deve priorizar os mais pobres e vulneráveis, além de defender uma política comprometida com o bem comum e uma sociedade pautada pela justiça.

O arcebispo destacou que a construção da paz exige ações concretas e disposição para buscar o melhor para todas as pessoas, inclusive para aquelas com opiniões diferentes.

A mensagem, segundo ele, não significa ignorar os conflitos existentes, mas trabalhar para que as diferenças não resultem em violência ou exclusão.

Primeiro 12 de outubro como arcebispo

A celebração deste ano também teve um significado especial para dom Mário, que participou pela primeira vez da festa de Nossa Senhora Aparecida como arcebispo da arquidiocese.

Ele afirmou ter sentido emoção e alegria ao acompanhar a participação dos devotos no Santuário Nacional e destacou que a experiência reforçou seu compromisso com os ensinamentos e as virtudes de Maria.

Entre as características que pretende cultivar, citou humildade, ternura, paciência, perdão e misericórdia.

Para o arcebispo, a festa de 12 de outubro não se encerra com a celebração religiosa. A mensagem de Nossa Senhora Aparecida deve permanecer presente durante todo o ano, inspirando atitudes de fé, acolhimento e compromisso com a sociedade.

Comentários

Comentários