MARANHÃO

PF põe senador sob suspeita de tentar interferir em investigação

Por José Marques | da Folhapress
| Tempo de leitura: 6 min
Divulgação/PDT
O senador Weverton Rocha (PDT-MA)
O senador Weverton Rocha (PDT-MA)

A Polícia Federal apontou a existência de comunicações reiteradas entre o  senador Weverton Rocha (PDT-MA) e o ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Humberto Martins durante o período em que o magistrado relatou uma investigação relacionada a um homicídio em São Luís.

A suspeita da PF é a de que houve tentativa de interferência do senador nesse inquérito, que investiga se o homicídio está ligado a uma suposta cobrança de propina por Daniel Brandão, atual presidente do TCE (Tribunal de Contas do Estado) do Maranhão.

Ele é sobrinho a polícia. A PF diz que havia, no estado, "critério previamente estabelecido para seleção das empresas que seriam beneficiadas com a liberação de pagamentos de valores indevidos, oriundos de recursos públicos".

Atualmente, o caso está sob responsabilidade do ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), devido às suspeitas sobre Weverton. A menção aos telefonemas está em uma decisão de Dino sobre o caso tornada pública nesta sexta-feira (14).

O senador falou sobre a investigação após gravar material de campanha com o presidente Lula (PT) nesta sexta-feira (14). De acordo com ele, o tema não foi discutido com o presidente.

"Se por coincidência aconteceu alguma coisa no dia em que ele [Martins] esteve no meu gabinete, [concluir que] a gente conversou sobre isso eu acho que é forçação de barra, repúdio total e vou ficar com foco na minha campanha", disse.

Questionado sobre se o ministro Flávio Dino deveria se considerar impedido para relatar o caso, Weverton disse que não queria fazer juízo de valor. "Vai de cada magistrado", disse. "Deixa Deus tocar o coração dele."

Humberto Martins não é formalmente investigado. Procurado, ele disse que não irá se manifestar porque o processo está em sigilo (apesar de Dino ter retirado sigilo de três decisões sobre o caso). Também informou que os autos foram encaminhados ao ministro do STF.

O governador do Maranhão disse, por meio de nota da assessoria, que o STF não tem competência para julgar casos relacionados a governadores, que têm foro especial no STJ.

"Ainda que no âmbito das investigações surjam personalidades ou autoridades com este foro, cada um deve ser direcionado ao juízo competente, questão apresentada pela Procuradoria-Geral da República", afirma a nota.

Brandão também diz que "vê com surpresa a quebra de sigilo dos processos por parte do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, após tamanha repercussão da quebra do sigilo da fonte envolvendo o jornalista Luís Pablo por decisão do ministro Alexandre de Moraes, direito que é assegurado pela Constituição".

O governador afirma ainda que seus adversários se intitulam "dinistas" e que, apesar desses elementos, "o ministro segue responsável por decisões que impactam diretamente o cenário político do Maranhão".

Procurada sobre os comentários do governador, a assessoria de Dino diz que "ele não participa de debates políticos desde fevereiro de 2024, quando assumiu o cargo de ministro do STF". "O ministro se pronuncia apenas sobre os fatos que constam dos processos que lhes são distribuídos segundo as regras legais."

Daniel Brandão disse, em nota, que "repudia, de forma categórica, a acusação, que é absolutamente inverídica". "Daniel Brandão jamais participou, direta ou indiretamente, de qualquer negociação dessa natureza, tampouco solicitou, autorizou ou manteve qualquer tratativa envolvendo propina ou vantagem indevida relacionada aos fatos mencionados."

O presidente disse ainda que os acontecimentos são de quatro anos atrás, e que ele foi ameaçado por parentes do acusado de assassinato, que teriam prometido incriminá-lo na história caso ele não desse suporte financeiro à família. Brandão relatou que à época fez um boletim de ocorrência para registrar a ameaça.

"Causa, portanto, estranheza que, quatro anos depois dos fatos, sejam divulgadas informações atribuídas à Polícia Federal e supostamente extraídas de procedimento submetido a sigilo ao qual os próprios envolvidos e seus representantes não tiveram acesso, enquanto tais informações chegam ao conhecimento público por meio da imprensa", disse na nota.

O presidente do TCE ainda afirmou que está à disposição das autoridades para esclarecimentos e que procurou o STJ (Superior Tribunal de Justiça) para depor, mas ainda não foi chamado.

As comunicações foram identificadas pela PF a partir de uma análise do celular de Weverton apreendido no ano passado na operação que investiga suspeitas de desvios relacionados ao INSS —Dino pediu que André Mendonça, relator do caso, compartilhasse os dados com a investigação do Maranhão.

A PF disse que os dados do celular revelam "a existência de comunicações diretas com o ministro do STJ Humberto Martins, mantidas de forma reiterada entre 25.jan.2023 e 04.out.2025".

"De acordo com a análise, esses contatos ocorreram por meio de diferentes canais, sendo identificadas mensagens de texto, áudios, ligações telefônicas e compartilhamento de mídias, a partir dos terminais vinculados a ambos", afirma o órgão.

"O conteúdo acessível evidencia diálogos que versam sobre encontros pessoais e processos sob relatoria do referido ministro. Inicialmente, evidenciou-se a existência de uma relação de proximidade pessoal entre os interlocutores, que ultrapassa os limites de uma interação meramente formal ou institucional."

A PF afirma que o senador fazia pedidos ao ministro sobre ações que tramitavam sob sua relatoria e que houve um encontro pessoal no gabinete do magistrado em agosto do ano passado.

O órgão destaca um registro de 2 de junho do ano passado, em que houve trocas de mensagens e uma ligação atendida de cerca de cinco minutos, seguida de um áudio em que o senador menciona dificuldades de conexão.

Na mesma data, Martins determinou a transferência de Gilbson Cesar Soares Cutrim Júnior (condenado por ser o executor do assassinato em São Luís) do presídio de Pedrinhas, na capital maranhense, para Brasília.

O assassinato do empresário João Bosco Sobrinho ocorreu em 2022. Antes de a ação chegar ao STF, Gilbson Cutrim foi considerado executor do crime pela Justiça maranhense e condenado a 13 anos de prisão.

O caso que estava aberto no STJ apurava se o assassinato de Bosco Sobrinho está ligado a uma suposta cobrança de propina por Daniel Brandão, que atualmente está no TCE. Em novembro de 2025, devido às suspeitas relacionadas a Weverton, o caso foi para o Supremo.

CORRIDA ELEITORAL

O episódio virou ponto central nas discussões da corrida pré-eleitoral pelo Governo do Maranhão e tem provocado trocas de acusações entre os grupos que eram ligados a Dino, dissidentes desses núcleos e opositores.

Dino é ex-governador do estado, e Carlos Brandão foi seu vice. Atualmente, Brandão é rompido com o antigo grupo de Dino na política maranhense.

A PF também apura se o assassinato teria relação com suspeitas de desvios de emendas parlamentares de contratos firmados no Maranhão.

Nas decisões cujos sigilos foram derrubados nesta sexta, Dino também determina a prisão de Raimundo Cutrim, que foi secretário de Segurança Pública do Maranhão. Ele está em detenção domiciliar desde julho, por suspeita de ter pedido à família de Gilbson para mudar depoimentos sobre o assassinato.

Raimundo Cutrim foi alvo, na última semana, de busca e apreensão autorizada por Alexandre de Moraes. A medida foi tomada após a PF analisar o celular do jornalista Luís Pablo e descobrir que ele era o informante de reportagens sobre suposto uso irregular de veículos do Tribunal de Justiça do Maranhão por Dino. Raimundo nega irregularidades.

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