Lula se lança à reeleição e promete disputa por emendas
O presidente Lula (PT) se lançou oficialmente como candidato à reeleição neste domingo (2) e deu recados políticos sobre seu programa de governo e a relação com o Congresso Nacional.
O petista disse que não quer ser lembrado apenas pelo Bolsa Família e prometeu, em um possível novo mandato, disputar com o Legislativo o dinheiro das emendas parlamentares.
Lula tem 80 anos e disputará sua sétima eleição presidencial. Em seu discurso de uma hora e dez minutos durante a convenção do PT no Expo Center Norte, em São Paulo, também falou sobre soberania nacional, direitos das mulheres, investimento em defesa e outros temas que devem aparecer em sua campanha.
"Eu não quero ser apenas o presidente do Bolsa Família", disse. A fala expõe uma cobrança que Lula tem feito a seus aliados mais próximos: quer propostas mais ousadas para apresentar na atual campanha, sem foco total nas políticas sociais que marcam sua trajetória.
O presidente voltou a reclamar das emendas parlamentares, mecanismo que permite a deputados e senadores escolherem o destino de frações do Orçamento. Lula julga que esse sistema de distribuição de recursos reduz a capacidade de investimento do Executivo. "Vai ter briga com emenda parlamentar. Vai ter briga com o papel que tem o Poder Legislativo", disse.
Mais tarde, prometeu ser em um eventual quarto mandato um "Lulinha porreta", em vez de "Lulinha paz e amor", mote de sua primeira eleição presidencial vitoriosa, em 2002.
O presidente repetiu a defesa de maior investimento em defesa e afirmou que a esquerda tem resistência a destinar recursos às Forças Armadas por causa do trauma da ditadura militar, mas que essa ideia precisa ser superada.
"Eu quero pedir para a esquerda parar com essa bobagem de achar que a gente não quer ter preocupação com a defesa", disse. "Eu sei que tem gente que tem trauma da ditadura militar. Mas, gente, o tempo passa", afirmou.
O candidato mencionou indiretamente o ataque de tropas americanas à Venezuela para capturar o então ditador do país, Nicolás Maduro. "Eu quero estar preparado para que ninguém invada esse país para levar o presidente."
O petista falou sobre os minerais críticos, materiais indispensáveis para a produção de baterias elétricas de alto desempenho que estão no centro de uma disputa entre Estados Unidos e China. O Brasil tem uma das maiores reservas globais desses recursos.
"Essas terras raras, nem chinês, nem americano, nem francês vão meter o dedo nas nossas terras raras", declarou. "Tem muita gente metendo o dedo no nosso nariz."
O petista travará novo embate contra a família Bolsonaro —desta vez tendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como adversário, após ter vencido Jair na eleição de 2022. Na campanha de 2022, ele chegou a dizer que não concorreria à reeleição, citando inclusive a idade avançada, mas recuou ao longo do terceiro mandato.
PELÉ E VOTO FEMININO
Lula, que costuma fazer brincadeiras com futebol em seus discursos, disse que embora os craques Lionel Messi, da Argentina, e Cristiano Ronaldo, de Portugal, tenham disputado seis Copas do Mundo cada, ele próprio estará em sua sétima eleição. O petista se comparou a Pelé.
"O Pelé, que foi o grande astro do futebol do século 20, considerado o atleta do século, só disputou quatro Copas. [...] O que eles não sabem é que essa Copa minha é a sétima."
Embora fosse previsto que Lula discursasse com auxílio de um teleprompter, ele optou por ignorar o equipamento e falar livremente.
Lula faz acenos ao voto feminino, com ataques a agressores de mulheres, mas expôs uma falha da convenção do PT: só homens haviam sido escolhidos para discursar. Em uma quebra de protocolo, pediu que a primeira-dama Janja da Silva também falasse.
"Não é possível que a gente tenha esquecido, no principal evento da nossa campanha, de ter colocado uma mulher para falar", disse Lula.
"O cara vai ter que escolher: ou ele vota em mim ou ele bate na mulher. Se ele bater na mulher, não precisa votar em mim", afirmou.
Janja falou brevemente sobre mulheres precisarem sempre se afirmar. Ela vestia uma camiseta com uma impressão do rosto de Lula quando criança. Um dos objetivos do evento foi apresentar a história do petista.
Como a ideia do PT é investir mais no primeiro ato de campanha, marcado para 16 de agosto no Estádio 1° de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), berço político do petista, a convenção reduziu os discursos.
Inicialmente, eram previstas apenas as falas de Edinho Silva, presidente nacional do partido, do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e do ex-ministro Fernando Haddad, candidato ao Governo de São Paulo — além do próprio Lula.
Haddad foi incluído de última hora na lista de oradores pela organização do evento. Lula, em seu discurso, sugeriu que o ex-ministro poderá sucedê-lo como presidenciável do PT em eleições futuras.
"Qual é o país do futuro que eu vou entregar, quando você, Haddad, depois de governar São Paulo por oito anos, estiver sendo presidente da República?", declarou Lula.
Lula reclamou de não poder pedir votos ainda, já que a legislação só permite que o candidato possa fazer isso a partir do dia 16 de agosto. "Eu falei na Bahia, pedi voto e vou ser multado", afirmou.
Neste sábado (1°), Lula pediu votos ao senador Jaques Wagner durante convenção do PT na Bahia. Wagner, que não compareceu à convenção no domingo, foi alvo de operação da Polícia Federal em meio às investigações sobre o Banco Master.
Não houve nenhuma menção ao caso Master durante a convenção, embora petistas tenham explorado denúncias contra Flávio, que pediu e recebeu dinheiro de Vorcaro para o filme "Dark Horse", que conta a história de seu pai.
O desgaste envolvendo investigações da Polícia Federal contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, também ficou de fora da convenção.
SOBERANIA
A soberania nacional foi amplamente defendida pelos aliados de Lula durante o evento. O tema é uma das tônicas do PT nestas eleições diante do tarifaço imposto por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e do receio de que ocorra algum tipo de intervenção estrangeira na votação de outubro.
O PT tem trabalhado no resgate do uso da bandeira brasileira, que ficou associada à direita, e vem estimulando a militância a aderir ao verde e amarelo. Na arquibancada do lado esquerdo do pavilhão, um grupo ergueu um bandeirão do Brasil, tal qual torcida em estádio de futebol, e no telão a bandeira nacional também foi exibida.
Alckmin, por exemplo, disse que a eleição dele e de Lula ajudou a salvar a democracia. "Se os nossos adversários, perdendo as eleições, tentaram um golpe de Estado, tinham como projeto matar quem foi eleito pelo povo, imaginem se tivessem ganho as eleições", disse ele, lembrando a tentativa de golpe de Estado que levou à prisão de Bolsonaro.
Ele também criticou os ataques às urnas eletrônicas e as relações do clã Bolsonaro com a administração Trump, nos Estados Unidos, e com Javier Milei, presidente da Argentina — e que participou da convenção que lançou Flávio à Presidência.
"Quem não acredita no voto popular não deveria nem ser candidato a presidente. A descrença das urnas é cheiro de fumaça de derrota. A urna eletrônica é tão competente que não aceita voto de argentino e americano", afirmou Alckmin.
O vice-presidente finalizou a fala brincando que, agora, vai repetir "lula com chuchu", uma receita de sucesso, em referência ao apelido que recebeu enquanto governador paulista, de ser "picolé de chuchu". Ao fim do discurso dele, o público presente gritou "chuchu, chuchu".
Edinho Silva, em seu discurso, disse ser necessário rechaçar o entreguismo e escolher a soberania nestas eleições e que, se o país for capaz de enfrentar o fascismo, o mundo também o será. "O Brasil do presidente Lula vai enfrentar o intervencionismo, o autoritarismo", disse.
"O Brasil terá neste ano que fazer uma escolha, muito mais do que uma eleição, de legado para as próximas gerações. Que Brasil vamos construir para as próximas gerações? Quero dizer a vocês que a eleição no nosso país também vai significar o futuro da América do Sul, da América Latina e a eleição do Brasil vai influenciar o que será do mundo democrático daqui para frente", afirmou o presidente do PT.
Haddad disse que "os mesmos problemas que enfrentamos fora, estamos enfrentando dentro do Brasil". Afirmou que Lula nunca traiu os seus princípios de vida e que governou "sem botar boné de presidente de nenhum outro país, defendendo o interesse nacional independentemente do teor das ameaças que são feitas".
Segundo a última pesquisa Datafolha, Lula tem 40% das intenções de voto para o primeiro turno contra 32% de Flávio. No cenário mais provável de segundo turno, o petista aparece com 48% contra 43% de Flávio. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.