O Brasil envelhece em ritmo acelerado e essa transformação já começa a mudar a forma como as pessoas escolhem onde viver. Com o aumento da expectativa de vida, famílias menores e um número crescente de idosos que permanecem ativos por mais tempo, cresce também a procura por moradias que ofereçam segurança e autonomia. Em Jundiaí, onde pessoas com mais de 60 anos já representam quase um quinto da população, especialistas afirmam que o mercado imobiliário precisará acompanhar essa nova realidade.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, entre 2010 e 2022, a população brasileira com 65 anos ou mais cresceu 57,4%. Em 2023, pela primeira vez, o número de idosos superou o de jovens entre 15 e 24 anos. A projeção é que, em 2070, pessoas com mais de 60 anos representarão cerca de 37,8% da população brasileira.
Essa mudança demográfica já é percebida em Jundiaí. Um levantamento da consultoria Saber Fazer Marketing & Negócios, apresentado para Associação das Empresas e Profissionais do Setor Imobiliário de Jundiaí e Região (PROEMPI), mostra que o município possui uma participação de moradores com mais de 60 anos acima da média nacional em todas as faixas etárias entre 60 e 99 anos. Atualmente, esse público representa quase um quinto da população da cidade.
O estudo aponta também que cerca de 22% dos idosos permanecem na força de trabalho e que quase 10% de toda a população economicamente ativa de Jundiaí já é formada por pessoas com 60 anos ou mais. Entre aqueles que estão fora do mercado de trabalho, aproximadamente 15% possuem renda superior a três salários mínimos, percentual acima da média brasileira, indicando diferentes perfis de consumo e novas demandas habitacionais.
Para Eli Gonçalves, vice-presidente de Inteligência de Mercado da PROEMPI, esse cenário representa uma transformação que vai além das oportunidades de negócio. "O segmento imobiliário para idosos não é apenas uma oportunidade de mercado, é uma necessidade social e precisa ser atendida em todas as faixas de renda de idosos."

Segundo ele, os empreendimentos voltados ao público maduro precisam oferecer muito mais do que barras de apoio e rampas. Localização próxima a hospitais, farmácias, parques e centros comerciais, elevadores adaptados, pisos antiderrapantes, áreas verdes, espaços de convivência, ambientes destinados à prática de atividades físicas e culturais, além de diferentes padrões de custo para atender idosos de diversas faixas de renda, estão entre as principais características apontadas pelo estudo.
Na avaliação de Gonçalves, o avanço desse mercado também depende da atuação conjunta entre iniciativa privada e poder público. "Os setores público e privado precisam trabalhar em conjunto para atender esta necessidade social, criando mecanismos legais e econômicos que estimulem projetos habitacionais para este público nas diferentes faixas de renda."
Para a médica geriatra Fernanda Rezende, pensar na moradia deve fazer parte do planejamento da vida muito antes do surgimento de limitações físicas. "O ideal é começar muito antes de surgirem limitações físicas. Planejar a moradia faz parte do planejamento da vida, assim como cuidar da saúde ou organizar a aposentadoria."
Ela explica que medidas simples, como boa iluminação, pisos antiderrapantes, circulação livre de obstáculos e banheiros adaptados, podem reduzir riscos e preservar a independência por mais tempo. "O objetivo não é transformar a casa em um ambiente hospitalar, mas criar um espaço que favoreça autonomia, segurança e qualidade de vida ao longo dos anos, sem perder a individualidade de cada um." Segundo a especialista, muitas famílias só percebem que a residência deixou de atender às necessidades do idoso quando a rotina começa a ser comprometida. "O principal sinal é quando a casa passa a limitar a rotina da pessoa."
Essa preocupação motivou o arquiteto Paulo Silveira e sua família a mudarem de residência quando a antiga casa passou a dificultar os cuidados com sua mãe. "A mudança se deu justamente pela dificuldade das cuidadoras da minha mãe, numa casa de dois pavimentos, a locomoção (subida e descida) dela na escada."
Na nova casa, térrea, o banheiro foi adaptado para atender às normas de acessibilidade. Também foram feitas rampas em pequenos desníveis e reorganizados os ambientes para facilitar a circulação. "Qualidade de vida e segurança nos deslocamentos foram muito importantes. Idas ao terraço no mesmo nível, uso do banheiro facilitou muito o trabalho das cuidadoras. A colocação da cama hospitalar numa posição com vista para as janelas também contribuíram para melhorar a qualidade de vida da minha mãe."
A experiência reforçou uma convicção que o arquiteto já busca aplicar em seus projetos. "Não só acredito como implanto em todos os meus projetos as normas de acessibilidade mesmo para famílias jovens prevendo futuros problemas. Tento convencer o cliente da necessidade desses parâmetros de projeto, mas não são todos que aceitam. Uma pena!"
Busca por instituições aumenta
Além das adaptações nas residências, o envelhecimento da população também aumenta a procura por instituições de longa permanência. Na Cidade Vicentina, referência no atendimento à população idosa em Jundiaí, esse crescimento já faz parte da rotina. Segundo a administradora da instituição, Noeli Sá, a procura por vagas tem aumentado nos últimos anos. "Esse crescimento está relacionado principalmente ao envelhecimento da população, ao aumento da expectativa de vida e às mudanças na estrutura das famílias, que muitas vezes não conseguem oferecer os cuidados necessários em tempo integral."
De acordo com Noeli, a maioria dos acolhidos chega à instituição necessitando de cuidados contínuos, devido a limitações físicas, doenças crônicas ou comprometimento cognitivo, exigindo acompanhamento de uma equipe multiprofissional.
Na avaliação da administradora, esse cenário reforça a necessidade de ampliar os serviços voltados ao atendimento da população idosa. "A Cidade Vicentina, que há 87 anos atua no cuidado à pessoa idosa, acompanha de perto essa transformação. Essa experiência reforça a importância de ampliar e fortalecer os serviços voltados ao atendimento da população idosa, garantindo um cuidado digno, humanizado e de qualidade."