Copa sem 'voz nacional': o que será de 2026 sem Galvão na Globo
A Copa do Mundo de 2026 marcará mais do que a primeira ausência de Galvão Bueno, 75, nas transmissões da Globo em mais de quatro décadas -ele irá narrar pelo SBT o seu 14º Mundial.
O torneio simboliza uma mudança profunda na maneira como os brasileiros acompanham futebol, informação e entretenimento.
Se durante décadas a seleção brasileira foi narrada por uma voz capaz de unificar emoções, interpretações e debates em torno de uma mesma tela, o Mundial disputado nos Estados Unidos, México e Canadá acontece em um ambiente fragmentado, no qual múltiplas plataformas, criadores de conteúdo e narrativas disputam simultaneamente a atenção do público.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, a saída de Galvão da principal emissora do país representa o fim de uma era marcada pela centralização da comunicação de massa e a consolidação de um novo modelo de consumo, baseado na personalização da experiência e na coexistência de diferentes vozes.
Boa parte da paixão que o brasileiro nutre nesta quinta-feira (11) em torno do futebol, da seleção e da Copa do Mundo foi construída e conduzida por um modelo centralizado de comunicação de massa Ana Paula Passarelli, executiva de marketing e cofundadora da agência Brunch.
"Hoje, temos milhões de mãos modelando simultaneamente pequenas esferas de conteúdo", completa Passarelli.
Fernando Fleury, especialista em marketing esportivo e PhD em Comportamento do Consumo, vê a edição de 2026 como o encerramento de uma das maiores construções simbólicas da televisão brasileira.
"Falamos de um narrador sinônimo de seleção brasileira para várias gerações. O Galvão não narrava apenas futebol. Ele narrava o Brasil assistindo futebol", resume.
Uma Copa de múltiplas vozes
A discussão sobre quem ocuparia o espaço deixado por Galvão evidencia justamente a transformação do mercado.
Para o crítico de televisão Maurício Stycer, ainda existe espaço para figuras de alcance nacional, mas elas não surgem instantaneamente. "Essa voz não aparece de uma hora para a outra; isso se constrói com o tempo", afirma.
Já Passarelli acredita que o cenário atual tornou improvável o surgimento de uma unanimidade comparável à de Galvão.
Segundo ela, a relevância contemporânea depende menos de uma narrativa centralizada e mais da capacidade de dialogar com públicos diversos.
Os dados reforçam essa percepção. A pesquisa "O Brasileiro e a Copa: Mídia, Influência e Consumo" mostra que 54% dos torcedores pretendem acompanhar o Mundial utilizando mais de uma tela simultaneamente, e 12% optando somente pelo celular.
Embora a televisão aberta siga líder em alcance (85%), plataformas como Instagram (82%), YouTube (70%), TikTok (42%) e sites de notícias (77%) passaram a integrar a experiência do torcedor.
Esta Copa é um espaço aberto para novas linguagens, observa Fernando Fleury. As gerações Z e Alpha não consomem mais esporte de forma linear, mas acompanham o evento em múltiplas telas, segundo ele: trata-se do conceito de fã fluido.
"A Copa para essas gerações não é só transmissão, é ecossistema. Cada pessoa monta sua própria experiência do torneio. A nova geração é muito menos fiel a uma única narrativa. Ela prefere circular entre plataformas, vozes e experiências diferentes, e quer autenticidade, velocidade, emoção fragmentada e participação ativa", afirma.
A escolha por Everaldo
Nesse contexto, a Globo aposta em diferentes formatos e linguagens para dialogar com públicos variados.
A emissora planeja uma cobertura distribuída entre TV aberta, canais esportivos e produtos digitais, oferecendo experiências distintas para perfis diferentes de audiência.
Pelo planejamento da empresa, o posto de narrador da seleção brasileira na Copa do Mundo em 2026 seria de Luís Roberto.
O diagnóstico de neoplasia na região cervical o tirou do do Mundial, e o espaço se abriu para Everaldo Marques, escolhido o principal locutor da emissora no lugar do companheiro de equipe.
Qualquer um que tivesse a responsabilidade de narrar o jogo da seleção, sendo eu, fosse o Luis, representaria uma mudança. Ninguém é como o Galvão, cada um tem suas características, e eu não vou mudar. O que me trouxe até aqui, o que me deu a oportunidade que eu tenho, é ser quem eu sou. O caminho é narrar com as características que eu tive nesses 20 anos de carreira Everaldo Marques.
O narrador vê seu momento como especial, mas reitera: "Não vou emular ninguém, não vou criar personagem. Vou continuar sendo o narrador que as pessoas estão acostumadas."
Fleury vê em Everaldo Marques um ótimo exemplo disso: para ele, o narrador representa uma comunicação conectada à cultura digital, ao meme, às referências pop, aos bordões das redes: "Uma narração menos solene e mais conversacional."
A Globo quer outro Galvão?
Diretor de conteúdo de esporte na Globo, Renato Ribeiro acredita que a Copa de 2026 será uma oportunidade para entender se há espaço para uma nova figura que represente o que foi Galvão Bueno na empresa.
"A Copa vai botar isso na mesa, sim. É evidente que o alcance que a TV Globo tem é muito grande. E isso potencializa a voz da seleção brasileira na Copa do Mundo. A gente vai aguardar o que essa Copa do Mundo vai dizer para a gente, e vamos ver o que vai acontecer", afirma Ribeiro
Embora o posto de narrador da seleção brasileira e principal nome da Copa pós-Galvão estivesse destinado a Luis Roberto, Ribeiro observa a sucessão de forma fluida e a vaga bem ocupada.
"A construção do nosso elenco na seleção brasileira foi algo pensado, construído pouco a pouco, uma ideia ao longo do ciclo. É lógico que a gente foi surpreendido pelo que aconteceu com o Luis. Mas a escolha pelo Everaldo foi muito natural, porque essa renovação é algo que a gente vinha construindo ao longo dos anos", analisa.
Ainda que veja espaço para novas grandes figuras, Fleury pondera que não será da mesma forma como com Galvão. Antes existia "a voz da Copa", hoje existem múltiplas vozes, comenta: "Por isso, talvez seja impossível surgir novamente alguém com o mesmo nível de unanimidade nacional que o Galvão teve"
Paralelamente à reflexão sobre quem poderia suceder Galvão na emissora, a Globo aposta em uma cobertura ampla e que converse com públicos diversos, como o lançamento da GE TV, em setembro passado.
"Com o nosso ecossistema, são várias Copas do Mundo para brasileiros diferentes. Então, nós temos vários tipos de Copa. A Copa da emoção, a TV Globo, a Copa com uma profundidade no SportTV, uma Copa mais divertida com a GE TV. Queremos entregar várias Copas do Mundo com linguagens diferentes para todo tipo de brasileiro", explica Renato Ribeiro.