OBESIDADE

Semaglutida reduz consumo excessivo de álcool, diz estudo

da Folhapress
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Os efeitos adversos mais comuns foram gastrointestinais: náusea atingiu 57% dos participantes do grupo semaglutida
Os efeitos adversos mais comuns foram gastrointestinais: náusea atingiu 57% dos participantes do grupo semaglutida

O uso semanal de semaglutida -princípio ativo do Ozempic e do Wegovy- reduziu de forma significativa os episódios de consumo excessivo de álcool em pacientes com transtorno por uso de álcool e obesidade, segundo ensaio clínico randomizado publicado nesta quinta-feira (30) na revista The Lancet.

No início do estudo, os participantes tinham em média 17 dias de consumo excessivo de álcool nos últimos 30 dias. Após seis meses, esse número caiu para cerca de cinco dias no grupo que recebeu a semaglutida, contra nove dias no grupo placebo.

O consumo total de álcool também diminuiu: de aproximadamente 2.200 gramas por mês no início, para cerca de 650 gramas no grupo tratado e 1.175 g no grupo controle (que recebeu o placebo) ao fim do período.

O ensaio foi conduzido no Mental Health Center Copenhagen, na Dinamarca, entre junho de 2023 e fevereiro de 2025. Os 108 participantes --53 mulheres e 55 homens, com média de idade de 52 anos- foram divididos igualmente entre o grupo que recebeu injeção semanal de semaglutida (2,4 mg) e o grupo placebo. Todos também receberam até dez sessões de terapia cognitivo-comportamental.

Em fevereiro de 2025, um estudo menor -48 participantes, dose baixa, sem busca ativa por tratamento- havia sido publicado na JAMA Psychiatry e mostrado redução de cerca de 30% no consumo nos dias em que os participantes bebiam.

Os achados do novo estudo, dizem os autores, "apoiam uma indicação expandida para a semaglutida, potencialmente afetando milhões de pessoas" -dado que o transtorno por uso de álcool responde por cerca de 5% das mortes no mundo a cada ano e apenas três medicamentos são aprovados pelo FDA (agência regulatória americana de alimentos e medicamentos) para seu tratamento.

O estudo foi parcialmente financiado pela Fundação Novo Nordisk, ligada ao fabricante do medicamento testado. Os pesquisadores declaram que a empresa não teve papel no desenho, na coleta, na análise ou na interpretação dos dados.

Os efeitos adversos mais comuns foram gastrointestinais: náusea atingiu 57% dos participantes do grupo semaglutida, contra 7% no placebo; constipação, 35% contra 17%; e refluxo, 28% contra 2%. Os sintomas foram descritos como transitórios e de intensidade leve a moderada. Quatro participantes do grupo semaglutida abandonaram o estudo por efeitos colaterais.

Os autores, no entanto, listam limitações relevantes. O ensaio tem amostra pequena e população predominantemente branca. Além disso, a exigência de IMC (Índice de Massa Corporal) igual ou superior a 30 kg/m² restringe os achados a pacientes com obesidade, excluindo grande parte das pessoas com transtorno por uso de álcool. O estudo também não coletou dados após o encerramento do tratamento, o que impede avaliar se os efeitos se mantiveram.

Também não foi possível determinar se o efeito sobre o álcool é independente da perda de peso. O estudo identificou correlação significativa entre emagrecimento e redução do consumo no grupo semaglutida, mas não no grupo placebo. Como o consumo calórico não foi medido, os autores admitem não ser possível afirmar se o efeito sobre o álcool foi primariamente atribuível ao conteúdo calórico da bebida.

O mecanismo pelo qual a semaglutida pode reduzir o desejo de beber permanece desconhecido. A hipótese predominante, segundo os autores, é que o medicamento atue sobre vias neurobiológicas e periféricas que regulam tanto o metabolismo quanto os circuitos de recompensa no cérebro, os mesmos envolvidos na obesidade e no transtorno por uso de álcool.

Diante disso, os pesquisadores ressalvam que "limitações e incertezas de segurança persistem, e pesquisas adicionais são necessárias antes que o uso off-label possa ser endossado."

A semaglutida tem sido investigada para uma série de outros usos além de obesidade e diabetes. Entre os efeitos positivos já documentados estão a redução de dores de artrose no joelho, evidências de proteção cardiovascular e possível prevenção de recaída em pessoas com transtorno por uso de álcool. Pesquisadores também estudam potenciais efeitos sobre o Alzheimer, embora os resultados em humanos ainda sejam inconclusivos.

Entre os riscos, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) alertou que medicamentos da mesma classe podem aumentar o risco de complicações durante anestesia, pois retardam o esvaziamento gástrico.

Estudos também associaram o uso da semaglutida a problemas de visão, perda de cabelo em mulheres e lesões renais, embora os pesquisadores ressalvem que ainda são necessários mais estudos para estabelecer relação causal em cada caso.

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