Morre Fernando Novais, um dos maiores historiadores do país
Um dos principais historiadores do Brasil na segunda metade do século 20 e início do 21, Fernando Novais morreu nesta quinta-feira (30), aos 93 anos, em São Paulo.
Professor emérito da USP, Novais escreveu "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808)", uma obra da década de 1970 que se tornou clássica na historiografia do país ao associar a colonização com a formação do capitalismo comercial, uma visão que influenciou gerações de intelectuais e estudantes nos anos seguintes.
Ao longo de mais de 60 anos de carreira, ele lecionou na USP e na Unicamp, deu cursos em universidades europeias e americanas e coordenou a coleção História da Vida Privada, publicada pela Companhia das Letras. Firmou-se ainda como um nome-chave entre os acadêmicos de pensamento marxista.
Novais havia sofrido um infarto durante o Carnaval. Mais fragilizado, foi diagnosticado dias depois com pneumonia e, mais adiante, uma infecção renal, que o levou à morte. Estava internado em uma unidade da rede Prevent Senior, em São Paulo.
Em nota, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) lamentou a morte de Novais, docente do departamento de história de 1961 a 1986. "Ele construiu uma nova interpretação da história do Brasil", diz Iris Kantor, professora de história da USP e aluna de Novais no mestrado e no doutorado. "Era muito rigoroso e, ao mesmo tempo, de uma generosidade infinita."
As informações sobre velório não foram divulgadas pela família até a publicação deste texto.
Nascido em Guararema, em 1933, morou com a família nesta e em outras cidades do interior paulista até se mudar na adolescência para São Paulo, cidade onde viveu desde então. Na USP, onde se graduou em 1958, foi especialmente influenciado por Eduardo d'Oliveira França (1917-2003), professor de história moderna. "Me considero seu discípulo até hoje", disse à revista Pesquisa Fapesp em 2022.
No ano em que se formou, participou dos célebres seminários para estudar "O Capital", que se estenderam até 1964. Essas leituras coletivas de Marx reuniam nomes como a antropóloga Ruth Cardoso, os sociólogos Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni, o filósofo José Arthur Giannotti, o crítico literário Roberto Schwarz e o economista Paul Singer.
"A maior parte dos integrantes do grupo de leitura de 'O Capital' deixou de ser marxista. Eu comentei outro dia com o Roberto Schwarz: somos os últimos que se mantêm. Sou e pretendo ser um historiador marxista", disse ele também à Fapesp.
A amizade entre os integrantes do grupo resistiu ao passar do tempo, mas sofreu abalos. "Sempre votei no Lula, o FHC ficou muito chateado comigo por isso", disse Novais em um encontro da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais), em 2002.
No mesmo evento, em Caxambu, afirmou que FHC havia "criado condições para que possa ocorrer um governo de centro-esquerda no Brasil", referindo-se à gestão de Lula, o sucessor do tucano no Planalto.
Mesmo aqueles que divergiam das interpretações fundamentadas em "O Capital", como o também historiador Boris Fausto (1930-2023), admiravam Novais. Para Fausto, tratava-se de um "marxista de qualidade".
No doutorado, sob influência de Eduardo França, Novais se dedicou à pesquisa sobre a política colonial de Portugal sobre o Brasil no fim do século 18 e início do 19. O resultado saiu em 1973 como tese e em 1979 como livro.
Em "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial", ele tomou como ponto de partida uma das formulações de "Formação do Brasil Contemporâneo". Nesse livro de 1942, Caio Prado Júnior havia sido o primeiro, segundo Novais, a mostrar a formação da colônia dentro do processo de constituição do capitalismo moderno.
Novais aprofundou essa abordagem de Caio Prado, detalhando como, no final do século 18, o sistema colonial havia se tornado uma expressiva fonte de acumulação para fortalecer a industrialização europeia e como esse sistema entrou em crise.
À Folha de S.Paulo em 2019 Pedro Puntoni, professor de história da USP e ex-aluno de Novais, disse que Caio Prado "via a colonização como um 'capítulo' da expansão do capitalismo comercial, enquanto Novais a relaciona com o processo mesmo de formação deste capitalismo e as transformações vividas no centro do sistema".
Novais teve papel determinante como professor da USP de 1961 a 1986 e depois da Unicamp, onde se aposentou em 2003.
Em 1973, Laura de Mello e Souza, autora de livros como "O Diabo e a Terra de Santa Cruz", participou de um grupo de seminários conduzido por Novais, experiência fundamental para a carreira dela.
"Aqueles seminários mudaram a minha vida. Não era só história do Brasil, líamos também historiografia francesa, antropologia etc., o que me possibilitou pensar o objeto de estudo em uma chave muito mais alargada. Fernando é um homem extremamente generoso intelectualmente, com uma capacidade de reflexão teórica incomum", disse à Folha de S.Paulo em 2024. Novais a orientou no mestrado e no doutorado.
Em 2000, ele examinou em tom crítico as celebrações dos 500 anos da chegada do português Pedro Álvares Cabral às terras do outro lado do oceano Atlântico. "Quando se fala 'Descobrimento do Brasil', o etnocentrismo está no Descobrimento, e o anacronismo, na palavra Brasil", afirmou naquele ano também ao jornal.
"O Brasil é um povo que se constituiu numa nação, que por sua vez se organizou como Estado. Em 1500, não havia nenhuma dessas três coisas. Logo, não houve Descobrimento do Brasil porque o Brasil não existia nem estava encoberto. O que naquele momento surgiram foram as bases da colonização portuguesa, a qual por sua vez é a base da nossa formação."
Com "Aproximações, Estudos de História e Historiografia", lançado em 2005, ele encerrou sua trajetória como autor. É um livro que reúne ensaios e artigos, além de entrevistas concedidas por ele.
Novais sempre dizia que escrevia pouco e gostava do que escrevia. Deixou uma obra curta, mas incontornável.