MAIS CONSUMO DE ÁGUA

Microsoft traz tecnologia antiga a data centers de IA em SP


| Tempo de leitura: 6 min
Arquivo
Data Center de IA da Microsoft
Data Center de IA da Microsoft

No mesmo mês de janeiro em que anunciou um compromisso para diminuir o uso de água em seus data centers, a Microsoft iniciou a operação de seus primeiros complexos voltados à inteligência artificial no Brasil usando uma tecnologia antiga, que gasta várias vezes mais água do que os sistemas recentes de circulação fechada.

Segundo informações divulgadas para a comunidade de Hortolândia e de Sumaré, no interior de São Paulo, onde estão as primeiras unidades no país, os data centers estão equipados com torres de evaporação. O funcionamento desses aparelhos de refrigeração envolve a perda de água para dissipar calor. Modelos mais recentes priorizam a economia hídrica, porque a água circula no complexo, sem se perder na evaporação. Mas custam mais e exigem maior consumo de energia elétrica para o resfriamento.

O gasto de água do campus na região metropolitana de Campinas, estimado em até 3,24 milhões de litros por dia, pode ficar próximo ao consumo de 15 mil pessoas, de acordo com documentos de uma prefeitura no estado americano da Virgínia sobre um complexo de data centers com características similares.

Os complexos têm, por exemplo, a mesma capacidade instalada, de acordo com a documentação, e o mesmo sistema de refrigeração com evaporação, além de número similar de torres de evaporação.

Procurada pela Folha, a empresa disse que não tem nada a compartilhar. A reportagem também tentou contato com o representante da empresa responsável pela interlocução com a comunidade em Hortolândia, que não quis comentar.

Os data centers estão no cerne de um debate global sobre a sustentabilidade da IA. Esses armazéns de computadores, onde rodam os programas por trás de ChatGPT e Claude, consomem água e energia para refrigerar os chips que funcionam sob trabalho intenso. De um lado, ativistas criticam o impacto ambiental, e, de outro, as empresas falam que os argumentos dos críticos são exagerados.

A Sabesp, responsável pela rede de água em Hortolândia e Sumaré, disse que avaliou os projetos da Microsoft e não viu risco para o abastecimento do município. As obras também obtiveram licenças ambientais de ambas as prefeituras. A região recebe água da bacia do rio Jaguari.

No material entregue à comunidade local, a Microsoft afirma que espera usar as torres de evaporação em apenas 10% do período de operação --quando as temperaturas ultrapassarem o limiar de 29,4 graus Celsius.

"Por exemplo, nossos data centers na Suécia não precisam de água durante todo o ano, enquanto nossos data centers no Arizona precisam de torres de evaporação de 40% do ano", afirma a empresa em um site com informações para a comunidade do entorno de Campinas.

No mesmo site, a empresa diz que seus projetos mais recentes usam uma tecnologia com zero consumo de água. A política do governo Lula de benefício fiscal para data centers, que ainda depende de aprovação, exclui os complexos que usam torre de evaporação, como esses da Microsoft no interior de São Paulo, sob justificativa de preservação ambiental.

Um levantamento feito pelo Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp, a pedido da reportagem, mostra que a temperatura máxima diária ultrapassou os 29,4 graus celsius em 44,48% dos dias monitorados nos últimos 30 anos.

"Com as mudanças climáticas, temos perspectiva de que esse número vá aumentar, com um maior número de dias quentes por ano. Os anos mais recentes têm apresentado dias mais quentes mesmo em anos de La Niña, quando a tendência é temperaturas mais brandas", diz o coordenador do Cepragri, Bruno Kabke Bainy.

O pesquisador aponta que as temperaturas médias na região de Campinas são mais altas do que na Virginia. Por isso, as torres de evaporação que consomem água devem ficar ativas por mais tempo.

Documentos internos da Microsoft do ano passado, obtidos pelo jornal The New York Times, mostram que a empresa esperava que sua demanda anual de água para cerca de cem data centers ao redor do mundo mais do que triplicasse nesta década, chegando a 28 bilhões de litros em 2030. Em 2020, eram 7,9 bilhões de litros e, em 2024, 10,4 bilhões de litros. O aumento é justificado por expansões ligadas à maior demanda decorrente dos sistemas de IA.

"Ao contrário da eletricidade, os sistemas de resfriamento de data centers são uma escolha de projeto. O resfriamento evaporativo é barato e eficiente, mas pode sobrecarregar o abastecimento local durante ondas de calor no verão, quando a água é mais necessária e menos disponível", escreveu Amy Luers, a responsável pela área de sustentabilidade e inovação na Microsoft, em uma revista especializada em engenharia.

No Brasil, a maioria dos data centers tem refrigeração a ar e baixo consumo de água. Uma vez que os chips adaptados para IA dissipam mais calor para processar a enorme quantidade de dados necessária na tecnologia, a tendência é de que as novas unidades passem a usar líquido na refrigeração, seja em sistemas fechados ou com evaporação.

Segundo estudo do setor, a pegada hídrica dos complexos de processamento de dados responde por 0,003% do consumo brasileiro --nos EUA, onde há a maior concentração de data centers no mundo, essa fração é de 0,3%. A pegada hídrica é a parcela da água doce usada na produção de um bem em comparação com o total usado na cadeia produtiva.

No Brasil, a big tech é beneficiada por programas locais para redução da cobrança de IPTU e do ISS municipal visando a atração de empresas.

Como contrapartida da instalação dos data centers, a Microsoft se comprometeu a duplicar e recapear ruas, além de construir uma via marginal, de acordo com a Prefeitura de Hortolândia, que recebeu duas das três unidades planejadas.

A Prefeitura de Sumaré não respondeu às tentativas de contato da reportagem. O diário oficial do município mostra que a big tech doou um terreno de 11 mil metros quadrados ao município e investiu em obras na estrada municipal onde está situado o data center da companhia.

A companhia fundada por Bill Gates também fechou uma parceria com o Instituto Federal de São Paulo para oferecer cursos ligados à operação de complexos de processamento de dados.

A expectativa é de que cada unidade tenha entre 40 e 50 funcionários contratados diretamente. As obras dos complexos, no pico de demanda, mobilizaram 3.300 trabalhadores.

O pedido de ligação da Microsoft à linha de transmissão, feito pela ISA Energia ao Ministério de Minas e Energia, mostra que, em termos de eletricidade, a big tech tem permissão para expandir os complexos no interior de São Paulo além dos 180 MW atuais --é um consumo de eletricidade equivalente ao de 1,8 milhão de brasileiros. Essa expansão, como ocorre nos EUA agora, estaria ligada a um gasto maior de recursos.

O ONS (Operador Nacional do Sistema) disse que a informação sobre a demanda máxima das locações está sob sigilo comercial.

OS DATA CENTERS

Embora a Microsoft não divulgue onde mantém seus data centers ou detalhes dos projetos, a reportagem conseguiu localizá-los, com auxílio de imagens de satélite, em Hortolândia e Sumaré, no interior de São Paulo. Cada complexo tem capacidade instalada de 60 MW (consumo equivalente ao de 600 mil brasileiros), de acordo com informações divulgadas no site do escritório responsável pelo projeto, Pgmak.

Cada um deles está entre os maiores data centers da América Latina. Somados, os complexos têm uma capacidade similar ao data center situado em Leesburg, no interior da Virgínia, que foi autorizado a expandir suas capacidades mediante um investimento no encanamento do município.

Comentários

Comentários