Chocolate não é indicado para bebês de até 2 anos
Limitar o consumo de chocolate por crianças na Páscoa é uma das recomendações mais difíceis de cumprir para os pais. Para passar pela data sem frustar os pequenos, especialistas sugerem investir em produtos com porcentagens mais altas de cacau, na moderação da quantidade e em receitas caseiras, como as que misturam cacau 100% e vegetais.
Para bebês com até dois anos de idade, aliás, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o Ministério da Saúde e a OMS (Organização Mundial de Saúde) são unânimes: nada de açúcar.
"Isso inclui o chocolate. Nessa fase, o paladar está em formação e as papilas gustativas são muito sensíveis. Introduzir o açúcar precocemente aumenta o risco de recusa de alimentos in natura (frutas e legumes) e predispõe a doenças crônicas no futuro", diz a nutricionista Daniela Bicalho, consultora da Associação Brasileira de Nutrição (Asbran).
Bicalho, que é doutora em nutrição e Saúde Pública pela USP (Universidade de São Paulo), afirma que, após essa idade, "o chocolate pode entrar na alimentação, mas como um item eventual, e não como base da dieta."
A nutricionista materno-infantil Jamylle Cerqueira Freitas afirma que, além da gordura e do açúcar, o chocolate contém teobromina e cafeína, estimulantes causadores de irritabilidade e prejuízo do sono.
Na Páscoa, para crianças de até cinco anos, o ideal é dar um quadradinho de chocolate ao dia (algo entre 10 gramas e 20 gramas). Dos 6 aos 10 anos, até dois quadradinhos ou um bombom (15 gramas a 25 gramas).
"A ideia não é proibir, mas ensinar a criança a saborear devagar, entendendo que é um alimento para ser consumido esporadicamente, em vez de comer o ovo de Páscoa inteiro de uma vez", diz Bicalho.
Mesmo a versão sem açúcar não é indicada para bebês, pois costuma ter alto teor de gordura e adoçante, que também afeta o paladar na infância.
"Ainda que você se depare com opções como 'baby', 'infantil', 'veganos', 'zero açúcar' ou 'sem lactose', não são recomendados. Não existe ovo de Páscoa seguro ou recomendado para menores de dois anos. Uma dica é fazer ovinhos de banana com cacau 100%", aponta Freitas.
Para o médico nutrólogo Andrea Bottoni, coordenador da Equipe de Nutrologia do Hospital IGESP, o ideal é segurar o chocolate e oferecer só após os três anos ou o mais tarde possível. "O consumo excessivo dos chocolates, além do risco de cáries, pode conduzir à formação de hábitos alimentares inadequados e ao sobrepeso ou até obesidade infantil", alerta o médico.
O doce em altas doses também pode causar hiperatividade, náuseas, vômitos, tonturas e diarreia.
A nutricionista Thaisa Navolar, coordenadora da área materno-infantil do Departamento de Saúde e Nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), reforça que os adultos devem investir em opções escuras, sem gordura hidrogenada, só com a casca, evitando chocolate branco, e reforçando o ritual da data e não a guloseima.
"Um ovo pequeno com outras lembrancinhas, uma cestinha com frutas ou frutas secas, bem divertida, bem bonita e muito saborosa, são opções não são só para crianças", sugere Navolar.
Para bebês de até dois anos, Navolar propõe mousse feita com abacate ou tâmaras e cacau 100%, sem adição de açúcar.
Para as maiores, a dica é olhar bem a lista de ingredientes e selos de alto teor nas embalagens dos ovos, lembrando que os itens iniciais da descrição estão em maior quantidade.
"Há opções feitas com leite vegetal ou sem leite, chocolates veganos, que utilizam outros tipos de açúcar, um demerara, por exemplo. Seriam um pouco mais naturais", aponta a coordenadora.
Especializada em transtornos alimentares pela USP, a nutricionista Clariana Colaço diz que o chocolate, com consciência e equilíbrio, "pode e deve fazer parte de uma alimentação saudável", sobretudo em momentos sociais, com a família ou festas.
"O problema maior costuma ser o consumo concentrado desse chocolate e em dias festivos, o que pode sobrecarregar o corpo. Para uma criança pequena, uma pequena porção já é o suficiente porque tem altíssima densidade calórica", reforça Colaço.
Em situação de sobrepeso e obesidade, o doce também pode ser consumido, mas de forma ainda mais moderada. Em nenhum caso, o chocolate deve substituir a rotina de alimentação com vegetais e proteínas, o consumo de água e a prática de exercícios.
Colaço sugere presentear a criança na Páscoa também com alimentos caseiros e sem adição de açúcar, como bolinhos naturais. "Tâmara é super indicada [para receitas], é bem docinha, nutritiva e tem até a coloração do chocolate. Tudo isso vai oferecer para essa criança um momento gostoso, nutritivo, prazeroso e muito festivo", diz Colaço.
A chef e empresária Juliana Cristina dos Santos, 35, mãe da Bianca, 4, costuma preparar os doces que a filha consome. As receitas criativas são feitas com menos açúcar e cacau a 70% ou 80%.
"O primeiro ovo de Páscoa da Bianca foi dado com 8 meses e eu que fiz. Era um ovo de colher feito com uma 'casca' de biscoito de banana que foi assada em formato de ovo e recheado com um brigadeiro saudável", conta Santos.
Segundo a chef, o mercado para quem tem restrições alimentares cresceu e tem muitas opções. "Há aditivos para a textura ficar aproximada ao chocolate comercial, com o sabor do chocolate comercial e com a cara do chocolate comercial. E vegetais, frutas e oleaginosas também podem proporcionar base para as receitas, como o inhame, banana e castanha de caju, que usamos em brownies orgânicos, fondue, brigadeiro ou mousses", conta Santos.