MAS FILAS PERSISTEM

SUS Paulista reforça caixa de hospitais e eleva atendimentos

Por Cláudia Collucci | da Folhapress
| Tempo de leitura: 6 min

Uma das principais apostas do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) na saúde, a chamada Tabela SUS Paulista fortaleceu o caixa dos hospitais e é associada ao aumento do número de procedimentos. O modelo, porém, enfrenta críticas por não reduzir filas de espera nem atacar problemas estruturais da área.

Criado em 2024, o programa já injetou quase R$ 9 bilhões na rede conveniada ao SUS e busca reduzir o descompasso entre os custos reais dos procedimentos e os valores pagos pela União. Além do estado de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Espírito Santo adotaram estratégias semelhantes.

Em 2025, por exemplo, a tabela nacional pagava R$ 71,15 por uma biópsia de fígado por punção. A complementação paulista acrescentou R$ 142,30, elevando o valor total para R$ 213,25 -66,7% a mais.

A medida beneficia especialmente instituições filantrópicas, como as Santas Casas, responsáveis por cerca de metade dos atendimentos hospitalares no estado e historicamente pressionadas por custos crescentes, defasagem da tabela federal e problemas de gestão.

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, a ausência de atualização dos valores pagos pelo Ministério da Saúde compromete a capacidade de custeio dos serviços e transfere a estados e municípios o ônus de financiar a produção que excede os limites federais.

Gestores de hospitais públicos e filantrópicos afirmam que o impacto da tabela paulista se traduz em aumento de produção. Em 2025, São Paulo registrou 1,25 milhão de cirurgias eletivas e deve fechar 2026 com cerca de 1,4 milhão, quase o dobro de gestões anteriores.

O secretário estadual da Saúde, Eleuses Paiva, diz que o maior impacto ocorreu em áreas de maior complexidade: entre 2022 e 2025, essas internações passaram de 224.746 para 306.897. No mesmo período, o total de hospitalizações subiu de 2,5 milhões para 2,9 milhões, o equivalente à abertura de mais de 8.500 leitos, segundo o secretário.

Ele também destaca a alta de atendimentos ambulatoriais, sobretudo na oncologia, com aumento acima de 25% nas sessões de quimioterapia e radioterapia --cerca de 233 mil a mais. "A importância da Tabela SUS Paulista não é só no financiamento da saúde, mas principalmente na vida das pessoas. Ampliamos com qualidade em todas as regiões do estado", afirma Paiva.

Em 2025, o investimento estadual em saúde chegou a R$ 31,55 bilhões (14,16% do orçamento), ante R$ 23,96 bilhões (12,85%) em 2022. Ainda assim, a secretaria sustenta que o subfinanciamento federal fragiliza a rede e compromete o planejamento regional.

Na oncologia, a pasta aponta uma assimetria ainda maior: entre 2023 e 2025, o aporte federal somou cerca de R$ 472 milhões, valor inferior ao déficit mensal estimado da rede estadual de R$ 100 milhões -mais de R$ 1,2 bilhão ao ano em procedimentos não cobertos pela União. Somados os municípios, o desequilíbrio anual chegaria a R$ 2,5 bilhões, segundo a secretaria.

O Ministério da Saúde contesta essa leitura. Em nota, afirma que o orçamento federal para a área é 77% maior do que em 2022, alcançando R$ 247,5 bilhões em 2026, o maior da história do SUS. A pasta cita iniciativas como o programa Agora Tem Especialistas, que teria modernizado a forma de financiamento da atenção especializada e superado o modelo da antiga tabela SUS.

Segundo o ministério, não corresponde à verdade atribuir os ganhos de produção principalmente a ações locais. No caso das cirurgias eletivas, diz, São Paulo teve crescimento de 32% entre 2022 e 2025, abaixo da média nacional de 42%. Estados como Paraíba (79%), Ceará (64%), Minas Gerais (63,8%) e Rio de Janeiro (57%) tiveram avanços maiores.

A pasta também afirma que 2025 registrou recorde de cirurgias eletivas, com 14,8 milhões de procedimentos (42% acima de 2022), e de internações hospitalares, com aumento de 33,6%.

Entre pesquisadores, também há dúvidas sobre a associação direta entre a tabela paulista e o aumento da produção. Segundo a economista Mariana Alves, do Instituto Walter Leser, parte da expansão decorre de políticas federais adotadas após a flexibilização do teto de gastos, que ampliou os recursos para o SUS.

"A ampliação da oferta em São Paulo está mais relacionada ao aumento de recursos federais, especialmente na oncologia e nas políticas de redução de filas, do que à tabela paulista", afirma. Ela lembra que as redes estadual e municipal recebem recursos federais também por outras formas de cofinanciamento, além da tabela SUS nacional.

Dados do governo estadual indicam que, em 2025, o valor total da complementação da Tabela SUS Paulista com recursos estaduais foi de R$ 4,72 bilhões e o valor correspondente ao aporte do governo federal foi de R$ 7,18 bilhões, totalizando cerca de R$ 11,9 bilhões. Ou seja, o aporte do governo federal foi de cerca de 61% do total realizado.

Para Aparecida Pimenta, também do Instituto Walter Leser e ex-presidente do Conasems-SP, Conselho de Secretários Municipais da Saúde, há um descompasso entre o discurso do governo paulista e a realidade. "O que vemos são pessoas em filas, falta de medicamentos especializados e dificuldades de acesso", diz.

A Secretaria de Estado da Saúde reconhece que o sistema de saúde é fragmentado e afirma que não existe uma fila de espera única, mas várias -entre elas a estadual. Questionada sobre o tamanho dessa fila e o impacto da tabela paulista sobre ela, a pasta não respondeu.

Para Edson Rogatti, presidente da confederação das Santas Casas, a tabela paulista foi decisiva para evitar o colapso financeiro de hospitais filantrópicos. "Foi a salvação", afirma. Segundo ele, o modelo estimulou a abertura de leitos e o aumento da produção. "Quanto mais você produz, mais recebe."

O dirigente, porém, aponta um entrave: o teto de repasses federais. Como muitas instituições já produzem acima desse limite sem remuneração, ele defende a ampliação dele para sustentar a expansão da oferta.

O Hospital das Clínicas de São Paulo também relata impactos positivos após a tabela paulista: em 2025, as cirurgias cresceram 30% em relação a 2023, passando de 37.300 para 48.592. Houve ainda aumento de 17% nas internações, 14% nos transplantes, 11% nos leitos operacionais e 24% nos exames laboratoriais.

"Operávamos em cenário de subfinanciamento crônico. A tabela permitiu ampliar a produção com receita capaz de cobrir custos e viabilizar reinvestimentos", diz o superintendente Antonio José Rodrigues Pereira.

Especialistas em gestão de serviços, no entanto, avaliam que a política tem caráter paliativo: ameniza a crise financeira dos hospitais, mas não resolve problemas estruturais do SUS, como o subfinanciamento, a fragmentação da rede e a centralidade excessiva no hospital em detrimento da atenção primária.

Para Marcelo Carnielo, da Planisa, a multiplicação desse modelo cria distorções regionais, com valores diferentes para um mesmo procedimento. Ele critica também a falta de transparência na definição dos valores e a dificuldade de separar o impacto dos recursos estaduais e federais.

Outro problema seria o reforço de um modelo de remuneração baseado no volume de procedimentos, sem considerar qualidade ou desfechos clínicos. "Quanto mais se faz, mais se recebe, independentemente do resultado."

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