O brutal assassinato do idoso Antonio Fernandes Bezerra, de 85 anos, em Guzolândia, no último sábado 21, ganhou novos contornos. Em entrevista à Folha da Região, a delegada Caroline Baltes. disse que a autora do crime é filha adotiva da vítima, Gabriela Pontes Bezerra, de 38 anos, que agiu com a companheira Isabela de Oliveira Toledo, de 26 anos. Ambas cumprem pena na penitenciária de Tremembé e estavam de saída temporária.
De acordo com a delegada, Gabriela utilizou seu direito constitucional de permanecer em silêncio durante o flagrante, enquanto a investigação avança com base em provas técnicas e testemunhais.
“Ela exerceu o direito ao silêncio, o que é garantido pela Constituição, mas os elementos que já temos apontam de forma consistente para a autoria”, afirmou.
Filha adotiva no centro do caso
Um dos pontos que mais chocam, segundo a delegada, é o fato de Gabriela ser filha adotiva da vítima - criada por ele desde a infância. “Ela é filha adotiva, cresceu com ele desde criança. Isso torna o caso ainda mais sensível e grave. Estamos diante de um parricídio, um dos crimes que mais impactam socialmente”, destacou.
Familiares ouvidos pela polícia informalmente relataram que Antonio ajudava financeiramente a filha, inclusive diante de problemas relacionados ao uso de drogas.
Crime com sinais de extrema violência
A investigação aponta que o idoso foi morto com cerca de 30 golpes de faca, sendo aproximadamente 10 na região do rosto. A dinâmica do crime, segundo a delegada, indica sofrimento prolongado da vítima.
“As lesões foram progressivas. Não foi um ataque único. Há indícios de que ele ainda estava vivo durante parte das agressões”, explicou.
Vestígios no local indicam que o crime ocorreu em diferentes pontos da residência, com manchas de sangue na cama, no sofá e em outros ambientes.
Premeditação e possível motivação financeira
Outro ponto revelado na entrevista é a existência de indícios claros de premeditação. “Temos testemunha que ouviu, no dia anterior, a intenção de matar o pai. Isso reforça que não foi um ato impulsivo”, disse a delegada.
A Polícia Civil também investiga possível motivação financeira. Há suspeitas de que valores da vítima tenham sido subtraídos, o que pode alterar a tipificação do crime para latrocínio.
Companheira tem histórico de crime semelhante
A participação de Isabela de Oliveira Toledo também chama atenção. Ela já havia sido condenada anteriormente por matar o próprio pai, em um crime ocorrido em Ubatuba, no ano de 2018.
Para a delegada, esse histórico pode ter influenciado diretamente a dinâmica do crime atual. Uma vez que Isabela poderia encorajar a ação criminosa. “Ainda é uma análise preliminar, mas é possível que uma tenha influenciado a outra. Ambas já demonstravam histórico de conflitos familiares graves”, pontuou. Inclusive, Gabriela está presa por ter cometido o crime de lesão corportal e extorsão contra o pai adotivo no passado.
Frieza após o crime 'impressiona'
Um dos relatos mais impactantes da investigação diz respeito ao comportamento das autoras após o crime. Minutos depois do assassinato, as duas foram até um bar próximo à residência. “Elas não demonstravam qualquer reação. Isso chamou muita atenção das testemunhas e também da equipe policial”, afirmou a delegada.
Na delegacia, segundo ela, a postura também foi de frieza. Passaram boa parte do tempo na cela cochilando e pouco respondia as perguntas. “Em nenhum momento houve demonstração de arrependimento.”
Carta levanta contradições
Durante a perícia, uma carta escrita por Gabriela foi encontrada aberta sobre uma mesa na casa. No texto, datado de 2024, ela demonstrava carinho pelo pai.
Na carta, Gabriela perguntava como o pai estava e dizia estar com saudades de acordar e pedir benção ao pai, saudade do leite com chocolate e o pão com manteiga que tomava diariamente.
Gabriela ainda chegou a pedir para que o pai cuidasse da saúde, informando que teria pego uma pena de cinco anos e iria demorar para voltar. Mas afirmava que ainda tinha esperança de ver o pai e viver feliz, pois de acordo com ela iria mudar de vida e não queria mais retornar a prisão.
Na carta, ela parabeniza o pai pelo Dia dos Pais, dizendo que ele seria o melhor pai do mundo e avô também. Entre outras mensagens de carinho e preocupação.
“É algo que nos intriga muito, porque mostra afeto, o que contrasta com a violência do crime. Ainda estamos apurando o contexto dessa carta”, disse.
Investigação segue em andamento
A Polícia Civil segue reunindo provas, ouvindo testemunhas e aguardando laudos periciais, incluindo exame necroscópico e análises financeiras.
“É um caso complexo, que exige cautela, mas estamos empenhados em esclarecer todos os detalhes e responsabilizar os envolvidos”, finalizou a delegada.
O crime segue gerando forte comoção em Guzolândia, cidade com 4 mil habitantes, onde a violência do caso e os laços familiares envolvidos ampliam o impacto entre os moradores.
Retorno ao sistema prisional
As mulheres, após audiência de custódia na manhã de domingo, 22, retornaram para a penitenciária de origem e devem aguardar o andamento do processo.