PALEONTOLOGIA

Fósseis de dinossauros achados em obra no MA são de nova espécie

Por Ana Bottallo | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação/Brado
Fósseis de dinossauros foram encontrados em Davinópolis
Fósseis de dinossauros foram encontrados em Davinópolis

Os ossos encontrados quase cinco anos atrás em uma obra de uma ferrovia em Davinópolis, no Maranhão, são de uma nova espécie de dinossauro para o território brasileiro. O achado foi descrito em um artigo que saiu último dia 12 no periódico Journal of Systematic Paleontology.

Batizado de Dasosaurus tocantinensis, o animal viveu há cerca de 120 milhões de anos e atingia 20 metros de comprimento. Ele era um titanossauriforme, grupo de saurópodes (como são conhecidos os dinossauros pescoçudos quadrúpedes) do qual também faziam parte os titanossauros (maiores dinossauros já encontrados).

Foram encontrados ossos da perna, entre os quais um fêmur de aproximadamente 1,5 metro, do braço, da bacia, além de partes do pé e de costelas.

Devido às suas características, os autores do estudo sugerem que a linhagem do qual o táxon faz parte se originou na Europa, há cerca de 130 milhões de anos, junto com outro dinossauro pescoçudo, o Garumbatitan morellensis, e posterior dispersão pelo norte da África até o Nordeste brasileiro. Essa relação filogenética foi observada após uma análise comparativa com outros titanossauriformes de idade similar.

"Este é o primeiro titanossauriforme não titanossauro [grupo que inclui a maioria dos saurópodes encontrados no país] do Brasil. Tanto que, a princípio, achávamos que fosse uma outra espécie do mesmo gênero, mas como são intervalos temporais e locais geográficos diferentes, classificamos esse animal em um novo gênero", afirmou Bruno Navarro, pesquisador do Museu de Zoologia da USP (Universidade de São Paulo) e um dos autores do estudo.

Tudo começou em outubro de 2021. Funcionários da Brado, empresa responsável pelo terreno onde estava sendo construída a ferrovia, encontraram os ossos durante a terraplanagem da área. Eles disseram acreditar que fossem ossos de preguiças-gigantes.

A legislação estabelece que a identificação de achados pré-históricos ou vestígios arqueológicos deve ser comunicada aos órgãos competentes. Com isso, foi acionada uma equipe de arqueologia que procurou Elver Mayer, à época professor da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará) --hoje, leciona na Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco).

"Chegando lá, vimos claramente que não eram ossos de preguiça, eram muito mais antigos. Conversei com o Manuel [Medeiros, professor da Universidade Federal do Maranhão, a UFMA] e batemos o martelo que não era quaternário [período que se encerrou com a última Era Glacial, há 11 mil anos], era provavelmente Formação Itapecuru [cerca de 115 milhões de anos]", afirma o docente, primeiro autor do estudo.

A partir daí, Mayer liderou uma equipe para remover os fósseis do local. O trabalho consumiu cerca de 15 dias, e não resultou em atrasos na execução da obra, segundo o biólogo Leonardo Kerber, pesquisador visitante da Universidade de Tubinga (Alemanha) e que, à época, estava no Museu Paraense Emílio Goeldi (Belém) e participou das escavações.

Os materiais foram então levados pela equipe do laboratório de paleontologia da Unifesspa, em São Félix do Xingu, no Pará, onde foram preparados e estudados. "É um achado impressionante. Eu acho que, até hoje, foi uma das escavações mais legais de que já participei", lembra Kerber.

Em julho de 2025, os materiais voltaram ao Maranhão, que conta agora com três espécies de dinossauros pescoçudos. "Mas, diferentemente das outras ocorrências, que são basicamente encontradas em falésias litorâneas ou barrancos de rios, a profundidade [nas rochas] onde o Dasosaurus foi escavado revela uma nova localidade onde a qualquer momento podem aparecer novos fósseis", diz Medeiros.

"O Maranhão é um dos estados com uma biota fóssil muito diversa, mas são materiais fragmentados. Em toda a região centro-norte do estado nós temos restos fósseis do Cretáceo, principalmente de carnívoros, mas é um material muito retrabalhado", explica o professor da UFMA.

"As localidades fósseis do Maranhão, por serem pré-amazônia, com uma composição vegetal de floresta, cerrado e mata dos cocais, estão densamente vegetadas, dificultando o encontro", diz. O nome de batismo da nova espécie faz referência a isso: Dasosaurus significa "réptil da floresta", devido à cobertura vegetal, mas também remete ao nome do estado Maranhão, que teria sua origem na palavra "emaranhado".

Segundo os cientistas, a análise histológica (tecido) dos ossos indica que a espécie possui uma remodelação óssea e demais características de amadurecimento celular que não estão presentes em titanossauros mais recentes. "Ele representa uma linhagem basal de titanossauriformes, mas também preserva algumas características compartilhadas por grupos mais derivados, como os titanossauros, que dominaram a América do Sul alguns poucos milhões de anos depois", afirma Navarro.

"A melhor explicação para como ele veio parar aqui é que a linhagem surgiu na Europa, dispersou-se para a América do Sul, passando pelo norte da África, entre 135 e 115 milhões de anos, um intervalo de tempo bem grande. Por isso, é um dinossauro importante que vai ajudar a preencher essas lacunas", diz o pesquisador.

O fóssil está atualmente depositado na coleção do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão, em São Luís, disponível para visitação.

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