Irã cruzou todas linhas vermelhas rumo à bomba atômica, diz ONU à Folha de S.Paulo
A comunidade internacional, Estados Unidos à frente, está assistindo impassível ao Irã cruzar as linhas vermelhas estabelecidas por seus adversários rumo à fabricação de uma bomba atômica.
Esta é a avaliação de Rafael Grossi, o diretor-geral da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). Ele é responsável por mediar as negociações que visam a evitar que o regime dos aiatolás adquira armas nucleares.
"Não é porque você não olha para o problema que ele desaparece. A questão segue, e o Irã tem enriquecido urânio em níveis altos", afirma o argentino em conversa com a Folha nesta segunda-feira (15), por Zoom, da sede da AIEA em Viena.
"A situação com o Irã é muito frustrante. Há uma redução da visibilidade [do problema] que começou em 2021. Eu tomei medidas para mitigá-la, mas foram apenas parcialmente bem-sucedidas", diz ele. "O nível de cooperação hoje é mínimo."
Há dois anos e meio, o acesso de inspetores da AIEA dentro do escopo do acordo nuclear de 2015 está virtualmente cortado, com exceções pontuais. Aquele arranjo havia sido capitaneado pelos EUA sob o governo democrata de Barack Obama, mas foi rompido por seu sucessor republicano, Donald Trump, em 2018.
Grosso modo, o acordo previa o relaxamento de sanções econômicas contra Teerã em troca do compromisso, monitorado pela AIEA, de que o programa nuclear do país teria apenas fins pacíficos. Trump via um embuste nos termos.
A volta dos democratas ao poder com Joe Biden em 2021 foi acompanhada pela promessa da retomada de negociações. "Não aconteceu nada", afirma Grossi, e o Irã voltou a operar seu programa de forma acelerada e sem vigilância. "É notável como temos capacidade de nos acostumarmos [à situação]."
Ele aponta o dedo para a comunidade internacional como um todo. "Há uma falta de foco nela devido aos processos eleitorais [como o provável tira-teima entre Biden e Trump em novembro], à guerra na Faixa de Gaza, à Guerra da Ucrânia. A agenda está lotada."
"Todas as linhas vermelhas de que eles falavam, de que [o premiê israelense Binyamin] Netanyahu falava, foram ultrapassadas completamente", diz, fazendo referência às ameaças feitas por Israel de atacar o Irã caso o país quisesse obter armas nucleares.
Israel é 1 das 9 potências nucleares do mundo - e a única que não o admite. Seu arsenal é estimado por entidades como a Federação dos Cientistas Americanos em 90 ogivas. Teerã prega o fim do Estado judeu, assim como o aliado Hamas, ora em guerra com os israelenses, e seus parceiros como o Hezbollah libanês e os houthis do Iêmen.
Até por sua posição de mediador, Grossi mede algumas palavras. Questionado sobre o quão perto da bomba está o Irã, devolveu a bola para o vice-presidente do país, Mohammad Eslami, que também gerencia o programa nuclear local. No domingo (14), Eslami havia afirmado no Azerbaijão que seu país não deseja ter o artefato, mas pode construí-lo a qualquer momento.
"É muito preocupante. Eu não tenho informação de que há um programa bélico, não posso mentir. Mas certamente há uma situação de latência. É uma confissão [do iraniano]", sustenta Grossi.
No fim de dezembro, relatório da AIEA apontou que o Irã aumentou em 27% o ritmo de enriquecimento de urânio no país. Teerã tem agora 4.745 kg do produto com mais de 20% de enriquecimento, o suficiente para alimentar reatores de propulsão naval e algumas aplicações militares. O volume é 15 vezes maior do que o estabelecido no acordo de 2015.
A agência estimou em ao menos 128 kg a quantidade da substância com 60% de enriquecimento, um índice elevado. Esse material poderia ser usado em talvez três bombas atômicas menos potentes - a taxa usual nas armas russas e americanas é ao menos de 90%.
O enriquecimento é um processo no qual o gás hexafluoreto de urânio, obtido a partir de uma pasta do minério chamada "yellow cake" (bolo amarelo, em razão de sua cor), é girado em poderosas centrífugas para separar seus átomos mais leves, usados na fissão nuclear - seja controlada em reatores ou libertada em bombas.
Grossi diz ainda ter esperança de engajar os iranianos em negociações, embora admita que seus encontros com o presidente, Ebrahim Raisi, e outras autoridades "lamentavelmente não frutificaram soluções". "É minha obrigação, quero renovar o diálogo, sempre abri uma porta a mais."
Situação na Ucrânia continua tensa
O argentino também segue preocupado com a situação na usina ucraniana de Zaporíjia, a maior da Europa, ocupada pelos russos desde o início da invasão de 2022. "É uma situação sem paralelo em termos de riscos", declara.
Ele já esteve nove vezes na Ucrânia e três, na usina, onde a AIEA tem um time de até cinco técnicos supervisionando as condições. "Nossa presença está estabilizada", afirma. O mais recente relatório se queixava de que Moscou não dava acesso completo a todos os seis reatores, cinco dos quais estão desligados.
Questionado sobre qual o momento de maior tensão da crise, que pegou o mundo de surpresa e reacendeu temores do acidente de 1986 em Tchernóbil, não muito distante dali na Ucrânia soviética, Grossi diz que "todos".
"Houve três ataques diretos à usina e sete blecautes, que são tão perigosos quanto, porque a falta de alimentação pode afetar o sistema de resfriamento do reator e causar um derretimento de seu núcleo", diz, descrevendo o pior pesadelo de quem trabalha com energia nuclear.