Estava pensando num doce que tivesse vínculos com a infância, por conta do Dia da Criança, a ser comemorado na próxima quinta-feira, aqui no Brasil. A data varia segundo o país, mas é certo que quase todos os povos reservam um dia para lembrar que “a Humanidade deve à criança o melhor de seus esforços”, conforme consta da Declaração dos Direitos da Criança firmada pela UNICEF. A frase é bela e verdadeira; mas na prática a teoria é bem outra, sabemos todos nós que não nos alienamos neste mundo vasto e imperfeito, tantas vezes cruel. Se os dez princípios da Declaração fossem integralmente cumpridos por todos, é bem provável que não precisássemos de presídios no planeta.
E por aí, refletindo de uma ponta a outra, pois a criança que fomos não nos abandona nunca, me veio à mente a palavra “Quindim”. Ultimamente tenho claro para mim mesma que desde muito cedo, ainda quando não era alfabetizada e minha mãe lia para mim a história da Branca de Neve, a literatura me salvou de muitos dos perigos do mundo.
Quindim com maiúscula, em um primeiro momento, fique claro. Este que de repente me apareceu na memória, personagem do Sítio do Pica-Pau Amarelo, criação imortal do gênio Monteiro Lobato. Se você o leu, deverá se lembrar que Quindim é o rinoceronte adotado pelos habitantes do sítio, após fugir de um circo onde sofria maus tratos. Fez sua primeira aparição no livro As Reinações de Narizinho, onde ao deflagar pânico entre a população, tornou imperiosa a criação do ‘Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte’. Que irônico era o escritor! E quantas manifestações política, econômica, sociológica, homofóbica, xenófoba alimentariam sua verve literária no Brasil de hoje!
Descoberto nas matas próximas pelos besouros da Emília - que logo tratou de apossar-se dele, trocando-o, depois, com Pedrinho, por um carrinho - Quindim conseguiu tornar-se logo dono de si próprio, conquistando não só a sua liberdade como a amizade dos meninos e dos adultos daquele mundo de fantasia. Afugentou detetives que seguiam suas pegadas, e se viu livre do dono do circo, um tal Fritz, graças às artimanhas de Emília e seu pó-de-pirlimpimpim. A partir de então, virou guarda da casa; livrou os moradores do sítio de muitos perigos; chifrou o Lobo Mau que tentava invadir o museu da Emília; protegeu a cerca que separava o sítio das Terras Novas, preparadas para receber todos os personagens dos Contos de Fadas. Em Emília no País da Gramática, revelou-se grande conhecedor da língua portuguesa, guiando os meninos pela Terra das Letras. Em Geografia de Dona Benta, atuou como a ‘tripulação’ do brigue que sai em uma expedição ao redor do mundo, preenchendo o papel que seria dos marinheiros. Até chegou a salvar a turma do ataque de um ciclone, causando depois extremo espanto ao desembarcar em Nova York, onde precisou andar com focinheira e bola na ponta do chifre, por precaução. No metafórico O Poço do Visconde, aproveitou-se do fato de ser natural da africana Uganda, onde o inglês era a segunda lingua, para espionar o americano Mister Kalamazoo, contratado dos Estados Unidos para abrir o primeiro poço de petróleo no Brasil, justo nas terras de Dona Benta. Suprema profecia: o livro é anterior à descoberta do petróleo no país. Ave Monteiro Lobato, que preencheu meus dias de menina e me fez sonhar outros mundos e possibilidades!
Quindim, pois, no segundo instante e por osmose, foi o doce que escolhi para este domingo. É delicado, tem cor de vida, leva poucos ingredientes, lembra docinho de festa infantil. E revela no nome nossa miscigenação cultural. Pois se sua etimologia o remete ao quimbundo, um dos muitos idiomas africanos, a receita matriz está em Portugal, pois à época do descobrimento já existia em Leiria uma iguaria muito parecida, e até hoje consumida, o brisa-de-liz (Liz é nome de um rio que corta a região), onde não entra coco e sim amêndoas moídas. Daí podermos concluir que o quindim é doce de origem portuguesa, com nome africano, mas modificado no Brasil nas cozinhas das casas-grandes. De kendé, que tanto significa meiguice e encanto, como o pudim que se fazia em África com mandioca ou milho, ao diminutivo aportuguesado quendinho, depois quendim, por fim quindim, um doce bem brasileiro.
É muito fácil de fazer. Conte uma gema para cada quindim. Nossa receita é para seis quindins. Guarde as claras em recipiente plástico ou em vidro e congele para utilizar em outra receita- um pudim de claras, por exemplo, que logo estaremos mostrando por aqui.
Nem batedeira você vai precisar usar. Apoie uma peneira na borda da tigela e passe por ela as gemas já separadas das claras. A película que as envolve e provoca o gosto acentuado, será assim retirada do doce. Misture então o açúcar e o coco ralado. Se o coco for seco, industrializado, hidrate-o por vinte minutos, deixando coberto por uma xícara de água. Unte forminhas de empada com bastante manteiga e polvilhe com açúcar, de forma que este cubra bem a superfície amanteigada. Derrame a mistura de ovos, açúcar e coco com cuidado para não encher até a borda. Embora não cresçam, os quindins serão assados em banho-maria e não devem receber respingos de água. Coloque então as forminhas na assadeira, despeje água com cuidado até à metade da forma, leve ao forno já aquecido a 160º por meia hora, ou até que a superfície esteja acastanhada. Desenforme frio, com a ajuda da ponta de uma faca, se necessário. Sirva em fominhas ou prato de sobremesa.