Queijadinhas


| Tempo de leitura: 5 min
As louças e utensílios usados na produção desta receita foram fornecidas pela Espaço Casa
As louças e utensílios usados na produção desta receita foram fornecidas pela Espaço Casa
Camilo Castelo Branco, o grande romancista português que renovou o idioma com seu estilo preciso e claro, no livro Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado, cuja primeira edição é de 1863, diz a certa altura que “Basílio levava na algibeira do albornoz um embrulho de queijadinha da Sapa.” A que Sapa estava se referindo? Com certeza a uma doceria que permanece funcionando a poucos metros do terminal ferroviário e rodoviário da Vila de Sintra, em Portugal. O prédio é discreto, quase passa despercebido, mas é de grande tradição. Quase todo turista que vai a essa antiga cidade ali dá uma parada a fim de saborear a queijadinha e levar para viagem uma embalagem com seis. Sapa não é feminino de sapo e nada tem a ver com batráquios. É, isso sim, um nome de família. Mas a família Sapa divide com outra, a Periquita, a fama de fabricar as melhores queijadinhas de Sintra. 
 
Esta cidade, que os locais continuam a chamar com muito orgulho de Vila apesar dos mais de 300 mil habitantes, fica bem próxima de Lisboa e de Cascais. A Unesco a listou há muito tempo como patrimônio da Humanidade, pois ali se encontram testemunhos de praticamente todas as épocas da história portuguesa e, o que é importante destacar, constitui um espaço físico e cultural que tem permanecido intacto no conjunto de palácios e parques, casas senhoriais com seus jardins e pomares, extensas muralhas que coroam os cumes mais altos da serra onde a cidade se ergueu. E nos conventos entre penhascos, bosques, fontes, igrejas, capelas, ermidas, lugares de arte e de fé. Resumindo a ópera, ali estamos diante de uma unidade cultural intacta, onde vestígios arqueológicos apontam para ocupações algumas vezes milenares.
 
As queijinhas de Sintra, sejam as da Sapa, sejam as da Periquita, integram a lista dos dez doces portugueses mais apreciados pelos turistas. Depois delas vêm o pastel de Belém (empadinha recheada com creme de confeiteiro salpicado de canela); os ovos moles do Aveiro (com seu selo de denominação de origem, ou seja, só leva este nome os fabricados naquela cidade); o pão de ló de Ovar ( tipo individual, redondo); a brisa do Liz ( muito parecido com nosso quindim, mas integrando amêndoas moídas grosseiramente na massa); a torta de Azeitão ( um rocambole que nada tem a ver com azeite, e sim com o nome da cidade onde foi criado); a tarte de amêndoas, massa delicada de bolo recoberta com um crocante semelhante ao nosso pé-de-moleque; o travesseiro, de massa folhada, recheada com creme de ovos e amêndoas, enrolada de forma a sugerir o que seu nome indica; a sericaia, bolo cremoso, úmido, com gosto de limão e canela; guardanapo, massa folhada levinha, recheada com doce de ovos, dobrado na forma triangular de guardanapo de papel e coberto com açúcar refinado; pudim da Batalha- com maiúscula porque o nome diz respeito ao mosteiro famoso que inspirou muitos romancistas lusitanos; é primo da nossa queijadinha. 
 
Chegando ao Brasil pelas mãos dos portugueses, estes doces foram adaptados ao nosso paladar tropical, passando a serem feitos com menos açúcar e ovos. E, em algumas vezes, com o acréscimo de ingredientes nacionais. Foi assim com as queijadinhas, cujas receitas originais, que são muitas, abusam do número de ovos e quase não levam coco. Muito menos admitem leite condensado, diga-se de passagem. Mas, criativos como somos, recriamos a fórmula lusitana com leite condensado e acrescentamos muito coco. O queijo vem quase a reboque para referendar o nome, por que, afinal, onde já se viu queijadinha sem queijo? Se em Portugal fazem uma massa fininha, como as de pastel, cobrem o fundo das forminhas de empada untadas, usam a tesoura de cozinha para dar uns picos deixando bonito o contorno, e só então preenchem o côncavo com o recheio, entre nós já se solidificou um jeito bem mais simples cujo resultado é igualmente delicioso. Talvez influenciados pelo nosso bombocado, misturamos todos os ingredientes e preenchemos as forminhas, que podem ser de papel ( e então é necessário que sejam depositadas nas de alumínio para que não percam o desenho) ou de silicone, essa grande invenção que veio facilitar enormemente a vida na cozinha. Foram as que usei na foto que você vê na página. Confira a lista dos ingredientes. São suficientes para 30 queijadinhas pequenas ou vinte médias.
 
Comece hidratando o coco com um vidro de leite de coco. Isso levará cerca de meia hora. Depois, quebre os ovos um a um em uma xícara, antes de empregá-los, pois assim não correrá o risco de estragar sua receita. Numa tigela média bata os ovos com um fouet por um minuto. Acrescente então o leite condensado e bata por mais um minuto. Agregue a manteiga derretida mas fria. Bata por mais um minuto ou até integrar bem os ingredientes. Junte aos poucos a farinha de trigo misturada com o fermento e peneirada. Continue batendo. Agora é a vez do queijo ralado. Proceda da mesma forma até misturar tudo muito bem. Por fim, junte o coco em flocos que a esta altura já deverá estar bem hidratado. Se for usar forminhas de papel, coloque a massa dentro de formas de alumínio. Se optar pelas de silicone, pode ser disposta diretamente na forma. Encha 2/3 das formas. Forno médio por vinte minutos. Faça o teste do palito e, estando assadas, retire do forno. Quando frias, sairão facilmente da forma de silicone. Estando nas forminhas de papel, nelas serão servidas e se descolarão também com facilidade. Crianças costumam gostar delas, que fazem sucesso nas festinhas infantis. 
 
 
Ingredientes
 
 3 ovos
 1 lata de leite condensado
 100 gramas de manteiga
 2 colheres (sopa) de farinha de trigo
 1 colher (chá) de fermento em pó
 4 colheres (sopa) de queijo (parmesão ou Minas meia cura) ralado
 200 gramas  de coco ralado 
 1 vidro de leite de coco
 
porção: 10
dificuldade: fácil
preço: econômico

Comentários

Comentários