Bicho-de-pé


| Tempo de leitura: 5 min
O prazer pelos doces não nos foi legado pelo índio, muito menos pelo africano; ele é uma influência dos colonizadores portugueses que, por sua vez, herdaram o gosto dos árabes
O prazer pelos doces não nos foi legado pelo índio, muito menos pelo africano; ele é uma influência dos colonizadores portugueses que, por sua vez, herdaram o gosto dos árabes
Que o índio e o africano pouco contribuíram para a arte da doçaria no Brasil, disso se tem certeza. Um e outro não traziam, em sua cultura, o hábito do consumo de doces. É provável que só o mel figurasse no cardápio tupi como doçura palatável. Pois Alencar não definiu a heroína máxima do nosso romantismo, Iracema, como “a virgem dos lábios de mel”? 
 
Com os portugueses era diferente. Eles amavam ( e continuam amando) doces de sabor acentuado, um gosto que lhes fora transmitido pelos árabes durante os oito séculos em que permaneceram na Península Ibérica. Os primeiros donatários trouxeram da Ilha da Madeira para algumas capitanias do recém-descoberto Brasil a cana-de-açúcar, acolhida de forma generosa na terra de clima quente e muita luz. 
 
Nos latifúndios do nordeste o açúcar que saía dos engenhos reunia-se aos frutos da terra tropical. Combinações inéditas começaram a ser elaboradas nas senzalas sob orientação da Casa Grande. Novos temperos, outros perfumes, cores diversas. Branco coco, vermelho caju, amarela jaca, vermelha pitanga... 
 
Fora dos fogões da fazenda, outros doces produziam-se em segredo no silêncio dos conventos baianos, pernambucanos, paulistas, mineiros. As monjas portuguesas, expatriadas por razões quase sempre relacionadas aos seus amores proibidos, trouxeram para as remotas paragens o secular receituário. No calor dos trópicos reinventaram delícias.
 
O doce representou desde sempre entre nós certa expressão de sentimentos femininos aliada a uma arte que venceu a barreira social e conquistou o apreço das sinhás. Detentoras de receitas secretas, passadas de uma geração a outra, as mulheres brasileiras que nos antecederam se expressavam com docinhos e compotas e assim se integravam na vida social. Levavam o calor de sua cozinha e o carinho de suas mãos para a família, os amigos, os parentes, um potencial namorado. E o doce se transformava também em linguagem cheia de significados e sentimentos.
 
O léxico criativo colaborava para a sintaxe das emoções a serem comunicadas. Os substantivos falavam de beijinhos, muxoxos, saudades, agradinhos. Muitas vezes traíam a origem conventual através de beijos-de-frade, barrigas-de -freira, papo-de-anjo, creme celeste, manjar divino. O humor sempre foi um componente da nossa condição de povo alegre e desde os primórdios da colonização transparecia nos olhos-de-sogra e no espera-marido. Os nomes de família ampliavam o valor da iguaria: surgia a queijadinha de Yayá Ribeiro, o bolo Souza Leão...
 
Chegava ao fim o século XIX com a Abolição e a República. O mundo mudava. Novos ares chegavam da Europa. Os jornais assumiam papel essencial na formação do leitor, na divulgação de novidades, na disseminação de novos hábitos. No dia 22 de janeiro de 1890, O Estado de São Paulo trazia, em meio a seus classificados, um pequeno anúncio. Desembarcara no Brasil e estava à venda “a varejo e em grosso” na drogaria São Paulo, Rua São Bento, centro da capital paulista, um novo produto. Propagandeado como ótimo alimento para crianças, preferível mesmo ao leite fresco, chegava aos trópicos o leite condensado. 
 
A incensada criatividade do povo brasileiro foi com certeza responsável pelo crescimento avassalador das vendas. Pois, inventado para suprir a carência de leite fresco num tempo em que inexistiam refrigeradores domésticos, o leite condensado passou a integrar dezenas de sobremesas, das quais duas se tornaram clássicos imbatíveis: o pudim de leite e o brigadeiro. 
 
O brigadeiro foi inventado depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Existia um docinho parecido ao atual, mas levava muito leite, muito açúcar, muitos ovos e muito tempo de cozimento. O leite condensado simplificou de forma admirável a elaboração que recebeu acréscimo de chocolate em pó na massa e de chocolate granulado na cobertura. 
 
Mas ainda faltava dar um nome para o reinventado. Na época, aconteciam as eleições para presidente da República, e um dos candidatos era o Brigadeiro Eduardo Gomes. Na campanha, ele utilizava propaganda engraçada, que grudou na boca do povo: “Vote no Brigadeiro / Ele é bonito e solteiro”. E porque o homem gostava muito do docinho, os que trabalhavam em seu comitê de campanha logo o batizaram com seu nome, a partir da frase “o doce do brigadeiro”. Assim como acontecera ao “leite da moça”, que virou Moça, o “doce do brigadeiro” se transformou em Brigadeiro apenas. As mulheres que trabalhavam na campanha, em vez do “santinho” tradicional do candidato, distribuíam o docinho para angariar votos, o que ampliou o poder de expansão da guloseima (será que esta palavra ainda é usada?).
 
Desde então apareceram dezenas de variantes de brigadeiro, sempre recebidas efusivamente pelo consumidor brasileiro. O bicho-de-pé é uma delas. Originalmente era feito com morango fresco, o que levava à superfície as minúsculas sementes pretas que o fruto tem quando bem maduro. Mas o tempo que tudo transforma mudou também o docinho e para melhor. O advento da gelatina simplificou e melhorou a receita, levando o rosado bicho-de-pé para milhares de festas infantis.
 
Prepará-lo é muito fácil. Derreta numa panela pequena a manteiga. Deixe o fogo bem baixo e junte o leite condensado. Mexa e adicione meio pacotinho de gelatina em pó. Mexendo sem cessar, sempre sobre chama baixa, espere dar o ponto, que é quando o fundo da panela aparecer. Desligue a chama. Despeje a massa num prato, espere esfriar e leve à geladeira por uma hora. 
 
Depois deste tempo retire porções com uma colher de chá e, com as mãos untadas, molde bolinhas. Passe-as em mistura de açúcar cristal e pó de gelatina. Firme um cravo -da-Índia em cada docinho e, se quiser, coloque em forminhas decorativas.
 
 
INGREDIENTES
 
 1 lata de leite condensado
 1 colher (sopa) rasa de manteiga
 1 pacotinho de gelatina em pó sabor morango
 20 cravos-da-índia
 
porção:  20 docinhos
dificuldade: fácil
preço: econômico

Comentários

Comentários