A difusão das macieiras na Europa coincide com a expansão humana e o domínio de técnicas agrícolas no período neolítico. Maçãs carbonizadas encontradas nos arredores do Lago de Chalain, leste da França, foram datadas pelo teste do carbono como pertencentes ao século XX aC. Sua cultura desenvolveu-se bem ao longo do Mediterrâneo, sendo muito conhecida das civilizações egípcia e grega.
Macieiras figuram entre as árvores que o faraó Ramsés II ordenou que plantassem em seu jardim, por volta do ano 1304 a C. Muito anteriormente, a maçã já era citada no Velho Testamento como a fruta da perdição de Adão, oferecida por Eva a partir da sugestão de uma serpente. Mencionadas por Homero na Ilíada e na Odisseia, na altura de 850 aC, poetizadas por Hesíodo em Os Trabalhos e os Dias, tomadas como riqueza vegetal por Palladius, um dos primeiros agrônomos, foi descrita em oito variedades por Teophrasto e em uma dezena por Catão. Varrão, encarregado por César de organizar a primeira biblioteca pública de Roma, redigiu um tratado de economia rural chamado Rerum rusticarum, indicando que cada região do Império possuía na época grandes pomares de maçãs. Um século mais tarde, já no início da Era Cristã, o naturalista Plínio, o Velho, autor de 37 volumes de História Natural, descreveu minuciosamente dezessete variedades da fruta. Viva o Google!
Para os habitantes da antiga Gália, a macieira, nome de origem celta, era tão sagrada quanto o carvalho e ambas faziam parte de rituais druidas, estando associadas ao paraíso. Em desenhos e pinturas o mago Merlin aparece sentado sobre um galho de macieira. Os bárbaros que invadiram a Gália destruíram tudo, como se sabe, inclusive os pomares. Mas rapidamente os franceses os refizeram e por conta do clima e do solo, logo as macieiras cobriram grandes extensões de terra do que hoje é a Normandia. No final do século XII a pera começa a disputar a preferência com a maçã. Às vésperas da Revolução, um catálogo impresso em Paris anotava 72 espécies contra 40 de pera. Cerca de duzentos anos depois, num trecho famoso de Em busca do tempo perdido, o ficcionista Marcel Proust faria um personagem célebre, o Barão de Charlus, descrever para seu criado várias delas. Os nobres preferiam a textura macia da pera, em oposição à firmeza da maçã que conferia ao mastigar certa deselegância barulhenta.
À América do Norte a primeira muda de macieira chegou no Mayflower, navio que levou da Inglaterra famílias de colonizadores. Plantada em Plymouth, Massachussets, essa macieira tornou-se o marco de milhares de mudas em solo americano. Neste contexto é que aparece a figura lendária de John Chapman, que mudou seu nome para Johnny Appleseed depois de se dar a missão de propagar mudas de macieira por todo o país. Ele teria formado 35 pomares durante sua vida, em Ohio, Indiana, Illinois. Consta que gostava de passear distribuindo sementes e enaltecendo o cultivo de macieiras na esperança de ver multiplicar as árvores frutíferas. Seria dele a frase que os americanos repetem até hoje: “Quem come uma maçã por dia, afasta o médico de casa por toda a vida”. A maçã, apple no idioma inglês, com seu desenho limpo e implícita metáfora de coisas desejáveis, acabou se tornando em nosso século o emblema de uma das maiores companhias do mundo na área de tecnologia- a Apple.
No Brasil, o cultivo se concentra no sul do País e as espécies que se adaptaram melhor ao clima e solo foram a Gala e a Fuji. Santa Catarina é o maior centro produtor, mas um relato interessante dá conta de que Veranópolis, no Rio Grande do Sul, é que se tornou “Berço Nacional da Maçã” quase por acaso. A história, documentada em carta que se encontra em museu, conta que tudo começou com o agricultor José Bin, que comprou uma maçã vinda da Califórnia, em 1935. Ele comeu a fruta e plantou suas cinco sementinhas. Todas brotaram, mas só um pé sobreviveu. Após enxerto, José Bin produziu uma qualidade especial de fruto que seus vizinhos batizaram como “a maçã do José Bin”. Com o passar do tempo, ele foi multiplicando a macieira e dela fazendo novos enxertos, distribuindo mudas aos amigos que, entusiasmados, começaram a formar pequenos pomares. No início dos anos 60 agricultores da região tiveram a iniciativa de realizar a Primeira Festa da Maçã, cujo sucesso ensejou a criação, anos depois, da Femaçã, que acontece até hoje entre maio e junho e atrai milhares de turistas à região.
O maior consumo da maçã, em todo o mundo, é in natura. Mas com ela se fazem delícias como geleias, compotas, doces, purês e bolos- como este que ilustra nossa página e rende seis porções. Escolha maçãs tipo Gala, pelo seu sabor ligeiramente ácido. Lave-as, descasque-as, corte-as ao meio, retire as sementes. Corte de novo cada metade em quatro. No total você vai obter 16 meias-luas. Numa frigideira, salpique açúcar e caramelize as fatias. Unte com manteiga uma forma redonda pequena e espalhe no fundo os pedaços de maçã. Reserve. Bata os ovos numa tigela, claras e gemas juntas. Junte o açúcar e volte a bater. Aos poucos intercale a manteiga (derretida e fria) e a farinha de trigo peneirada junto com o fermento. Agregue o rum (uísque ou cachaça). Por fim, a baunilha e mexa bem. Despeje essa massa sobre as fatias de maçãs na forma, alise com colher e leve ao forno preaquecido (180º) por 30 minutos ou até o bolo ficar bem dourado. Verifique o cozimento introduzindo um palito na massa. Ele deve sair seco. Deixe esfriar um pouco antes de desenformar. Pode ser servido simples ou acompanhado por sorvete de creme.
Ingredientes
125 gramas de manteiga (+ manteiga para a forma)
100 gramas de açúcar mascavo (+ açúcar para a forma)
2 maçãs
1 colher (chá) de essência de baunilha
2 ovos
1 pitada de sal
125 gramas de farinha
1 colher (chá) de fermento em pó
2 colheres de rum, uísque ou mesmo cachaça
porções: 6
dificuldade: fácil
preço: econômico