O norte de Portugal é conhecido por suas cerâmicas artesanais, especialmente pelas que representam o Galo de Barcelos colorida ave muitas vezes usada como símbolo do País. A cidade medieval fortificada estende-se por uma colina acima do rio Cávado, e as suas ruas são ladeadas por casas barrocas. É destino turístico muito procurado. A feira no Campo da República, que se realiza todas as quintas-feiras, atrai compradores e visitantes da região e muita gente curiosa. Evento essencialmente rural, exibe bancas de frutas e legumes sazonais, queijos caseiros e todo tipo de artesanato em que o protagonista é naturalmente... o Galo de Barcelos! Entre outras atrações locais incluem-se a Igreja de Nossa Senhora do Terço, o Centro de Artesanato de Barcelos e as ruínas do Paço dos Duques de Bragança, datado do século XV. Estas foram convertidas num museu arqueológico ao ar livre onde se encontram, entre outros marcos, o cruzeiro onde imagens incrustadas descrevem a história dos personagens principais de narrativa mui antiga: o peregrino, o galo e o enforcado.
Conta a lenda que os habitantes da cidade, homenageada em tempos d’antanho até pelo Infante Dom Henriques, andavam alarmados por conta de um crime, do qual ainda não se tinha descoberto o autor. Aparentavam todos muita inquietação quando apareceu por ali um homem a quem logo tomaram como suspeito. Ele não levava bagagem, apenas um alforje com alguma comida e única troca de roupa. Isso causou desconfiança- um estranho, com tão pouca coisa de seu... As autoridades resolveram prendê-lo. Ele jurava inocência, dizendo ser oriundo da Galiza, e apenas de passagem em peregrinação a Santiago de Compostela, onde deveria cumprir promessa. Mas os locais não acreditaram no que dizia o estrangeiro e fizeram um julgamento sumário. Condenado à forca, pediu que o levassem à presença do juiz. Concedida a autorização, foi encaminhado à residência do magistrado, que nesse momento se banqueteava com alguns amigos.
O galego reafirmou sua inocência e, perante a incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que estava sobre a mesa de jantar, exclamando: “É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando estiverem a ponto de me enforcar.”
O juiz empurrou o prato para o lado e ignorou o apelo. Mas quando o peregrino estava já com a corda no pescoço, o galo assado ergueu-se na bandeja onde o cozinheiro o havia depositado e cantou. Assustado, e compreendendo naquele sinal a injustiça a ser cometida, o juiz correu para a praça a tempo de salvar o homem. O peregrino anônimo foi imediatamente solto e mandado seguir em paz para Santiago. Alguns anos mais tarde voltou a Barcelos para esculpir o Cruzeiro do Senhor do Galo em louvor à Virgem Maria e a São Tiago.
Barcelos é berço deste galo famoso e também de uma culinária rica onde se destacam bacalhaus, sardinhas e presuntos; cabritos, vitelas e coelhos; e potentes sobremesas que levam nomes como paralelos, sonhos de Arantes, doces de romaria, leite-creme com chila (uma espécie de abóbora), brisas do Cavado abanadas. Etc. Aliás, no capítulo das doçarias, os portugueses vencem qualquer outro país europeu. Parece ultrapassá-los também no das sopas, onde se destaca o Caldo Verde. Como o Galo de Barcelos, o Caldo Verde é um dos símbolos de Portugal.
Prepará-lo é muito fácil, pois todas as maneiras encontradas nas cozinhas portuguesas, embora divirjam na forma de entrada dos ingredientes ou na relação entre quantidade de batatas e couve, são bem prosaicas. Às vezes as batatas são cozidas e passadas pelo espremedor antes de adentrarem o líquido; outras vezes são simplesmente esmagadas com um garfo de cabo longo no caldo onde já foram cozidas. O paio, em algumas receitas é frito e depois acrescentado à sopa instantes antes de servi-la, em outras é cozido junto com todos os ingredientes. Em todas as receitas, recomenda-se que as folhas sejam finamente cortadas e deixadas a ferver por apenas dois minutos a fim de que mantenham o verde e a sopa não fique amarelada. Há os que preferem o caldo bem batido no liquidificador, e os que batem só metade das batatas deixando as outras para que a sopa se apresente pedaçuda. Acho desnecessário lembrar que um azeite de excelente qualidade, tipo extra virgem, é essencial neste prato bom para ser saboreado no inverno.
Comece pelas batatas, escolhendo-as com cuidado, pois as que são boas para fritar não o são para cozinhar. Descasque, corte ao meio, deixe imersas em água. Corte o bacon em cubinhos e as cebolas em quadrados. Pique os dentes de alho. Fatie o paio em rodelas de 3 mm. Dissolva o tablete (só um, pois paio e bacon contêm sal) de caldo de legumes na água fervente e deixe à mão. Numa panela grande aqueça o azeite, frite o bacon, reúna cebola, alho e paio. Acrescente as batatas, mexa, cubra com o caldo. Enquanto as batatas cozinham, retire os talos das folhas de couve, enrole-as como um charuto, apoie numa tábua e corte tiras fininhas. Quando as batatas estiverem bem macias, esmague a metade com o grafo e retire a outra metade para o liquidificador, com um pouco do caldo. Bata por um minuto e devolva à panela. Mexa bem, acrescente pimenta-do-reino se gostar, acerte o sal. Quando levantar fervura, junte a couve, mexa com garfo e deixe um minuto apenas, para que mantenham a cor verde. Sirva imediatamente.
INGREDIENTES
6 batatas médias cortadas em metades
1 cebola grande cortada em cubos
2 dentes de alho
4 colheres (sopa) de azeite
1 colher (sopa) de cubinhos de bacon
2 gomos de paio cortados em fatias bem finas
2 litros de caldo de legumes
Sal a gosto
Pimenta-do-reino a gosto
porção: 4 pessoas
dificuldade: fácil
preço: econômico