Bom-bocado de mandioca


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De origem conventual portuguesa, o bom-bocado é doce que veio se modificando no Brasil, agregando ingredientes novos, como a mandioca
De origem conventual portuguesa, o bom-bocado é doce que veio se modificando no Brasil, agregando ingredientes novos, como a mandioca
O leitor Vicente Ribeiro observa que nas últimas semanas dediquei duas colunas para falar sobre pratos que têm milho como ingrediente e nenhuma onde seja conferida importância à mandioca. Lembra-me ele, professor de história, que “ o Brasil é a terra natal da mandioca, chamada pelo padre José de Anchieta “pão da terra”. E me ensina: “Do centro de nosso país o tubérculo se espalhou por mais de 100 nações desde a chegada dos portugueses; foi citada na carta de Pero Vaz de Caminha e acabou adotada pelos lusitanos; não fosse sua presença, a ocupação das terras brasileiras teria sido mais difícil.” 
 
A mensagem de Vicente me fez relembrar o papel da mandioca, ao lado do milho, neste contexto colonizador. Pelo que já li, impressionou aos portugueses o valor nutritivo da raiz, pois as tribos aqui encontradas em estágio primitivo, só sabiam cultivar roças de mandioca, alimento básico. Mas era impressionante como os nativos se mostravam fortes e ágeis, apesar da dieta quase única, à qual vinham se somar frutos e alguma caça. Por associação de ideias, lembrei-me também de ter lido durante as últimas Olimpíadas, sobre o cardápio do jamaicano Usain Bolt, o homem mais veloz do mundo: no menu, nunca falta mandioca, porque seus dois tipos de carboidratos, reunidos, liberam a glicose mais lentamente para o corpo, o que facilita a digestão, evita picos de açúcar no sangue e fornece gás de sobra para o dia seguinte. Nossos índios, que a tinham como alimento básico, deviam saber disso de forma prática e a valorizavam tanto que até criaram um mito para explicar seu aparecimento na natureza.
 
Versátil nas condições de plantio, ela tolera climas áridos e solos pobres. Plural nos nomes, é conhecida por aipim, macaxeira, maniva, uaipi, xagala e mais uma dezena de denominações de acordo com as muitas regiões do nosso país de dimensões continentais. Múltipla nas formas de preparo, impera como as primitivas farinha e tapioca no nordeste e avança para elaborados pratos salgados e doces no sudeste e no sul. 
 
É um representante desses últimos que trago para a página, ainda sob o espírito das festas juninas, pois temos pela frente São João e São Pedro; e também para atender ao Vicente Ribeiro, que pede receita de bom-bocado de mandioca: “ Uma vez experimentei um pedaço na festa junina na escola de minha filha e nunca encontrei outro igual, só sei que tinha mandioca e coco”. Como ele escreve “pedaço”, imaginei que o bom-bocado tenha sido assado em tabuleiro, como bolo, e não na forma tradicional que lembra um bolinho brilhante. 
 
(Um parágrafo para a história. O bom-bocado tem origem nos conventos portugueses, onde as freiras foram as primeiras a desenvolver os doces com ovos, aos quais deram nomes curiosos como argolas, travesseiros, tibornas, pães-de-ló, delícias de frei João, marmeladas de Odivelas, nozes de Cascais, pastéis de Belém e... bons-bocados. Entre nós este veio se transformando e adaptando-se aos gostos, costumes e produtos locais, sobressaindo-se nas festas juninas. Na sua origem era feito com calda grossa de açúcar à qual, depois de fria, se misturavam muitas gemas, um pouquinho de farinha, manteiga e amêndoas trituradas, levando-se a assar em forminhas, no processo conhecido por banho-maria. Da composição inicial restou pouco em nossos dias, somente ovos, açúcar, leite. A farinha cedeu lugar ao fubá e à mandioca. O queijo foi trocado pelo coco ou com ele vem mantendo bom relacionamento. As amêndoas desapareceram.)
 
A receita que trago para o Vicente e outros leitores que se sentirem tentados a prepará-la, é muito prática, pois os ingredientes são batidos no liquidificador. O único trabalho é atentar para as quantidades- aquelas a serem seguidas na elaboração e as que forem depois consumidas. Porque é uma tentação contentar-se com apenas um pedacinho. Isso já dizia o pintor Debret, que retratou escravas que vendiam bons-bocados nas ruas do Rio, em 1826; e também Machado de Assis, que os levou para algumas de suas páginas imortais.
 
Vamos à cozinha. Corte em pedacinhos a mandioca crua (obviamente descascada). Coloque no liquidificador junto com o leite de coco e o leite de vaca. Bata durante três minutos e reserve numa tigela. Lave o copo e volte a colocar nele os ovos, a manteiga, o açúcar e a farinha. Bata por três minutos também. Despeje a mistura de ovos sobre a de mandioca triturada e mexa para ficar bem homogêneo. Junte o fermento e volte a mexer. Coloque metade do coco ralado e misture. Unte um tabuleiro retangular médio (20cmx30cm), polvilhe com farinha, distribua a massa e sobre ela o restante do coco ralado. Leve ao forno médio (180º) por 40 minutos ou até que esteja assado. Deve ficar com a superfície levemente dourada, conforme se vê na foto. Depois de frio, corte em quadradinhos para servir.
 
 
INGREDIENTES
 
 300  gramas de mandioca crua
 1 xícara (rasa) de açúcar refinado
 2 colheres (sopa) de manteiga sem sal
 1 garrafinha de leite de coco
 4 xícaras (chá)  de leite
 2 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo
 1 colher (sobremesa) de fermento em pó
 4 ovos
 100 gramas de coco ralado
 
 
porção: 30
dificuldade: médio
preço: econômico

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