Lido no título o nome do peixe pode ser que de algum lugar venha a pergunta: será que cação é tubarão? A sabedoria popular responde quase junto com os biólogos que têm senso de humor: "Se a gente come o peixe, é cação; se o peixe come a gente, é tubarão". De certo mesmo é a excelência da carne. Branquinha e firme, mesmo depois da cocção. Totalmente sem espinhos, pois até a coluna é cartilaginosa. E de suavidade só comparável à do namorado. No reino das águas salgadas, claro.
Este peixe entrou como alvo de uma pendenga jurídica no final do ano passado, quando o Instituto Justiça Ambiental ingressou com ação civil pública contra dois megamercados em busca de uma informação: de onde vêm mesmo tantas toneladas consumidas pelos brasileiros? Segundo os meganos, o cação ocupa o topo da cadeia alimentar marinha e está seriamente ameaçado de extinção. Será?
Enquanto ele permanece disponível vamos aproveitar para combiná-lo com legumes, numa elaboração light , sem fritura, pois esta também entrou, faz tempo, no index proibitorum dos que mantêm o olho na balança para não ganhar peso e perder a linha. Parece meio estranho mesclar abobrinha com peixe, mas na cozinha italiana esta dupla emplaca e faz parte de muitos cardápios do sul daquele país.
Vou explicar como fiz meu espetinho. Cortei as postas em cubos de 4 cm. Temperei com sal e limão, como se preparam habitualmente todos os peixes. Deixei na geladeira por meia hora para tomar gosto. Enquanto isso raspei as abobrinhas, piquei em cubos, aferventei de leve em água salgada. Escorri e reservei. Lavei e enxuguei os tomatinhos. Retirei as cascas secas das cebolas. Preparei o azeite: coloquei numa panelinha e misturei uma colher (sobremesa) de urucum, sementes que você pode encontrar na feira livre ou já transformadas em pó no supermercado. É ingrediente imprescindível de muitos pratos que levam pescados, porque confere uma cor linda ao peixe. O importante é não deixar queimar. Logo que aquecer você verá que o azeite se colore de um tom coral muito bonito. Desligue imediatamente a chama, espere esfriar e reserve. Coloque num vidro bem tampado e guarde em lugar seco para durar muito tempo. O urucum era usado como tintura pelos índios que habitavam o Brasil na época do descobrimento. Foram os europeus que descobriram suas peculiaridades culinárias, substituindo o caríssimo açafrão asiático por ele, transformando-o em especiaria. Talvez por isso em algumas regiões brasileiras, onde a linguagem e os hábitos permanecem um pouco aquém dos avanços cosmopolitas, o urucum seja conhecido por "açafrão da serra".
Siga os passos. Sirva bem quente. Para acompanhar, salada de agrião: folhas lavadas e enxugadas com delicadeza, temperadas com mão abundante para o azeite, avara para o sal e cuidadosa no limão. Se for galego, melhor ainda.
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