Quando procuro a etimologia de uma palavra e encontro em diversas fontes sentidos plurais, às vezes controversos, deixo-me guiar pela intuição e escolho sempre o mais pitoresco. Deve ser coisa da minha natureza sonhadora. Para a palavra goiaba me oferecem os etimólogos algumas origens díspares. Pode ser que provenha do espanhol guayaba, pois surge assim grafada em relatos escritos por viajantes já em 1550. Eles teriam colhido o nome em San Domingos, junto aos tainos, grupo de falantes de uma língua caribenha extinta. Mas é possível também imaginar que nasça no guarani cuiapa, segundo registra Cândido de Figueiredo, pois os índios do litoral brasileiro conheciam muitas espécies desta fruta e a consumiam.
A explicação de que mais gosto tem em dois mestres uma confluência. Tanto Teodoro Sampaio como Silveira Bueno defendem o étimo a-coyaba, na verdade uma frase com tradução aproximada de " agregado de caroços, pinha de grãos". Quando partimos uma goiaba e olhamos seu interior, a alusão ao grande número de sementes para denominar o fruto é perfeita. É poética.
E sempre que chega março , com suas pesadas chuvas anunciando o fim do verão, sou indagada por Joelma Ospedal sobre "a tal enchente das goiabas", que seria uma chuva torrencial, sinal de que efetivamente termina o tempo pluvial e o outono põe-se a caminho. Qual o papel das goiabas? Segundo me relataram há muito tempo, é que neste dia o ímpeto da pancada derruba as derradeiras goiabas que resistem nos pés. Nas fazendas, as mulheres de antigamente, de um tempo em que o mundo rural abrigava forte sentido gregário, faziam mutirão para colher estas frutas e aproveitá-las no doce tão brasileiro e sem similar que é a goiabada. Fazer goiabada é como fazer pamonha, exercício compartilhado, com muita gente envolvida para um resultado final a ser dividido. Não é tarefa fácil. Pra começo de conversa, pede fogão a lenha e tacho de cobre, além de muito tempo para cortar e passar as cumbucas na peneira, separando polpa de cascas e miolos. Por isso a solicitação de toda a família e vizinhança.
Mas podemos preparar em alguns minutos, com as goiabas de baixo preço que encontramos no fim da safra em feiras e varejões, um doce também especial e bonito, cuja cor é inigualável. Devem ser as do tipo vermelho estas goiabas, naturalmente. Escolha as que estiverem bem maduras mas firmes. Lave, descasque, retire a parte dos cabinhos , corte ao meio.
Com uma colher, retire o miolo e vá mantendo as cumbucas numa vasilha com água para que não escureçam. Quando terminar, passe os miolos de goiaba pela peneira, usando um pouquinho de água para facilitar o trabalho. Meça o líquido obtido e junte a ele o açúcar. A medida para um ponto perfeito é uma de açúcar para quatro de caldo. Se você tem quatro xícaras de suco, acrescente uma de açúcar. O resto você acompanha no passo a passo.
