Olhando mangueiras por toda parte desde a infância, fui induzida a pensar que, como as jabuticabeiras, elas seriam frutíferas eminentemente brasileiras. Não é verdadeiro, descobri há não muito tempo: as mangueiras estão aqui há cinco séculos, mas foram trazidas pelos colonizadores portugueses desde Goa, colônia lusitana na Índia. Aclimataram-se perfeitamente, dadas as semelhanças de temperaturas, e hoje o Brasil é o maior exportador de manga para a Europa, onde uma Palmer custa 3 euros, mais ou menos 5 reais.
Americanos gostam da Haden, argentinos preferem a Atkins. São as três espécies mais cultivadas pelos produtores paulistas e mineiros, o que acarretará fatalmente o desaparecimento de outras como a Coquinho, a Carlotinha, a Espada, a Coração-de-boi e a já rara Bourbon, que engana a gente pela cor sempre verde, mesmo quando está supermadura: sua polpa é macia, o perfume menos intenso que o de suas irmãs, e a ausência de fibras a torna perfeita para o consumo in natura. Resistirá contudo a reserva daquele médico de São Carlos que tem mais de 300 espécies plantadas em seu sítio, como já contamos por aqui.
Já tinha ouvido que as folhas das mangueiras e as cascas das frutas continham terebentina, substância boa para alguma doença de criança, gripe, tosse, desconfortos por aí nas vias aéreas superiores. Uma tese de doutorado de agrônoma gaúcha me desfaz este outro equívoco: não é terebentina, mas sim mangiferina, de qualidade antioxidante e conhecida pelos chineses que a empregam largamente na sua medicina.
Mas fazer o que com manga na cozinha? Muitas coisas. Suculenta e aromática, ela se presta a diversas preparações doces e salgadas, todas irresistíveis. Pra começo de lista, o chutney, renomado molho, onipresente nas mesas indianas, a tem como matéria prima, misturada a canela em pó, açúcar mascavo, sal, vinagre, molho inglês, pimenta e mostarda. Vai bem com tudo. Há um outro molho para carnes brancas, onde à manga se juntam tomates, cebolinha verde picada, azeite, limão, pimenta dedo-de-moça. E um para assados, onde se reúnem vários temperos capitaneados pelo alho. Manga espetada em palito e temperada com pimenta em pó vermelha é a forma como mais é vista em Cancun e adjacências. No Brasil a associamos mais às doçuras: compota de manga, marmelada de manga, gelatina de manga, e... gelado de manga, que é o que trazemos hoje para os leitores. Aproveite a safra, pois as mangas estão dulcíssimas, lindas, exibidas e tentadoras.
Descasque as mangas, fatie, bata no liquidificador com um pouquinho de água. Adoce com açúcar ou adoçante. Dissolva numa xícara de água fervente dois pacotinhos de gelatina sem sabor, deixe dissolver e misture ao purê de manga. Por fim, acrescente o creme de leite e mexa de novo. Coloque em forma untada com óleo ou azeite, cubra com filme plástico e deixe na geladeira até firmar. Desenforme, enfeite como quiser. Como se vê na foto, decoramos com pedacinhos de casca da fruta e folhas de louro.
