Você gosta de amora?


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Amora lembra origens. Pra começo de conversa, uma de nossas fases mais remotas como ser humano é a da mórula
Amora lembra origens. Pra começo de conversa, uma de nossas fases mais remotas como ser humano é a da mórula

Amora lembra origens. Pra começo de conversa, uma de nossas fases mais remotas como ser humano é a da mórula. Depois, acho raro encontrar um adulto que nos seus primeiros anos de vida não tenha brincado de parlendas onde aparecia a indefectível “ Você gosta de amora? Vou contar para seu pai que você namora...” Tempos inocentes, onde ainda se conjugava o verbo namorar e o pai impunha respeito e medo em questões de coração.

As amoras apareciam com frequência também nos quadrinhos de Disney onde alguma história destacasse Vovó Donalda e suas tortas, colocadas na janela para esfriar. Tentações visuais e perfumadas, eram sempre roubadas. Acho que por ali, menina ainda, me senti fisgada pela culinária e pela literatura, tive um vislumbre entre as HQs: casinhas cheias de vida, árvores nas portas, chaminés fumegantes, caminhos que no inverno se cobriam de neve e exigiam duro trabalho aos moradores da Patolândia. E uma ternura indescritível, gregária, familiar.

Fora das brincadeiras, com dois pés na realidade, bem cedo as amoras me pintaram as mãos de vermelho e adoçaram minha boca infante. Até os dez anos morei na rua Ouvidor Freire, em dois lugares próximos: na esquina com Líbero Badaró e na direção oposta, no meio do quarteirão. Defronte desta segunda casa, havia uma construção que eu achava muito grande, onde morava uma americana loira. Até hoje me pergunto o que aquela mulher fazia em Franca naquele começo de anos 60. No quintal existia uma amoreira imensa, à qual tínhamos acesso por um muro caído e nunca consertado. Como a casa estava quase sempre sem a moradora, que parecia viajar muito, as crianças da rua frequentavam aquele quintal. Quando a amoreira se carregava de frutos em dezembro, era uma delícia. Dizem que é mania achar que as coisas do passado eram melhores e até pode haver razão nisso, existe uma certa ilusão em querer escapar do presente. Mas digo sem medo de errar que iguais àquelas amoras, doces, suculentas e abundantes, de encher nossas mãos em
conchas, outras nunca mais vi.

Talvez essas pequenas lembranças expliquem porque dia desses fui tomada por súbita alegria ao me deparar numa das gôndolas do varejão Irmãos Patrocínio, aqui perto do GCN, com caixinhas de plástico transparente, contendo graúdas e gordas amoras. Sem pestanejar as comprei, pensando em fazer com elas alguma coisa simples, leve e sugestiva para a ceia de Natal. Então inventei esta sobremesa, meio mousse, meio manjar, que ficou bonita no seu colorido e gostosa ao paladar. Se não encontrar amoras frescas, faça com frutos congelados.

Em primeiro lugar, prepare uma compota com as amoras, levando-as ao fogo com água, açúcar e limão e deixando cozinhar por quinze minutos, até a mistura ganhar cor e espessura. Desligue a chama, retire algumas frutas e um pouco da calda para enfeitar. Rale um limão e misture as raspas ao creme de leite. Passe o doce de amoras pela peneira para obter um purê fino. Umedeça a gelatina em pó e leve ao banho-maria para derreter. Assim que estiver líquida, derrame sobre o purê de amoras e mexa. Em seguida, junte o creme de leite misturado com as raspas de limão e batido em ponto de chantilly. Volte a mexer bem até que a mistura esteja homogênea. Por fim, delicadamente junte as claras em ponto de neve. Despeje em forminhas e leve para gelar no mínimo por duas horas. Para desenformar, passe o fundo das forminhas rapidamente na água quente. Enfeite com as amoras reservadas.

Confira a receita no passo a passo:

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