Se houvesse um cardápio universal onde listar pratos e suas correspondências afetivas, nele por certo estariam inseridos a sopa e o mingau, especialidades que falam à nossa alma infantil, alimentam a criança que existe em cada um de nós. Talvez por serem líquidos, fáceis de engolir, servidos em temperatura quente, trazem conforto, lembram carinho, inspiram agradecimento. Por tudo isso sopa é sempre lembrada quando as temperaturas caem e nossa memória ancestral resgata a busca por alimentos que aqueciam o corpo e a alma do homem primitivo, aquele que acabava de dominar o fogo. Juntar pedaços de caça, folhas rasgadas e raízes esmagadas num caldeirão jurássico foi passo de importância extraordinária à nossa evolução. Dizem os especialistas que alimentos cozidos, a digestão humana mais fácil, permitiu ao homem mais horas de sono, e com isso o cérebro pode crescer e armazenar memórias. A evolução passou pela cozinha, como se pode constatar.
Não precisamos mais acender fogueiras nem triturar com pedras os alimentos para uma sopa ou um mingau. O fogão a gás faz parte do cotidiano da maioria da população do mundo e o liquidificador há pouco menos de 100 anos tem seu lugar garantido nas cozinhas de todas as classes sociais. Só um século? Pois então, bem pouco tempo, neste período de tantas transformações que vem caracterizando a vida no planeta. Antes de 1931, o eletrodoméstico era uma máquina enorme, verdadeiro trambolho de uso industrial que tinha aparecido em duas exposições em 1901 e 1904, respectivamente, uma na Inglaterra, outra nos Estados Unidos. À medida que o tamanho do aparelho foi diminuindo, ele foi ganhando mais espaço nos lares, de início para fazer apenas milk shake. Mas logo as donas-de-casa perceberam seu potencial para triturar ingredientes sólidos, homogeneizar os pastosos, misturar líquidos e combinar diferentes consistências.Tudo ficou mais fácil e ágil. A sopa da ilustração, na sua versão creme, é opção gostosa e colorida para uma noite de inverno. Pode ser feita em poucos minutos. Aproveite que é época desta abóbora chamada cabotiá, originária do Camboja, país de onde os portugueses a levaram para o Japão e os imigrantes japoneses trouxeram ao nosso país, tornando a palavra oxítona: camboja>cambochá>cambotiá.... Tem a casca dura e rugosa, o que pode desanimar quem não sabe que cozinhá-la antes do preparo do prato facilita o trabalho. A nossa receita tem o acréscimo de alho poró, cebolinha verde e pimenta vermelha. O caldo de legumes confere um aroma peculiar. O creme de leite, que pode ser na versão light, contribui para o aveludado da textura. Se quiser experimentar, faça assim. Corte ao meio o cabotiá, elimine as sementes e a parte fibrosa que estiver solta. Cozinhe numa panela grande. Deixe esfriar e retire a polpa com uma colher. Leve ao liquidificador, junte o caldo de legumes, bata por um minuto. Aqueça o azeite numa panela, refogue as rodelas de alho-poró, junte a abóbora batida, mexa bem. Acrescente o creme de leite, a cebolinha, a pimenta. Deixe levantar fervura e sirva.

