Apuleio, que viveu no século II de nossa era, escreveu o livro "Asinus Aureus", que Ruth Guimarães (1920-2014) traduziu e foi publicado pela Editora 34. Foi o único romance latino que chegou inteiro até nós. Relata as aventuras e desventuras de um jovem chamado Lúcio que, ao beber a poção errada, foi convertido num jumento. A partir daí, ele registra as experiências a que foi submetido, para mostrar o quão miserável é a matéria-prima de que são fabricados os humanos. Há quem diga que a humanidade vai sair desta crise mais generosa, mais solidária, mais humana. Um qualificativo otimista, que trabalha com uma ideia de constante perfectibilidade. A vocação do homem é ser melhor a cada dia. Hoje, melhor do que ontem e menos do que amanhã. Será que isso é viável? Verdade que há gestos de solidariedade manifestos. Ressalvada a propaganda que parece jogo de marketing, empresas se mobilizam para atenuar a desgraça que se abate sobre todos, mas que é muito mais pesada para os invisíveis. Aqueles que existem, mas que ninguém vê. Os que estão pela manhã à procura de alimento para o almoço e, se Deus permitir, para o jantar. Entre estes, a bondade é mais autêntica. Aquele que tem pouco é capaz de partilhar. Quem tem muito quer ainda mais. Essa "onda de generosidade" persistirá? Chegaremos a implementar o que até ontem parecia bizarro, a renda mínima? Ou prevalecerá a "auris sacra fame", a sagrada fome do ouro? Embora o ouro não seja vacina para a covid-19 e não adianta possuí-lo para fugir da contaminação e da morte, ele é a mola propulsora daquele que acredita que acumular garantirá vida eterna. Como diz Ruth Guimarães, cujo centenário celebra-se este ano, "a fidelidade humana é coisa frágil, não há obstáculo para o ouro. O ouro abre até portas de aço". Como seria bom que o ouro conseguisse também abrir os corações empedernidos dos que não se comovem com a desgraça alheia, que acham que a morte precoce e sem despedidas é destino e que estão pensando em coisas que o mundo esquecerá em breve. Quando eles mesmos forem lembranças tristes de tempos infelizes, ora vivenciados por frágeis e pobres mortais.
JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras - 2019 - 2020.