Faltou caminhãozinho


| Tempo de leitura: 2 min

O moço partiu há três meses. Completaria nesta semana 50 anos. A doença dele, para os próximos, não parecia que fosse levá-lo tão cedo. Não dispensou o golinho de cerveja – essencial no tratamento - no bar da esquina, em que encontrava os amigos. Simpaticíssimo, de sorriso fácil e um encanto no trato com as pessoas.

Veio para cá na lotação que oferecia possibilidades melhores no estado de São Paulo, em obra que seria construída em Serrana. 1900 km de estrada a partir do Piauí. Sua cidade possui encantos, contudo com limites a quem não possui condições adequadas para sobreviver com dignidade. Ele nem alfabetizado foi. A música regional é forte. As festas tradicionais como Reisado, São Gonçalo, Dança do Congo... Do Morro da Mariana, é possível avistar o lugar, de certa forma sem pertencer a ele, pela ausência de igualdade de acesso, no seu caso, de formação educacional e de tratamento aos seus limites intelectuais. “Capital do Mel” com falta de doçura para os empobrecidos. De Serrana para outra obra aqui. Em 2000, voltou para a cidade dele, viu a mãe e os irmãos. Em seguida, retornou no mesmo percurso e trabalho: Serrana e Jundiaí. Do alojamento da obra em nosso município, observou a moça de olhar de resistência e cicatrizes; de dores do passado, mas de recomeços alicerçados em sua esperança. Resolveram permanecer juntos. Os dois precisavam de ombro. Como escreveu Mia Couto: “Tristeza não é chorar. Tristeza é não ter para quem chorar”. Concluída a obra, permaneceu e perdeu o contato com a família. A companheira tentou, por inúmeras vezes, até por programa televisivo, reatar os laços de sangue dele.

Propus a ela tentarmos através da Diocese do local. Já fiz isso. Na Bahia e Manaus obtivemos sucesso. Emocionante quando a distância se rompeu e a saudade se fez presença de ternura.

A companheira se sente no dever de contar à família que aqui foi cuidado por ela, de seus passos, suas alegrias e da despedida no espaço de saúde – apenas um dia internado - ao lhe dizer que estava morrendo. Gostaria também de saber mais sobre sua história de infância. Era reservado, mesmo que perguntassem, não apreciava comentar sobre o passado. Nos últimos tempos, viviam um relacionamento como de mãe e filho.

De outrora, apenas escutou que não brincou e que jamais possuiu um caminhãozinho.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

Comentários

Comentários