Já pensou em viver tudo o que você já viveu?


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Na década de 70, em pleno slogan "Brasil, ame-o ou deixe-o", era eu um pré-adolescente que estudava no antigo Colégio "Dr. José Romeiro Pereira", conhecido por GEVA, o Ginásio da Vila Arens. Lembro-me que, anualmente, a professora de Artes, Regina Toledo, realizava uma exposição de trabalhos de todos os alunos. Numa ocasião, aventurei-me, não sei o porquê, a criar algo com um espelho. "É que Narciso acha feio o que não é espelho", disse Caetano Veloso. O mapa do Brasil, vazado, foi aplicado no espelho e ao seu lado escrevi: O Brasil é a sua cara!

Dias antes de começar a montagem da exposição anual, fui chamado pela professora de História, Elza Costa, que comunicou que minha "obra artística" não seria exibida. Surpreso perguntei a causa da exclusão. E ela me disse que, após um longo questionamento entre todos os professores, optaram, por bem, em não exibi-la, pois temiam que algum censor pudesse visitar o colégio e não aprovasse a tal exibição. "Já pensou se um comunista se olha ao espelho?", disse ela.

Foi esta a primeira vez que a palavra "comunista" foi acrescentada ao meu vocabulário, e passou a representar para mim o significado de algo perigoso. Ou melhor, algo perigoso e frustrante. O que era comunismo? Naquela ocasião não sabia e não me explicaram. O que me restava era criar um outro trabalho.

Em 1979, agora no Colégio "Ana Pinto Duarte Paes", motivados pela professora de Português Ivanira Dadalt, fomos ao teatro assistir "Macunaíma", de Mário de Andrade, montagem inesquecível do diretor Antunes Filho. Atrás de mim, sentados à direita, estavam Chico Buarque e Marieta Severo. À direita, hein! Ao lado esquerdo, um grupo de freiras. Perguntava-me, durante a peça, o que as tais sacerdotisas estavam achando de todo aquele espetáculo recheado de insinuações sexuais e todo o elenco nu. "Macunaíma" foi o marco na minha vida! Ali descobri Antunes Filho. Ali descobri a força do teatro brasileiro. Disse a mim mesmo, ao sair do teatro São Pedro, que um dia, iria trabalhar com aquele diretor.

Como universitário, fui parar no curso de Jornalismo, na PUC - Pontifícia Universidade Católica e, após uma crise de identidade, larguei o curso e ingressei na Letras, da USP - Universidade de São Paulo. Estimulado pelo curso, comecei a escrever textos teatrais. Formei um grupo amador em Jundiaí para montar a peça "Utopia-Gerais". Utopia, uma referência a obra homônima de Thomas Morus e Gerais, uma alusão às Minas. O assunto? A Inconfidência Mineira. Como estávamos nos anos de chumbo da Ditadura, tive que encaminhar o roteiro para a aprovação dos censores. Quando o texto retornou, estava repleto de observações e cortes. Para um jovem sonhador, um banho de água fria.

Toda esta experiência só aumentou minha vontade de prosseguir na carreira teatral. E a frase de Caetano, "é proibido proibir" se tornou meu slogan.

Wagner Nacarato é coordenador de cultura, professor e diretor de teatro

 

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