Solo, em dose dupla ou mesmo com guarda compartilhada, o ‘paternar’ se dá para cada homem como uma experiência única. Mesmo em suas diferentes formas, um ponto é unanimidade entre os homens: tornar-se pai proporciona uma série de emoções nunca sentidas até então.
O comerciante Rafael Baraldi, de 41 anos, conheceu essa avalanche de sentimentos há pouco tempo. Isso porque, em meados de março de 2021, nasceram os gêmeos Gabriel e Cecília. “A notícia da paternidade me invadiu com uma felicidade inexplicável! Desde então, minha vida se transformou em todos os aspectos”, compartilha, ainda eufórico, o pai de primeira viagem que teve que readequar a rotina de trabalho e alguns outros costumes do dia a dia com a chegada dos pequenos. “Antes dos bebês nascerem, após o trabalho eu dava aquela ‘fugidinha’ para o bar com minha mulher ou mesmo com amigos. Já agora, após o expediente, há outras responsabilidades me esperando em casa”, brinca Baraldi.
Mas viver a paternidade não precisa ser sinônimo de deixar a vida pessoal de lado. Segundo um estudo publicado pela Academy of Management Perspectives, homens que dedicam seu tempo aos filhos no dia a dia também sentem-se mais felizes em suas rotinas profissionais e em suas vivências familiares. “Sinto que passei a valorizar mais cada momento da vida, independente da atividade que eu esteja realizando. Ainda que haja essa mudança brusca no cotidiano, ver eles crescerem e descobrirem o mundo não tem preço”, afirma o comerciante que se dedica à paternidade ativa.
De acordo com a psicóloga e especialista em terapia de casais, Hellen Precila da Silva, de 33 anos, o homem ter consciência da importância da participação na criação dos filhos é indispensável. “A atuação do pai, além de contribuir para o fortalecimento do vínculo com o filho, também contribui para o bom relacionamento entre o casal, uma vez que assim, não sobrecarrega apenas uma pessoa da relação”, pontua. E completa. “Essa consciência e protagonismo do homem ao lado da mulher também é essencial para que as próximas gerações compreendam que criar e educar não é uma tarefa da mãe, e sim do casal como um todo”.
Quem coloca isso em prática é o publicitário Mauro César Gomes Pereira, de 52 anos, que, mesmo após o divórcio, fez questão de estar o mais presente possível no desenvolvimento da filha Rafaela Apolônio, de 23 anos. Para ele, a paternidade veio com um desafio: entender e dar suporte às limitações da filha que nasceu com deficiência cognitiva. “Quando a Rafa ainda era bebê notamos que ela não sugava o peito da mãe, não conseguia sustentar a cabecinha e que tinha dificuldades para se locomover, engatinhar e afins. Procuramos ajuda de um profissional para entender esse quadro e descobrimos então que ela tinha esse atraso cognitivo”, explica.
Mesmo com a guarda compartilhada, Mauro se desdobra para poder proporcionar à filha momentos especiais. “Fico com a minha filha três dias por semana, e posso afirmar que são dias muito esperados por mim! Com esse tempo reduzido, acabamos desenvolvendo costumes que se tornaram especiais para nós, como caminhar em parques e, antes da pandemia, ir ao shopping tomar sorvete e frequentar espaços culturais, como cinema e teatro”, compartilha o pai coruja. “Não há nada mais satisfatório”, declara.
A psicóloga explica ainda que é importante que o pai acompanhe os filhos não só na infância, mas que também dê respaldo nas demais etapas da vida. “Cada fase da vida tem suas peculiaridades, desafios e formas de construir e manter uma intimidade. Na infância, por exemplo, o principal desafio dos pais é saber lidar com a impulsividade e a dificuldade que a criança tem de controlar suas emoções intensas, como a raiva e frustração. Já na adolescência, a rebeldia e o desaforo dificultam uma comunicação saudável dentro das relações, fazendo com que muitas vezes seja preciso trabalhar habilidades sociais do jovem”, reitera.
Ao contrário de Mauro e Rafael, o barbeiro Gilberto Oliveira, de 34 anos, tem encarado os desafios da paternidade sozinho já há alguns anos. Pai do João Victor de Oliveira, de 11 anos, e do caçula Pedro Henrique de Oliveira, de 4 anos, ele se desdobra no dia a dia para cumprir sua missão com os meninos. “A mãe dos meninos e eu rompemos nossos laços devido ao vício dela com álcool e, desde então, passei a criar os meninos sozinho. Geralmente é o contrário que vemos né?”, indaga Oliveira ressaltando uma questão que já foi comprovada pelos dados estatísticos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018 cerca de 12 milhões de mães enfrentavam o abandono afetivo. “No meu caso, eu assumi sozinho a responsabilidade de criar meus filhos. Sei que não sou capaz de suprir o carinho de uma mãe, mas enquanto pai faço tudo o que posso por eles”, reflete.
No entanto, para o barbeiro, a vivência ao lado dos filhos tem um significado muito maior. “Ao meu ver, nada acontece por acaso. Vivo ao lado deles 24 horas por dia. Brincamos quando temos que brincar, mas também os ensino e os corrijo para que entendam que há momentos que vão além da diversão”, destaca.
Oliveira acredita ainda que muito do que passa para seus filhos é fruto de sua própria criação. “Meus pais me ensinaram o que é certo e o que é errado e, por isso, me esforço pra ser um modelo de humildade, respeito e honestidade para que meus filhos também vejam essa importância e se tornem homens de bem”, compartilha.