A situação repete-se em diferentes filmes: um homem misterioso chega a uma cidade pequena, com igreja e prostíbulo. Do seu passado ainda pouco sabemos. Ele busca vingança. Ele não se mistura com os criminosos e com a sociedade violenta que ali residem. Vez ou outra tenta resistir a alguma beldade que cruza seu caminho, geralmente uma prostituta que ganha a vida rodeada de homens sujos na mesma localidade.
Ele traz para si o mito do "estranho sem nome", o anti-herói atormentado que vaga pelo mundo. Seria visto em diferentes filmes de um sub-gênero especial, que até hoje reúne fãs ardorosos. Falo do faroeste spaghetti, também conhecido como bang-bang à italiana.
Para compreender o surgimento desse sub-gênero e sua produção fora dos Estados Unidos - ainda que muitos contassem a história desse país, agora visto por lentes de fora -, é preciso voltar ao faroeste clássico americano. Nos anos 1950, o gênero - a exemplo do musical - estava perdendo espaço e alguns de seus criadores - como John Ford e Raoul Walsh - fariam seus últimos faroestes nos anos 1960, quando estes já pareciam ultrapassados.
O que antes simbolizava a própria história de uma nação, contada pelos vencedores, ou seja, pelo homem branco, não fazia muito sentido aos jovens de jaqueta e gel no cabelo que curtiam rock e protagonizavam uma revolução cultural. Entre outros pontos, esses jovens questionavam o heroísmo e o patriotismo que impregnam esses filmes.
Enquanto isso, na Europa, uma linhagem de faroestes começou a ser realizada no terreno do cinema moderno, destoando claramente dos primos chiques da América: eram filmes politicamente incorretos, agressivos, com personagens feitas para desagradar e dispostos a contestar o lugar do homem branco como provedor da prosperidade.
Esse período vai do início dos anos 1960 a meados dos anos 1970. O primeiro filme considerado um faroeste spaghetti é "Almas Selvagens", de Michael Carreras. Contudo, o responsável por popularizar o subgênero foi, sem dúvida, "Por um Punhado de Dólares", de Sergio Leone, responsável por transformar seu ator, um certo Clint Eastwood, em astro.
Leone e outros nomes importantes, como Sergio Corbucci, Damiano Damiani, Sergio Solima e Giulio Petroni, fizeram obras marcantes sem renegar as características nascidas dos faroestes clássicos. Seus filmes estão repletos delas. Como não pensar em "Matar ou Morrer" ao assistir à extraordinária abertura de "Era uma Vez no Oeste", na qual Charles Bronson é aguardado por três matadores de aluguel em uma estação de trem?
Revi recentemente "Django", de Corbucci, um dos melhores faroestes spaghetti, lançado recentemente em bela cópia em Blu-ray no Brasil pela Versátil Home Vídeo. Todo cinéfilo que se preze conhece a personagem solitária (Franco Nero) arrastando seu caixão pela lama, a música (depois levada a "Django Livre", de Tarantino), as sequências de ação e, sobretudo, o duelo final no cemitério, com o protagonista com as mãos machucadas.
Corbucci ainda faria outros ótimos faroestes, como "Os Cruéis", que tem a brasileira Norma Bengell no elenco, e "O Vingador Silencioso". De Leone, vale destacar também "Três Homens em Conflito" e "Quando Explode a Vingança"; de Solima, "O Dia da Desforra"; de Petroni, "A Morte Anda a Cavalo" e "Tepepa". Escolha qualquer um e perceba o quanto o faroeste, apesar de repetir símbolos e situações (o pistoleiro solitário, a cidade castigada por um carrasco, o duelo olho no olho), detido a um tempo e a um espaço, é inesgotável.
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com