Algumas histórias não morrem


| Tempo de leitura: 3 min

Um homem pobre, sem rumo, termina em um restaurante à beira da estrada. Nada sabemos sobre ele. Não inspira emoções, nem confiança. Logo ele torna-se amigo do dono do comércio e conhece a mulher do homem - bela, atraente, mais jovem. O que vem depois é previsível: eles apaixonam-se e decidem eliminar o marido dela.

O casal nada tem de confiável. Ambos têm conflitos e um passado problemático. São cúmplices de um crime e não conseguem sustentá-lo, vítimas da cobiça e do desejo pelo outro - o mesmo desejo que os levou ao crime. Essa história foi contada diferentes vezes. Antes de Hollywood adaptar "O Destino Bate à Sua Porta", do livro de James M. Cain, houve uma versão italiana, de 1943, dirigida por Luchino Visconti.

"Obsessão" é o primeiro longa de Visconti, considerado por muitos estudiosos como o primeiro filme neorrealista. Tem Clara Calamai e Massimo Girotti nos papéis centrais - ela como a dama desejada, perdida no mapa, ele como o recém-chegado viajante. Na versão hollywoodiana, lançada três anos depois, o papel feminino é de ninguém menos que Lana Turner; o do viajante fica a cargo de John Garfield, um especialista em perdedores.

Ainda nos anos 1940, Billy Wilder e Raymond Chandler adaptaram outra história de Cain para as telas. O resultado foi "Pacto de Sangue", um dos melhores filmes noir de todos os tempos e com semelhanças em relação a "O Destino Bate à Sua Porta". No seu centro também está um perdedor, o vendedor de seguros (Fred MacMurray) convencido pela amante (Barbara Stanwyck) a matar o marido dela. A ideia é ficar com a bolada do seguro de vida do homem. Nos dois casos, amantes tramam a morte do estorvo por dinheiro.

Com algumas variações, essas histórias sempre estiveram por aí - em filmes, séries e novelas. Dão bom caldo ao folhetim. Em 1981, "O Destino Bate à Sua Porta" ganhou nova versão, com Jack Nicholson, Jessica Lange e direção do recém-falecido Bob Rafelson. No mesmo ano, Lawrence Kasdan refez "Pacto de Sangue" como "Corpos Ardentes" e lhe deu outro encerramento, ainda mais surpreendente. Na tela, William Hurt e Kathleen Turner.

Quando eu achava que as histórias de Cain haviam sido deixadas de lado, deparo-me com "Jericó", produção alemã de 2008 dirigida pelo ótimo Christian Petzold, que só tive a oportunidade de ver recentemente. O título faz alusão à cidade palestina onde se encontra o Monte das Tentações. De acordo com o Novo Testamento, é o local em que Jesus teria sido tentado pelo Diabo, cujas muralhas teriam sido derrubadas pelos israelitas.

Petzold leva-nos a um soldado alemão egresso da guerra no Oriente Médio após má conduta. Ele torna-se funcionário de um poderoso empresário palestino, que vende produtos para lojas administradas por imigrantes. O protagonista (Benno Fürmann) apaixona-se pela mulher do patrão (Nina Hoss). A certa altura, o casal pensa em matá-lo.

As muralhas transpostas nesse belo filme são humanas e o desejo, em algum ponto, perde espaço para o acaso, para o irônico e trágico final com o qual o casal terá de viver para sempre - e cuja continuidade só podemos imaginar. É como se Petzold negasse-nos a resolução dramática, passional, e preferisse o amargor da realidade.

Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com

Comentários

Comentários