O Jornal de Jundiaí de 30 de setembro publicou um artigo do Professor Fernando Bandini sobre Anísio Teixeira, destacando sua importância para a educação. O artigo é um relato da trajetória desse grande educador brasileiro.
Para complementar a história, trago outras lembranças, pois há personagens na educação brasileira que não receberam o destaque merecido.
Refiro-me a Fernando de Azevedo que também aparece nos livros de educação, mas de maneira mais discreta. É sempre lembrado como um dos líderes da Escola Nova.
É pouco.
Porque sua contribuição para a educação brasileira — e particularmente para a paulista — foi de uma dimensão que a memória parece ter deixado em segundo plano.
Fernando de Azevedo não foi apenas um intelectual que escreveu sobre educação. Foi também um formulador e gestor de políticas educacionais. Dirigiu a instrução pública no Distrito Federal entre 1927 e 1930 e, em seguida, a educação paulista.
Foi também o redator e primeiro signatário do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, publicado em 1932, documento que se tornou uma das referências fundamentais do movimento de renovação educacional brasileira.
Foi o responsável direto pela concepção e elaboração do Código de Educação do Estado de São Paulo de 1933. Documento pouco lembrado, mas de uma importância impar para o Estado. Era a reorganização do conjunto de normas e instituições que haviam se desenvolvido de maneira fragmentada.
O Código procurava articular educação pré-primária, primária, pré-vocacional, profissional, secundária e superior. Azevedo não estava perguntando apenas: “como ensinar melhor?” Estava perguntando: “que sistema educacional precisamos construir para que uma nova concepção de educação possa existir?”
Segundo ele, uma escola nova exigia um professor novo, que não poderia ser formado como o professor tradicional.
Por isso, a formação docente ocupa lugar central na sua obra. O Instituto de Educação foi reorganizado no Estado e a formação dos professores passou a incorporar conhecimentos como psicologia educacional, biologia educacional, sociologia educacional, história da educação e prática de ensino. Não era uma mudança meramente curricular. Era uma mudança na própria concepção da profissão docente.
O professor não deveria ser apenas alguém que dominava determinado conteúdo e o transmitia aos alunos. Precisava compreender a criança, seu desenvolvimento, o ambiente social em que vivia e os processos envolvidos na aprendizagem.
Há algo surpreendentemente atual nessa concepção.
Em 1934, foi criada a Universidade de São Paulo. Fernando de Azevedo participou diretamente da elaboração do projeto e foi relator do anteprojeto e do projeto de decreto que instituiu a universidade.
A USP nascia com uma concepção de universidade que não se limitava à formação profissional.Pesquisa científica, produção de conhecimento e formação intelectual faziam parte de seu projeto.
A reorganização da educação paulista em 1933 e a criação da USP em 1934, com a participação direta de Fernando de Azevedo não são dois episódios desconectados. Há uma mesma ideia por trás deles: a educação precisava deixar de ser apenas transmissão de conteúdos e tornar-se parte de um projeto de produção de conhecimento, formação profissional e transformação cultural.
É uma visão muito mais ampla do que aquela que costuma aparecer quando Azevedo é apresentado como "um dos pioneiros da Escola Nova".
Fernando de Azevedo não foi um herói, nem esteve isento de contradições. Foi um homem do seu tempo, mas sua atuação foi indispensável para erguer as bases da escola pública e da universidade no Brasil.
Francisco Carbonari foi secretário de Educação de Jundiaí