OPINIÃO

Juros que sufocam indústria


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O cenário macroeconômico atual impõe um fardo severo a quem produz no país, sufocando o planejamento financeiro corporativo e elevando a pressão sobre as contas das fábricas. O impacto dessa realidade foi rigorosamente medido pela 3ª edição da Consulta Empresarial sobre Juros, Créditos e Custos Financeiros, realizada em agosto pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) com 140 empresas industriais de 28 setores produtivos em 21 estados da federação. Os dados revelados neste último dia 15,  mostram que 32% das empresas esperam alta no saldo da dívida bancária. A necessidade de financiamento operacional é alarmante em frentes essenciais, atingindo 56% em contas a pagar, 50% em estoques e 49% por cento em contas a receber.

A vulnerabilidade estrutural se conecta diretamente à alta da taxa Selic, o principal termômetro para o custo do dinheiro no país. O Brasil enfrenta um contexto desafiador, ostentando o maior patamar de juros reais do planeta (13,75%, segundo divulgação do Comitê de Política Monetária no dia 16). Essa taxa elevada encarece o crédito na cadeia produtiva, colocando a indústria nacional em desvantagem competitiva frente às principais economias globais. O que o estudo da CNI nos mostra é que o efeito negativo dos juros vai além dos investimentos, paralisando contratações, travando a troca de maquinários e estrangulando a capacidade produtiva, visto que 57% das empresas consultadas preveem queda na porcentagem de lucro líquido em relação ao faturamento total.

Vale dizer que uma avaliação técnica do ambiente de negócios revela alguns escassos sinais de alívio e resiliência estrutural. Apesar da pressão financeira, houve uma considerável queda na proporção de indústrias que esperavam o aumento do endividamento bancário em agosto se comparado a junho, quando o índice desfavorável alcançava 45% por cento. Da mesma forma, o percentual de empresas que sofriam com a expectativa de perda de margem líquida recuou de 64% em junho para 57% em agosto, demonstrando que a margem de manobra corporativa está se reajustando.

Para compreender a raiz desse aperto, é preciso olhar para a taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia), criada em 1989. Ela funciona como a taxa básica de juros da economia, servindo de referência para todas as demais taxas do mercado financeiro. Sob a ótica do Banco Central (BC), o principal motor para a elevação desse índice é o controle da inflação. Quando a autoridade monetária identifica pressões inflacionárias decorrentes de desajustes fiscais, incertezas globais ou aquecimento excessivo da demanda, a elevação da Selic é acionada para conter o consumo e frear a alta generalizada de preços. Mas a verdade é que, no cenário atual, após um ciclo de reajustes e manutenção em patamares contracionistas para ancorar as expectativas frente ao avanço inflacionário, a taxa segue em níveis ainda muito elevados, impondo o pesado custo financeiro que a atividade industrial brasileira agora relata com tanta urgência.

Em suma, superar este ciclo adverso exige uma sintonia fina e coordenada entre a estrita responsabilidade fiscal do governo e uma política monetária calibrada com precisão pelo Banco Central. A estabilidade macroeconômica e a previsibilidade regulatória são bases de sustentação indispensáveis para que o crédito volte a fluir de maneira saudável, aliviando o caixa das empresas. Somente com a convergência desses importantes fatores estruturais e institucionais será possível destravar de vez a competitividade sistêmica e assegurar o firme, amplo e sustentável crescimento de toda a indústria brasileira.

FRANCESCONI JÚNIOR é primeiro vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp

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