Quando estive à frente da Secretária Municipal da Educação, as escolas participavam de projetos para melhorar a aprendizagem dos alunos, nas mais variadas áreas. Um deles chamava-se “Intercâmbio” e destinava-se a compartilhar com toda a comunidade, o que estava sendo desenvolvido nas escolas da rede municipal.
Na apresentação do projeto, havia um pequeno texto que constantemente retomo:
“Vocês sabem qual é a primeira coisa que fazemos quando algo muito bom acontece? Isso mesmo, contamos para alguém. Parece que a graça da conquista reside, em parte, no ato de poder partilhá-lo com outras pessoas. O mérito da ação está lá, de qualquer maneira, ainda que silenciosa, mas a graça ... ah, a graça é dividir.”
Nunca deixei de gostar dessa ideia e deste texto. Ele parte de uma observação simples, mas que sempre passa despercebida: a alegria pede testemunhas.
Quando penso nas alegrias que tive na vida, noto que nenhuma delas foi vivida em silêncio. Quando tirava boas notas, corria para mostrar a meus pais. Ou quando passei no vestibular, ou consegui uma medalha no esporte ou ainda quando me apaixonei e decidi me casar, ou quando nasceram meus filhos e netos, corria sempre telefonar para um amigo. Não conseguia guardar a informação só para mim. Tinha que dividir com alguém. Parece que uma grande vitória sentida no isolamento não é completa.
Talvez seja por isso que as redes sociais, tenham se tornado a exposição de notícias. Mudou o meio, mas não a necessidade de dividir a alegria.
O mais interessante é que essa atitude atravessa séculos.
Diz a lenda que, quando descobriu o princípio que leva seu nome, Arquimedes saiu nu pelas ruas de Siracusa gritando "Eureka!" – "Encontrei!". Uma descoberta ganha vida quando encontra alguém que a escute.
Algo semelhante aconteceu, mais de dois mil anos depois, quando Crick e Watson compreenderam a estrutura do DNA. Conta a tradição que Crick teria entrado num pub e gritado aos presentes: "Descobrimos o segredo da vida."
Um exemplo icônico é o do soldado Filepídes que em 490 a.C., após a vitória grega contra os persas na Batalha de Maratona, correu cerca de 40 quilômetros até Atenas para anunciar o feito. Ao chegar à assembleia, anunciou "Nenikékamen!" ("Vencemos!") e caiu morto de exaustão logo em seguida.
E há exemplos mais próximos de nós: os sinos das igrejas. Durante séculos, eles não tocaram apenas para anunciar as celebrações religiosas. Tocavam para comunicar boas notícias: o fim da guerra, a eleição do papa, a assinatura da paz. A alegria precisava de um som que a espalhasse pela cidade. Da mesma forma, os fogos de artifício, em dias de festa, usam o som para anunciar a todos uma comemoração.
O futebol nos traz a imagem mais espontânea desse sentimento. Nenhum jogador marca um gol e comemora sozinho. Ele abraça os companheiros, aponta para a arquibancada, procura a família. A alegria exige um abraço.
A felicidade nunca é inteiramente individual. As conquistas nos pertencem, mas a alegria pertence também a quem a celebra conosco. Não damos uma boa notícia apenas para informar. Contamos para revivê-la. Quando alguém sorri conosco, a alegria acontece de novo.
No fundo, diante de uma grande realização, acabamos repetindo o gesto do velho Arquimedes, procurando alguém a quem possamos dizer com simplicidade: "Eureka!"
Francisco Carbonari é ex secretário de Educação