A investigação da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master identificou, segundo os documentos analisados, indícios de que o ministro Alexandre de Moraes teria participado diretamente das negociações envolvendo um contrato entre o banco e o escritório Barci de Moraes, ligado à família do magistrado.
De acordo com a PF, a análise dos metadados de uma das minutas do contrato mostrou que a última modificação do arquivo havia sido realizada pelo usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
Dias depois, uma versão final do documento foi encaminhada ao banqueiro Daniel Vorcaro por Viviane de Moraes. Novamente, os investigadores encontraram nos metadados do arquivo uma possível ligação com o ministro. O documento, enviado em 17 de janeiro de 2024, havia sido modificado pela última vez pelo usuário “Ministro Alexandre de Moraes” em 15 de janeiro, às 23h04.
Pagamento era tratado como prioridade no Banco Master
As mensagens analisadas pela investigação também indicam que os pagamentos ao escritório Barci de Moraes recebiam tratamento prioritário dentro do Banco Master.
Segundo a PF, Vorcaro orientou funcionários para que o repasse “não pode atrasar um dia” e classificou o pagamento como “o pgto mais importante que temos”.
As parcelas brutas previstas no contrato eram de R$ 3.422.268,14 por mês, considerando a incidência de tributos. Em mensagens destinadas à equipe responsável pelos pagamentos, Vorcaro autorizou que a quitação fosse realizada “sem nota” e “do jeito que for”, segundo a investigação.
Em outubro de 2025, o banqueiro também teria orientado que o pagamento ao escritório não fosse feito por Pix. Ao justificar a decisão, teria afirmado apenas: “Não é bom”.
Contrato envolvia aeronaves e bens de luxo
Os documentos analisados pela PF indicam que as tratativas para o contrato começaram em 13 de maio de 2025, quando Vorcaro enviou uma minuta ao advogado Leonardo Palhares, do Banco Master.
Três dias depois, Palhares teria apresentado duas alternativas para a estrutura do negócio. Uma delas previa a entrega dos ativos e a transferência das quotas, com possibilidade de recompra por R$ 1 caso o contrato de honorários não fosse cumprido. A segunda estabelecia que a transferência dos ativos ocorreria somente após o cumprimento do contrato.
Vorcaro teria rejeitado a primeira opção, afirmando: “Opção 1 não é o negócio” e que “Os ativos são deles... já”.
Segundo a PF, os ativos mencionados estavam relacionados às empresas F24 e F53. A primeira seria proprietária de uma aeronave Legacy 650, enquanto a segunda estaria em processo de aquisição de um helicóptero EC 155 B1, fabricado pela Airbus Helicopters.
Durante as negociações, Vorcaro também teria solicitado que informações sobre as aeronaves e sobre a Prime You, empresa utilizada pelo banqueiro para compartilhamento de bens de luxo, fossem encaminhadas à esposa de Moraes.
Mensagens eram enviadas como visualização única
De acordo com a investigação, as comunicações entre Vorcaro e Alexandre de Moraes teriam ocorrido de uma maneira incomum.
O banqueiro escrevia as mensagens no bloco de notas do celular, fazia uma captura de tela e encaminhava o conteúdo pelo WhatsApp como mensagem de visualização única.
Segundo a PF, Moraes utilizava procedimento semelhante para responder. As conversas originais não foram recuperadas, mas os investigadores localizaram as anotações que teriam servido de base para as mensagens.
Conversas também citam investigações contra o Banco Master
A investigação aponta ainda que, em 30 de outubro de 2025, Vorcaro teria feito a primeira solicitação a Moraes relacionada ao avanço das investigações envolvendo o Banco Master.
Em uma das mensagens recuperadas, o banqueiro teria pedido que fosse reforçada junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, a orientação para que integrantes de escalões inferiores — em referência a delegados e procuradores — não tomassem medidas que prejudicassem o banco.
Segundo a PF, Vorcaro teria usado a expressão de que era necessário evitar que “ninguém de baixo” fizesse uma “sacanagem” com o Banco Master.
Pedido ocorreu um dia antes da prisão
Outro episódio destacado pelos investigadores ocorreu em 16 de novembro de 2025, um dia antes da primeira prisão de Vorcaro.
Às 16h57, o banqueiro teria perguntado a Moraes se Andrei Rodrigues teria condições de adiar o cumprimento das medidas cautelares que estavam previstas para ocorrer horas depois.
Os registros fazem parte do conjunto de documentos e mensagens analisados pela Polícia Federal na investigação que apura possíveis irregularidades envolvendo o Banco Master e as relações do banqueiro com autoridades e agentes públicos.
As conclusões apresentadas pela PF representam elementos de investigação e deverão ser submetidas à análise das autoridades responsáveis pelo caso.