OPINIÃO

Para iludir as dores


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A menina está com oito anos e possui olhos da cor de mel, mas neles não se percebe colmeia. Também não há flores. Olhar de solidão e  questionamento.

Conheci-a na barriga da mãe. Como é bom afagar crianças na barriga materna e lhes desejar uma porção de coisas bonitas, proteção, aconchego e virtudes pelas quais a vida vale a pena.

Acompanhei, pela mãe, a história deles. Ela sempre me pedia orações. Veio de terra distante conduzida pela vontade de acertar. Trazia dois filhos pequenos. Aqui, com o atual companheiro, veio um menino e depois a menina.  

         O menino mais velho entrou na adolescência influenciado por garotos que descobriram, na ilicitude, uma maneira de viver diferente. Pura adrenalina. Aquilo que a mãe buscava não aconteceu. Moravam em um aglomerado de casas sem conforto e privacidade. O adolescente, em lugar da miséria daqui, preferia a de lá. Pelo menos brincava na areia e no mar. Fazia castelos de areia. No sol, brilhavam. O último construiu na véspera de vir para cá. Fez perto das águas para as ondas levarem. A mãe prometia que seria tudo diferente. Um paraíso os aguardava. Só desapontamento. De vez em quando, vinha uma vontade louca de correr na areia, caminhar no mar e trazer de volta o seu castelo. 
       

     Foi na vida louca que chegou à Fundação Casa. Na primeira e na segunda vez, ficou pouco, mas na terceira, ao se envolver numa briga para roubar, deixaram-no mais tempo. No Fórum lhe davam muitos conselhos. Ignorava. Queria que lhe trouxessem o seu castelo de areia. Talvez conseguisse terminá-lo e morar nele. 


       Com a menina era carinhoso. Comprava pirulitos de morango. Ela sofria em seus encarceramentos. Faltava o seu abraço preferido, chamando-a de Princesa do Castelo Encantado. Os sentimentos generosos dele depositava na irmã.

      A mãe me contou que agora, completando 18 anos, embora continue na mesma toada, toma mais cuidado, porque teme ir para um presídio. Se for, fica sem visita. Ela não irá, pois não aguenta mais. Causou problemas a partir do 8º. ano na escola e fez parte das estatísticas de evasão escolar.

      Procurou-me com a notícia de que o companheiro foi preso. Pediu-me para localizar o número do telefone do estabelecimento penitenciário para o qual foi transferido. Pretende visitá-lo e levar a filha. Já passou por outra cadeia e a menina ia com ela. Fazia birra no dia de se deslocar para o local. Levantavam de madrugada para pegar a condução. Depois ficavam em uma fila imensa e ela detestava ficar “presa”. Pensava que, se houvesse rebelião, não conseguiriam sair.

       Além do mais, ele chegava alcoolizado em casa, chutava a porta, derrubava cadeira... Era bruto com todos. Ela sentia mais afeto pelo irmão. Uma vez, o pai rasgou todos os seus desenhos e jogou fora seus lápis de cor. Era uma paz com ele preso.

        Na escola vai mais ou menos. Tem dificuldade em ler e em fazer continhas. A professora passa dever de casa e diz para os pais ajudarem. Mas como? A mãe só sabe assinar o nome, o irmão mais velho está “trabalhando”, o pai detido. Os outros dois irmãos não têm paciência com ela. Passa vergonha na escola.

      Encontrei-a um dia desses na pracinha perto de sua casa, em meio a outras crianças. Estava parada, quieta, em frente a uma árvore. Perguntei-lhe se estava pensando. Respondeu-me que ela não pensa, porque só vem coisa ruim na cabeça. Se não pensa, não sonha. 
      Que judiação! Com oito anos, tenta fugir dos pensamentos na ilusão de acalmar suas dores.

 

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista

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