OPINIÃO

O domingo em que o sol não nasceu


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Caro leitor, há datas no calendário que não pertencem ao tempo comum. São dias moldados pelo afeto, desenhados para que a rotina abra espaço ao abraço. O Dia dos Pais nasce com essa promessa bonita: a celebração do porto seguro, do homem cuja mão grande ensina a passos pequenos como caminhar pelo mundo. Mas neste último domingo, o calendário mentiu. A promessa se desfez em silêncio e sangue, deixando enlutada uma sociedade inteira que hoje tenta, sem sucesso, entender o imensurável.

Dois corpos pequeninos. Duas vidas interrompidas antes mesmo que pudessem compreender o significado da palavra crueldade. E o autor do ato? Aquele que deveria ser o escudo. Aquele que recebeu o privilégio do amor incondicional que só uma criança sabe oferecer.

É impossível escrever sobre esta tragédia sem sentir um nó na garganta e um peso desconfortável no peito. A história, que chocou o país, nos confronta com o ápice da perversidade humana: a frieza absoluta. Não houve hesitação, não houve o freio moral do instinto paterno. Houve apenas a escuridão de uma mente que decidiu roubar o futuro de duas meninas na data exata em que seu único dever era celebrá-las.

Caro leitor, o que se passa na cabeça de um pai que olha nos olhos de suas filhas e enxerga ali não o amor, mas um meio para espalhar a dor? A psicologia tentará dar nomes, enquadrar em diagnósticos, buscar justificativas na escuridão da psique. Mas para o cidadão comum, para a mãe desolada, para os vizinhos que ouviam as risadas das meninas no quintal, as explicações técnicas de nada servem. Elas não preenchem o vazio das camas feitas. Não calam o silêncio estarrecedor que agora habita aquele lar.
  
A frieza desse ato nos desestabiliza porque quebra o contrato social mais primitivo que existe. Aprendemos que a natureza protege os seus. O pássaro enfrenta a tempestade pelo ninho; a fera arrisca a vida pelos filhotes. Quando um pai mata suas filhas, o tecido da própria realidade parece se rasgar. Fomos testemunhas não apenas de um crime hediondo, mas do colapso da humanidade em sua forma mais pura.

Enquanto a justiça dos homens corre para aplicar as penas previstas na lei, a nós,  espectadores estupefatos, resta o luto coletivo. Um luto pelas duas garotas que nunca saberão o que é crescer, apaixonar-se, escolher uma profissão ou envelhecer. E um luto, também, pela perda da nossa inocência como sociedade, que descobre, da pior maneira, que o perigo nem sempre veste a máscara de um estranho na rua. Às vezes, ele dorme no quarto ao lado.

Que as orações, os pensamentos e o acolhimento alcancem essa mãe e todos os familiares que hoje carregam uma dor infinita. E que a memória dessas duas pequenas luzes não seja apagada pela sombra daquele que deveria ter sido seu protetor. O domingo passou, mas o sol, para aquela família, demorará muito tempo para voltar a nascer. Deixo aqui o meu mais profundo sentimento de pesar .Que essas duas princesas descansem em paz .

Micéia Izidoro é psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga Clínica e pós-graduada em ABA

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