OPINIÃO

Um bom exemplo que atravessou governos


| Tempo de leitura: 3 min

Um problema recorrente no Brasil, quando se fala de políticas públicas, é a descontinuidade. A cada troca de gestão, muitos bons projetos são simplesmente interrompidos. Alguns apreciam essa política de terra arrasada e pretendem, com ela, desqualificar adversários, como se recomeçar do zero fosse por si só um mérito.

Dia desses, ao ver um vídeo em que minha querida amiga Daniela da Câmara conversa com dois pré-candidatos do Partido dos Trabalhadores sobre o Espaço Expressa, onde ficavam as oficinas da Companhia Paulista, na Avenida dos Ferroviários, algo me chamou a atenção: o que foi feito ali continua dando frutos.

Aquele conjunto de galpões e trilhos esteve por muito tempo vazio, entregue ao abandono. Foi sendo ocupado passo a passo, ao longo de anos, por administrações diferentes que reconheceram nele o mesmo valor. O início se deu na gestão de Miguel Haddad, com a instalação do Poupatempo, primeira grande presença pública a devolver movimento ao lugar. Em seguida veio a Fatec, no governo de Ary Fossen, trazendo para as antigas oficinas a formação técnica e a vida universitária. Os governos posteriores mantiveram os projetos e ampliaram o uso da área, tornando-a cada vez mais frequentada e mais importante na vida da cidade.

Na gestão de Luiz Fernando Machado veio uma das realizações mais felizes desse percurso: a instalação do Museu Ferroviário. Um equipamento cultural que contou com a atuação decisiva de Paulo Vicentini, então diretor do Departamento de Museus, e de Marcelo Peroni, então gestor de Cultura, ao lado de toda a equipe do setor. Foi um trabalho espetacular, do pensamento cenográfico à elaboração de exposições muito significativas, com grande afluência de público. O que aquele lugar é hoje se deve a essas pessoas e, senão principalmente, ao valoroso quadro técnico dos museus da cidade, profissionais que (ainda) permanecem quando os mandatos passam.

Parte central dessa história é a recuperação do acervo e da memória ferroviária, um patrimônio que corria o risco de se perder no silêncio e na ferrugem. Locomotivas, ferramentas, documentos, fotografias e sobretudo histórias de vida foram resgatados e devolvidos ao convívio de Jundiaí. Entre elas, merece especial atenção a lembrança dos trabalhadores afrodescendentes que ali deixaram suor, saúde e não raras vezes a própria vida, e cuja presença por muito tempo permaneceu à margem dos relatos oficiais. Reconhecer esses nomes é um ato de justiça histórica, e é o que dá densidade humana a um museu que poderia se limitar a máquinas e trilhos.

Escrevo isto como quem anota responsabilidades, e não apenas louros. Que fique claro quem assumiu, quem sustentou e quem cuidou, para que no futuro também percebamos a importância do que essas pessoas realizaram.

Está aí a lição que aquele lugar oferece à cidade. Uma boa ideia sobreviveu a vários governos, foi além dos interesses particulares de cada momento e seguiu adiante. É assim que uma política pública se torna patrimônio de todos.

O complexo continua em uso, e vale lembrar que espaços assim não se sustentam sozinhos. Pedem visão e renovação constante. Manter indefinidamente a mesma mostra, por exemplo, não basta. É preciso oferecer sempre algo novo, capaz de atrair as pessoas e de fazê-las voltar.

O que foi feito ali continua dando frutos. Que as próximas administrações entendam que esse patrimônio não pertence a nenhuma delas, e sim a Jundiaí, e que cuidar do que existe é tão importante quanto inaugurar o que ainda virá. Só esperamos que continue.

Samuel Vidilli é cientista social

Comentários

Comentários