De quatro em quatro anos, acompanhando a maior competição esportiva do planeta, vem o já tradicional álbum de figurinhas da Copa do Mundo de Futebol. A ocasião mobiliza não apenas crianças e adultos de diferentes faixas etárias, mas também um mercado de quase US$ 1,5 bilhão, gerando inúmeros desdobramentos econômicos e sociais.
As primeiras coleções de figurinhas surgiram entre o final do século XIX e o início do século XX, período em que as técnicas de impressão em larga escala foram aprimoradas. Época esta em que a imagem desempenhava papel fundamental na difusão da informação, especialmente diante do elevado índice de analfabetismo da população.
Naquele tempo, não existia a venda de pacotes de figurinhas. Os cromos eram distribuídos como brindes de produtos, como cigarros, balas e sabonetes. Considerada o primeiro álbum do país, a publicação da tabacaria Estrela de Nazareth, com bandeiras do mundo, surgiu por volta de 1900.
No universo do futebol, os colecionáveis da Fábrica de Balas A Americana deram início a essa tradição, especialmente com o que é considerado o primeiro álbum de Copa do Mundo da história, lançado por ocasião da Copa de 1950, realizada no Brasil. A partir de 1970, a Panini passou a se destacar nesse mercado, e seus produtos se transformaram, ao longo dos anos, em um hábito compartilhado por pessoas de diversos países.
A tiragem de 2026 é a maior da história, já que a competição passou de 32 para 48 seleções. Assim, são 980 figurinhas para completar o álbum, quase 46% a mais do que em 2022. Engana-se, porém, quem pensa que esse aumento assustou os consumidores.
A Panini, detentora dos direitos para comercializar os cromos junto à FIFA, prevê faturamento bilionário nesta edição. Para atender à demanda, mantém no Brasil uma operação que funciona 24 horas por dia, confeccionando 11 milhões de figurinhas diariamente para abastecer a América Latina. Além disso, a cadeia produtiva movimenta milhares de empregos diretos e indiretos, envolvendo fábricas, logística, distribuição e varejo.
No campo do Direito Autoral, as federações e entidades representativas dos atletas negociam acordos coletivos para ceder o uso da imagem dos jogadores. Há, ainda, licenças concedidas para a utilização dos escudos e demais marcas das seleções. Os valores não são divulgados, mas estima-se que movimentem milhões de dólares. Nesse contexto, são crescentes, também, os golpes relacionados à venda de itens falsificados.
O sucesso dos álbuns de figurinhas, apesar do alto custo, pode ser explicado por diferentes fatores. Um deles é o sentimento de pertencimento: à medida que as pessoas ao redor passam a adquirir os produtos, surge a vontade de não ficar de fora da tendência. Soma-se a isso a nostalgia dos adultos, que acabam colecionando e incentivando os filhos a seguirem seus passos.
No que diz respeito à infância, é gratificante ver as crianças fora das telas, interagindo durante as trocas de figurinhas ou nas partidas de “bafo”, desenvolvendo habilidades motoras finas ao abrir os pacotes e colar os cromos, e adquirindo conhecimentos de história e geografia.
Em um mundo cada vez mais digital, o álbum de figurinhas da Copa do Mundo é capaz de unir gerações, estimular a convivência social e gerar o compartilhamento de experiências. Talvez seja justamente essa combinação de memória afetiva, interação humana e paixão pelo futebol que explique por que esse hábito continua atravessando décadas e conquistando novos adeptos.
Daniel Orsini Martinelli É Advogado, presidente da OAB Jundiaí e membro da Academia Jundiaiense de Letras Jurídicas