OPINIÃO

Plantar árvores, garantir o futuro


| Tempo de leitura: 3 min

Jundiaí já demonstrou, em outros momentos de sua história, que é capaz de tomar decisões ambientais ousadas. A despoluição do Rio Jundiaí, iniciada por visionários quando ainda parecia improvável recuperar um rio degradado, é uma dessas provas de que uma cidade pode escolher outro destino quando une conhecimento técnico, vontade política e pressão da sociedade. O tombamento da Serra do Japi, em 1983, outro marco histórico ambiental. O problema é que, diante da emergência climática atual, ainda parecemos presos a respostas pequenas para um desafio que já se tornou imenso.

A necessidade de arborização em Jundiaí não é mais uma pauta estética, paisagística ou romântica. É uma questão de saúde pública, justiça urbana e adaptação climática. A cidade sente, ano após ano, temperaturas mais altas, períodos secos mais agressivos, enchentes mais frequentes e uma diferença cada vez mais evidente entre bairros bem arborizados e regiões onde o concreto, o asfalto e a ausência de sombra tornam a vida cotidiana mais dura. Quem espera ônibus sob sol forte, quem caminha por calçadas sem árvores, quem vive em bairros densos e pouco verdes sabe que o calor não é distribuído de forma igual.

Estudos sobre ilhas de calor, inclusive levantamento da Unesp já discutido em Jundiaí, mostram que áreas com maior adensamento urbano e menor cobertura vegetal tendem a registrar temperaturas mais elevadas, especialmente nos meses secos e também no período noturno, quando o concreto continua devolvendo o calor acumulado ao longo do dia. Isso significa que plantar árvores não é apenas embelezar avenidas. É reduzir temperatura, melhorar a qualidade do ar, ampliar conforto térmico, proteger idosos, crianças e trabalhadores expostos ao calor e tornar a cidade mais habitável.

O debate precisa sair da lógica da árvore plantada em evento comemorativo e entrar na lógica de política pública permanente, com metas, orçamento, manutenção, escolha adequada de espécies, planejamento por bairro e monitoramento por mapas de calor. Não basta plantar onde já há estrutura, visibilidade e facilidade de manutenção. É preciso olhar para as periferias, para os corredores de ônibus, para os bairros com menos sombra, para as escolas, unidades de saúde, praças secas e ruas onde o pedestre foi historicamente esquecido.

A Serra do Japi, patrimônio ambiental de valor incalculável, continua sendo uma espécie de pulmão e regulador climático da cidade, mas não pode ser tratada como álibi para a falta de verde urbano. Preservar a Serra é indispensável, assim como proteger nascentes, fragmentos de mata e áreas de recarga hídrica. Mas a vida diária acontece também no Centro, nos bairros, nos trajetos a pé, nas calçadas estreitas, nos pontos de ônibus e nos espaços públicos onde a ausência de árvores transforma a cidade em uma superfície hostil nos dias de calor extremo.

Jundiaí precisa de um plano ambicioso de arborização urbana, com prioridade para os territórios mais vulneráveis ao calor. Precisa saber onde falta sombra, onde a temperatura é mais alta, onde vivem as populações mais expostas e quais intervenções podem produzir resultado mais rápido. A tecnologia já permite cruzar dados de vegetação, temperatura, densidade urbana e vulnerabilidade social. O que falta é transformar esse diagnóstico em ação contínua.

As cidades que entenderem isso antes estarão mais preparadas para o futuro. As que demorarem pagarão mais caro em saúde, infraestrutura, energia, drenagem e qualidade de vida. Arborizar é prevenir. É cuidar do microclima, reduzir a sensação térmica, proteger a água, melhorar a paisagem, estimular caminhabilidade e devolver humanidade ao espaço urbano.

Jundiaí já teve coragem para recuperar um rio e proteger a serra. Agora precisa ter coragem para enfrentar o calor que ela mesma ajudou a produzir com décadas de impermeabilização, expansão urbana e pouca sombra. O futuro climático da cidade não será decidido apenas em grandes conferências internacionais, mas também na escolha aparentemente simples — e profundamente política — de plantar, cuidar e proteger árvores onde elas mais fazem falta.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ 

Comentários

Comentários